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Mostrando postagens de junho, 2021

Aprendi de velho

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Que o abacaxi seja alheio! O contrário é fato do passado. Posso até não ter ofertado o pão e o peixe, mas distribuí sopa por aí. Fiz das tripas coração para me olhar no espelho e refletir o Nazareno.   Porém, filho de Maria e de José quer distância da cruz. Deus que me livre e guarde! No "venha ao nosso", só vejo "ao vosso reino". E, como de costume, navio à minha vista! E outro. E outro. E outro!   Mas... não mais! Meu pequeno equino agora está telhado. Doravante, não perco tempo com ritos. Que catem coquinho na esquina, para lá!   Pobre do gato escaldado: claro que tem medo de água fria. Estranho seria o contrário. Com as mãos limpas, feito Pilatos, o tempo me permite afirmar: quem faz o bem sem olhar a quem acaba sem um vintém.   Cofrinho.

A bailarina de São João

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Dança! [...] Dança comigo, dança pra mim, dança com quem, pra quem, onde e como você quiser. Só não pare de arrastar o pé. Dança aquela dança que só a gente dança. Dança um xote, um baião, um xaxado; esteja no tom ou desritmada, mas dança! Mais dança! [...] Dança, porque, quando você dança, o mundo inteiro dança. Então, dança! Por favor, dança! A bailarina de São João.

Relato de uma mariposa em um beco escuro

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Preta, puta, pobre e travesti. Pão-com-ovo, fina de dar pena, do cu se vê os dentes. E não é pra dar close, não, amapô. É da larica mesmo. Da fome. Vivo — ou sobrevivo — vinte e quatro horas no corre, no truque, no babado. Sempre no alerta. Sempre no giro. Por quê? Nem sei, mona. Mas tô viva. E já é muito nessa latrina. A maquiagem é meu reboco de guerra, meu aqué de defesa. E quando aquendo, abafa, porque a trava aqui não anda, ela fecha! Desfila, pisa, monta no carão. É minha metamorfose de pista. Mas só por fora mesmo. Porque por dentro continuo a mesma bicha desde erê. Como se nudasse, mas sem desmudar quem eu sou. Saí do casulo faz cota, desde erê,  mas só bati cabelo pra fora do armário na adolescência .  E quando saí, taquei fogo naquela desgrama pra nunca mais voltar. Nem imaginava o tanto de carrego que vinha depois. Deve ser culpa de Júpiter retrógrado, da lua virada, sei lá. Mas acho que o problema é o povo mesmo. O povo e sua neca de ódio. Minha família... Que famí...

As três cadeiras e o florescer de um assassino

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ATENÇÃO: conteúdo delicado. Este porão escuro me remete àqueles filmes de psicopatas assassinos, clássicos hollywoodianos. Mas eu não sou um psicopata. Ou será que sou? Definitivamente não sou um assassino. Pelo menos não ainda. Isso está prestes a mudar.  Três cadeiras alinhadas à minha frente. Cada uma delas ocupada por um membro da família que mora na casa de frente à minha. Maldita família! Que prazer em vê-los assim, amarrados e com as bocas tapadas. Vulneráveis como estão agora, mal se assemelham ao bando de mal-educados, prepotentes e metidos a democratas que costumam desfilar pelas ruas do bairro, com os seus narizes apontados para o céu.  À minha esquerda, o pai. Um frouxo que se mijou inteiro de tanto medo que está sentindo. Pelo cheiro, deve ter se cagado também. Um inútil — maconheiro filho da puta — que, de tão burro, é incapaz de formar uma única frase com mais de três palavras, mas adora espernear sua opinião para todos os lados, como se fosse o especialista em ...

Álvares ou Anjos

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Ao ledo cintilante, bradei: “Antes, o breu!”   Se o anseio da vida amarga é a morte,   E de tal desejo usufruí tamanha sorte,   Jamais imaginaria que o apogeu fosse tão breve.   Igualmente firmo a todo e qualquer ruído:   De tanto desejar a sua partida, sem saber,   Quão fugaz seria o belo perecer,   Afinal, o infindo silêncio se fez eterno.   À minha sorte, a desejada escuridão chegou,   E o, romantizado, breu, minha vista tomou.   Categórico e breve, aqui nada há a olhar.   A morte — certeira — enfim, rompeu o penar.   Daí em diante, não há mais lágrimas a chorar;   E ao mundo, digo: segue, mundo. Nada mudou. Corda da vida.