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Mostrando postagens de maio, 2024

O mito de Lázaro

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O clima fúnebre impregnava o ambiente. Todos os presentes cantavam cânticos para guiar a alma do defunto para um caminho de paz e luz. Aos prantos, a viúva era consolada pela família. Ainda incrédulos, parentes e amigos fizeram questão de comparecer e dar o último adeus a um velho camarada que, de veras, deixará saudade. O caixão estava posicionado bem no meio do cômodo. Ao lado dele, alguns candelabros de aço suportavam velas acesas que penumbravam o lugar. As muitas flores aliviavam o cheiro da morte. Os idosos se sentaram nas poucas cadeiras disponíveis. Os mais jovens suportavam o cansaço e a tristeza de pé. Café e biscoitos ajudavam a manter os convidados acordados madrugada adentro.  — Quem diria? Lamentou um. — Ainda moço. Lamentou outro. — Pois é! O um que iniciou as lamentações concordou com o lamento em forma de resposta do outro.  Tanta vida pela frente e um escorregão idiota colocou tudo a perder. Ao menos era o que parecia.  — Morto se mexe? Perguntou um terc...

Parvos pardais também amam

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Eu, parvo pardal, afronto aos deveras fartos versadores do amor. Logo eu, pseudoplumeiro, amétrico e arrímico que vive de edsonear palavras tal qual quem acende uma lâmpada. Aquele que embuti calão dos quintos onde vier a calhar e, sobretudo, onde os impropérios são mal-quistos. Mas, como privar o verme de ser verme se isso é o que lhe concerne? Então, ouso. Do fundo das minhas entranhas, e mandando o brio pra puta que o pariu, eu ouso. Ouso porque amar é se estrebuchar com o tempo e o espaço em uma paulatina luta avesso a percepção. Dualidade entre o aqui e o acolá. Se a sinto, corre feito tempos de aperreio. Se não, lento feito tempos de remanso. Amar é se tragar na fonte da alegria e da agonia em infinda peleja pelo contento. Do regalo de um cheiro ilhado, mesmo quando o espaço lhe é alheado. Dualidade entre o aqui e o acolá, onde o acolá remete a lua que, até há um tempinho atrás, estava cheia, mas agora se esvaziou e parece uma pitomba reluzente. Amar é olhar nos olhos de quem se ...

Carta aos vivos

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Eu verso a morte porque a temo. No avesso, não verso, me lixo. Ao tempo que a temo porque me assombra, talvez neste avesso também afronte um fato. Fato é, não temo o fim, temo o meio. Passado o tempo entre o estar vivo e o morrer, será passado. C'est fini . Isto posto, alheio ao tempo que ainda tenho, vivo enquanto é tempo. Depois, no fundo do poço, é posto que estarei indisposto.   Não por falta de querência. Estará mais para falta de existência. Ao ponto que o tino me norteia; tino alheio, norte alheio. Para uns, o fim é a incerteza do fim. Para outros, a incerteza do início. A mim, uma incomprovável certeza: fim. Fato é, dias sim, noites também, a morte bate à minha porta e alarma: o vindouro perecer se aproxima. Afinal de contas, fazendo as contas e tirando a prova dos nove, hoje é o dia em que o tempo se atreve a me envelhecer. Bem como ontem também foi. E amanhã também será. E depois de amanhã. E depois. E depois. O diário me faz falto. No fim do resta um, definho dia após di...

A flor e o egoísta

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Ao ver tão linda flor imersa em vasto matagal, confesso, uma lágrima umedeceu as esquinas dos meus olhos. Salivei. Me apeteci. Lambi os lábios tenteando lhe orvalhar. Tenteei. Intuito singular de lhe ser estado atmosférico. Precipitação e temperatura. Invejei o tempo. Não sou o tempo. Falhei. Melhor riscar para o outro lado. Buscar outros meios. Mudar de direção. Mudei. Mudei para o orgânico. Invejei os teus polinizadores. Goelei ao divino por minha metamorfose. Quem sabe? Não custa tentear. Na beira do precipício, remoto. Alô! Alô! Alô! Quem sabe? Quem sabe assim tatearia tamanha formosura? Abelha, vespa, formiga, qualquer ser capaz de alcançar o breu do seu receptáculo. E, se assim fosse, pagodearíamos em sua antera. Disrítmico, me lambuzaria do teu pólen. E me lixaria à evolução. Ludibriaria uma coevolução de dois indivíduos unigeracional. Que se lasque o fruto! Por suas zonas viveria. Seria a placa de "proibido a entrada". Se afastem forasteiros. Só eu e você. Um ser junt...

