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Mostrando postagens de julho, 2020

Desculpa, mas...

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Desculpas não devem ser acompanhadas de conjunções adversativas. Sem "mas", sem "porém", sem "contudo", sem "entretanto", sem "todavia" [...]. Não! Não após uma desculpa. Isso deveria estar na gramática, em letras garrafais! Deveria ser onipresente, tão trivial quanto o respirar. As desculpas necessitam de veracidade. Nelas não há espaço para vaidades. Devem brotar do íntimo, do âmago, do cerne. Devem carregar o peso do arrependimento genuíno. Caso contrário, "desculpa" torna-se apenas uma palavra lançada ao vento — destituída de qualquer significado — pronta para ser proferida novamente [...], e novamente [...], e novamente [...].   Dunas de Zéfiro.

Versos soltos para sentimentos sombrios (Cicuta)

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Sabes que não deverias agir assim. Sabes que o teu silêncio fúnebre Impede que o meu coração — Aflito — Bombeie o sangue ao meu cérebro. E como dizem por aí: mente vazia, oficina do diabo. Os dias e as noites pueris desse lar Corroem o meu peito e d ilaceram o meu corpo. A falta de contato, A ânsia pelo afago  E a solidão da pele Nutrem os meus desejos mais sombrios. Vamos! Abra a boca! Abra os olhos! Está claro aqui fora! Tua cegueira proposital Encharca o nos so solo de cicuta. E a cicuta... (Ah, a cicuta!) A cicuta leva o nosso amor à cegueira involuntária. Uma cegueira sem fim.   Cicuta maculata .

Labirinto de portas

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Sentia-me em um labirinto. Um labirinto diferente de tudo o que eu já havia visto. Um labirinto de portas. Cada porta que eu atravessava me levava a um lugar totalmente diferente, aleatório. Da sala de jantar de uma casa de uma família de classe média para um supermercado. Do supermercado para o saguão de um hotel chique. Do saguão do hotel chique para uma escola, e assim por diante. A cada maçaneta girada, a cada porta aberta, era como se um portal rumo ao desconhecido estivesse sendo aberto para mim. Eu não tinha ideia de para onde as portas estavam me levando, mas sabia que nelas estava a minha única oportunidade de voltar para casa e rever a minha família. Tremendo de medo, continuei vagando. As pessoas que encontrava em meu caminho agiam como se eu não existisse. Não adiantava falar, gritar ou pedir ajuda. Era como se eu não estivesse lá. Mas eu estava! Eu observava seus afazeres e ouvia seus diálogos, mas ninguém me respondia. Ninguém falava comigo. Ninguém olhava nos meus olhos....

O ataque da besta maldita

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A cada passo que dávamos, parecia que aquela besta maldita avançava mil. Ela veio desgovernada, consumindo tudo o que havia à sua frente. Tentamos gritar, alertar as pessoas, mas muitos não nos deram ouvidos. E agora, todos estamos pagando por isso. Os bravos se perderam no caminho. Aqueles que tiveram a ousadia de enfrentá-la se foram para nunca mais voltar. Ela destrói tudo o que toca, se alimenta de qualquer coisa que apareça à sua frente. E quanto mais ela consome, mais forte ela se torna. Já somos poucos agora, mas não significa que desistiremos da batalha. Lutaremos bravamente até o fim, mesmo que não reste mais nenhum de nós. Mas preciso confessar: minhas esperanças estão ficando escassas. Só um milagre pode nos salvar.   A besta maldita.

Genealogia de Fulano

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O trabalhador.   A prosperidade meritocrática é singular ao portador do carpano. Pobre diabo daquele que crê em Fulano , que é filho de Ciclano, neto de Beltrano e bisneto de Herculano. Brasileiro de nascença e — por sinal — caucasiano, Fulano... Enriqueceu graças ao seu pai , Ciclano, que se enriqueceu graças ao seu p ai, Beltrano, que se enriqueceu graças ao seu pai, H erculano. Imigrante europeu antediluviano — Se fosse preto e pobre, Herculano: seria pobre Beltrano, seria pobre Ciclano, seria pobre Fulano.