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Mostrando postagens de fevereiro, 2021

O caos

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O caos não nasce do acaso. A fundação do caos é a ordem. É na ordem que surge a desordem. O caos simplesmente é. O caos simplesmente está. E o caos está em casa. A casa do caos é a nossa casa. Nossa casa, cheia de espelhos. Um caos de espelhos refletindo o nosso cerne. E o nosso cerne também é um caos. Não poderia ser diferente. Ele vive do caos, se alimenta do caos e cresce no caos. Definitivamente, um absoluto caos.  Resultado: essas linhas são um verdadeiro caos. O caos.

Desabafo

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A estrela estava cansada de ser estrela. Era tudo o que ela sabia fazer. Também era tudo o que ela podia ser. Brilhar não a fazia feliz. Por isso, invejava as pessoas na Terra, seus verbos e seus predicados. Quantas possibilidades! Invejava o ser e o estar. Ser quem quisesse ser, estar onde quisesse estar.  A pobre estrela ainda tinha tanto gás para queimar. E queimou. Queimou até não ter mais o que queimar. Esse era o único verbo que ela sabia e podia conjugar, sempre na primeira pessoa do singular.  Vida infeliz teve a estrela, sem escolhas, sem opções e cheia de desejos. Apagou sem saber, mas as pessoas na Terra também a invejavam. Invejavam o seu brilho, a sua complexa simplicidade. Viver é, de fato, uma labuta. Desabafo.

Ensinar a pescar?

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O pregador ouviu o ronco da minha barriga. Ouviu de longe! De muito longe! Se vendeu como um homem sacro, um milagreiro que podia me salvar. Mas disse que, na vida, nada vem de graça. Para alcançar a graça, eu precisava dar a graça.  Bem que eu gostaria, mas 10% de nada é nada. O pregador mediu a minha fé e disse que era pouca. Disse que esse era o motivo do meu calvário. Depois, veio com um sermão de que não podia me dar o peixe; disse que eu precisava aprender a pescar. Sem vara, linha e anzol?! Só se eu virar milagreiro também. Deus que me livre! A minha índole não tolera esse tipo de pecado. O pregador contou a história de um homem que foi pregado em uma cruz. Disse que devemos seguir os ensinamentos desse homem. Mas o pregador deve ter trocado as bolas. Ele age como os homens que pregavam homens, não como o homem que foi pregado. O pregador disse muita coisa, mas, por mim, nada fez. Nesta terra seca, onde os urubus rodeiam a minha cabeça, passo o dia à procura do que comer. As...

O duelo

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O dia estava ensolarado, com um calor insuportável. Tudo o que José desejava era ficar em casa, derretendo de preguiça no sofá, mas o destino não dava a mínima para suas vontades. José precisava sair. Ele não sabia, mas essa saída mudaria sua vida para sempre. Mal colocou os pés na rua, um pombo fez suas necessidades fisiológicas na cabeça de José. O susto foi tão grande que ele deu um salto e foi parar no meio da rua. O coitado quase foi atropelado. Foi por muito pouco. Com um movimento brusco no volante, o motorista conseguiu evitar o atropelamento — pelo menos de José. O carro derrapou, desviou dele, mas acabou derrubando um rapaz que vinha pedalando sua bicicleta no canto da rua. Com a queda, o rapaz da bicicleta trombou com uma jovenzinha que voltava do mercado carregando uma bandeja de ovos. Os ovos voaram e se espatifaram na cabeça de João, que fumava, tranquilo, seu cigarro na calçada. João culpou a menina, que culpou o ciclista, que culpou o motorista, que culpou José, que cul...