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Mostrando postagens de setembro, 2021

E os gatos?

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Milhões de olhos, por todos os lados, vigiando cada mísero arrastar de chinelos. Sem miopia ou astigmatismo, um ritual de ininterruptas vinte e quatro horas de julgamentos de conduta. E quando digo ininterruptas, estou falando sério. Ininterruptas. Até dormir virou um desafio. Qualquer sacudidela boba é razão para um dilúvio de lágrimas.   Não sou Noé, então, adeus mundo cruel! Estou mais para um Apolo ébrio tentando andar em corda bamba. Um Apolo mirrado, meio fora de forma, é verdade. Mas o esforço é proporcional. [...] É, pensando bem, talvez o meu empenho não seja mais o mesmo de tempos atrás.   E eu já nem lembro quando foi que comecei a carregar o mundo em minhas costas. Quem dirá os motivos? Pra ser sincero, não sei nem por que diabos continuo carregando essa porra. Deve ser a herança calábria do palerma que sou. Só pode! Pouco importa quem pecou, quem não pecou. A merda já está na mesa e este cheiro está difícil de engolir.   Vamos aos fatos. Sem ma...

Sentindo

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Eu sinto! Desde o útero da minha mãe, eu sinto. Conjugo o verbo sentir em todas as pessoas, com todas as pessoas e em todos os tempos. Senti, sinto, sentirei [...] e por aí vai. Assim seguirei, conjugando e sentindo, gerundiando o verbo sentir  até não conseguir mais. Sentirei até que os meus sentidos percam o sentido. Daí em diante, não sentirei. Mas, por ora, eu sinto. A borboleta dela.

Contato imediato de 3o grau

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Era uma noite fria de inverno no ano de 1985. Após passar o dia vendendo os queijos que a minha família produz em nosso sítio, eu finalmente voltava para casa, louco para calçar os meus chinelos e ter um pouco de descanso. Dirigia sozinho na velha estrada de terra que ligava a cidade ao interior. Estava a pouco menos de dois quilômetros de casa quando me deparei com uma situação, minimamente, suspeita.  Avistei um carro parado no canto da estrada. Seus faróis acesos, a porta do motorista aberta e, ao que tudo indicava, ninguém em seu interior. Mesmo desconfiado, e com muito medo, resolvi parar e averiguar. Fui até o carro abandonado e confirmei que ele estava vazio. Senti a minha espinha gelar; meu corpo se estarreceu naquela hora. Milhões de cenários e panoramas se passaram pela minha pobre cachola.  Explorei a cercania em busca de uma pista e, como um Sherlock Holmes, encontrei. Imerso ao matagal, avistei uma luz. Era uma luz muito intensa, que se movimentava pouco, mas que,...

Seu nome é Newton

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Cinco e meia da manhã. Com seus 12 para 13 anos e um metro e 70 de altura, ele espera o "208 X Aterrado", ônibus que o levará até o pé do Morro do Rosário. O morro tem esse nome porque, em sua parte mais alta, encontra-se o Colégio Nossa Senhora do Rosário, destino do jovem que adoraria estar em casa, debaixo das cobertas. No entanto, ali está ele, feito uma estátua, esperando um ônibus.   Enquanto aguarda, o rapaz observa um bando de pombos empoleirados em alguns fios de alta tensão. Esses fios estão localizados bem acima de sua cabeça, a uns três ou quatro metros de altura do chão.   Desconsidere o atrito do ar e considere uma gravidade de cerca de 9,8 m/s². Um pombo, que está a exatos quatro metros de altura do chão, sente algumas pontadas no estômago e resolve liberar a tensão soltando um belo de um tolete. A merda sai da cloaca do pombo a uma velocidade inicial de 2 m/s. Claramente, ela já estava "na porta" e o pombo quase não precisou exercer muita força para ...

O egoísta e a xícara

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Danem-se! Danem-se o céu, o inferno e tudo que estiver entre esses dois.  Não sou eu! A culpa não é minha!  É a vida que não presta.  Esses diabos não valem o que fazem no vaso.  Não eu!  Aqui estou, mergulhado em minha bagunça de quinquilharias. Bagunça que cultivei ao longo de tantos e tantos anos.   Alguém à porta. Tentei escapar pela janela, mas me sobram redes e me faltam tesouras.  Quem será? Às três da manhã?  Pro diabo que te carregue!  Uma, duas, três batidas.  Foda-se!  Eu digo e repito: que se foda! Não vou atender. Não, não, não e não!   Outra batida. Mais duas. Três batidas. Que insistência!  Será que aconteceu alguma coisa?  Maldita curiosidade!  Será que alguém está morrendo?  Raios!  Quem é? Vizinha? Que vizinha?  Sei. Uma xícara de peçonha para emprestar?  Claro! Pois não!  Vizinho é pra essas coisas. Chá?