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Mostrando postagens de abril, 2021

Jogo da vida — volte três casas

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Jogo da vida. Uma dose, por favor! Pensando bem, pode deixar a garrafa. Se bêbado é o estado da verdade, de hoje em diante, esta será a minha estação. O ébrio que me habita tem sede, e ele está farto de se enganar.   Sem querer ofender os poetas, mas não vejo valia em cobrar ovo de pato macho. O império do imperativo segue ditando a moda, a média e a mediana, mas ninguém nunca me perguntou em qual parte da curva me sinto confortável. Enviesam tendências e orquestram ranqueamentos para transformar nossas vidas em uma grande competição injusta, onde os papéis da minoria e da maioria se invertem.   E ai daquele que ficar para trás! Será julgado e estará fadado ao eterno esquecimento, afinal, ninguém se lembra do segundo colocado. Mas eu digo: que se danem se não lembram do segundo colocado! Eu mal queria competir. E nem, ao menos, a segunda colocação me caiu.   Inventam histórias e estórias — se é que isso seja possível — para nos moldar, para nos forçar a pen...

O velho chato do bairro

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Venho aqui fazer o mea culpa . A partir de hoje, me torno o advogado do Diabo. Ou melhor, a partir de hoje, assumo o papel do próprio Diabo. Porque, se um dia Jesus disse: " Vinde a mim as criancinhas ", o Diabo — indubitavelmente — confirmou: " Ide a ele e me deixai em paz !" O velho chato do bairro não era, e nunca foi, um velho chato. O velho chato do bairro era um incompreendido. Deram-lhe a alcunha de rabugento, mas tudo o que ele queria era um pouco de sossego. Passou por poucas e boas durante a sua vida, não merecia que o seu findar fosse baseado em aturar um bando de crianças malcriadas. Seu desejo, único, era fazer o que nunca pôde: descansar.   Ah! Se ele soubesse que aquelas crianças que tanto repreendeu — crianças que nunca tiveram limite — hoje são pais de crianças que, obviamente, também não sabem o significado da palavra limite . Ele bradaria aos quatro cantos do mundo: " Eu avisei !" Pobre velho chato do bairro. Peço-lhe perdão. Perdão pela...

Testemunha de Darwin

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Quem, em sã consciência, ousa interromper a minha paz dominical? Testemunha de quê? Não, nunca ouvi falar. Não. Não quero ouvir, muito obrigado. Já falei que não quero ouvir. Por favor, não insista. Apocalipse? Pro diabo com esse papo furado. Inferno? Que inferno? Amigo, eu sou ateu. Por favor, não insista. Sério?! É guerra que você quer? É guerra que você terá! Espera um minutinho. Vou buscar um livro e já volto.   [...]   Você já ouviu a palavra de Darwin hoje? Isso, Darwin! A Origem das Espécies . Como é? Satanás? Primo de macaco? Que macaco? Ele não disse isso! Balela? Eu estou falando de ciência. CI-ÊN-CI-A! Quer saber? Você acaba de ganhar um rival. Sairei, de porta em porta, pelos quatro cantos do mundo, "pregando" a palavra de Darwin. E tenho dito!   [...]   Olá! Você já ouviu a palavra de Darwin hoje?   [...]   Olá! Você já ouviu a palavra de Darwin hoje?   [...]   Resultado: 20 casas, um cafezinho,...

Matintape're - A origem

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Agradecimento: a um texto, há pitacos que são mera perfumaria e que, mesmo quando acatados, no fim das contas não fazem diferença alguma. Em contrapartida, há pitacos que engrandecem, aprimoram e preenchem lacunas. Esses são fundamentais. Amigo Ed, obrigado pelo pitaco fundamental. De pai e mãe herdou a escravidão. De pai e mãe herdou a rebeldia.  Vestia branco. Branco cru. Branco gasto. Branco de senzala.  Na cabeça, o gorro. Gorro de estopa. De saco velho. Gorro ensopado de suor e sangue.  Nunca tirava o gorro da cabeça. Nem para dormir. Inseparável gorro branco de senzala na cabeça de um homem de senzala. Homem de senzala, que nasceu na senzala. Cresceu na senzala. Sangrou na senzala. Aprendeu na capoeira. Aprendeu a se defender. Se defendia como ninguém. Sua perna esquerda podia ser letal. Seu discurso feria mais.  Bradava a liberdade ao povo. Bradava retumbante. E o coronel tinha ouvidos em pé. Ouvidos atentos.  O coronel ouvia o brado do escravo. Ouvia. E...