Em obra

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Peso pesado feito pluma. Pairando como se arcasse, nos ombros, sacas de café. Com a falsa fé de quem nunca trocou os pés pelas mãos — ao menos hoje não, ainda. Antes era diferente. Fui tonelada de algodão. Tampado de dogmas avessos. Não me envergonho, mas também não morro de graças. E por falar em graças, graças a ti hoje estou leve. Descargo de carmas que carreguei, de uma herança vil que nunca desejei. Hoje estou em obra, e amanhã também estarei. Desculpa o meu transtorno, mas é para o bem — o meu, o teu, e de todos e de tudo o que me circunda num raio terráqueo. Sigo em construção, assim sempre será. A reforma é lenta, talvez regular, mas não tenho pressa. Sou obra de igreja.  Carma.

Eu, o egoísta

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Que eu ame,  Que eu sofra,  Que eu lute,  Que eu canse  e, por fim, Que eu morra. Quanto a você,  Que se lasque! Seppuku.

Meu nome

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Meu nome é Vagner. Vagner com v. O nome Vagner originou-se do sobrenome germânico Waganari. Germânico era o povo que habitava a região da Europa Central e Setentrional durante a Antiguidade. Povo ao qual desconheço ter qualquer ligação genealógica. Waganari era o nome dado àqueles que trabalhavam com transportes de mercadorias e construção de vagões ou carroças. Funções que nunca exerci. Waganari se escreve com w. E, como já mencionado, meu Vagner é com v. Foi abrasileirado; e eu sou brasileiro.  Apesar de Vagner ser meu nome de batismo, poucas são as vezes que se dirigem a mim dessa forma. Quando acontece, quase sempre recebo com uma leve taquicardia. Principalmente quando em lugares e situações que permitem informalidades. Me acostumei a ser tratado nas mais variadas — e ternas — formas diminutivas para Vagner, como, por exemplo: Vaguinho, Vaguim, Vaguininho, Vaguinim, Vadinho, Vado, Vadim, Vadinim Vaguinerzim, etcétera, etcétera, etcétera. Wagner também é o nome do meu...

O liador

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Na primavera, quando dúvidas não me escasseavam e certezas jorravam de baldes de respostas açodas, a rebeldia sem causa me norteava. Era a idade em que o cagar e andar não valia como Registro Geral. Era preciso de mais, muito mais, para ser quinhão. Era preciso cagar e pisar na própria merda — preferencialmente descalço — como prova de juízo. Nessa idade de muito achar, mas, de fato, pouco atino; sobre algo me sobrava acurácia: excelência na arte de liar. Dizem que a prática leva à perfeição. Então liei. Liei com infinda variedade de ervas. Liei com infinda variedade de sedas. Liei até cansar de liar. Liei até com o que não deveria ter liado. Enfim, liei. Num dia ranzinza, liei o pitu dichavado nas páginas do livro sagrado. Para ser mais preciso, nas páginas do Livro da Revelação, o Apocalipse de João. Camarão-vermelho que era, o sol do semiárido brasileiro lhe rendera inúmeros cristais. Era tanto lume que invejava a própria noite do Cerrado. Mina sem igual exigia zelo, e o tive. L...

Duas doses de nada

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Aos que merecem, duas doses de nada. Obrigado por nada. E de nada por qualquer coisa. Só não esperem fogos e festejos por cumprirem nada mais do que a obrigação. Sem honra ao mérito pra vocês. O mínimo não lhes renderão penduricalhos. E não o cumprir não é opção. Tal porque, escantear privilégios é miudeza perto de viver odisseias a miúde. Sair de casa, entrar num ônibus, trabalhar, ir a um bar, tomar um chope, quem sabe alguns chopes, dizer um oi ou nada disso, ficar em casa mesmo. Quintas-feiras pra uns, martírios diários pra outras. Ingrato desejo de ser e estar. Talvez conjugações banais pra você. Pra elas, Damas de Ferro. Aprisionadas por deuses falocêntricos, regidas por dogmas falocêntricos, vivendo em um mundo que gira em torno de um falo, enquanto os organismos se desorganizam em dois grupos: aqueles que perfuram e aquelas que sangram até a morte por ser criatura.  Você não sabe, não tem a mínima noção, o que é ter o cu na mão, entregá-lo a Deus e, ainda assim, se fod...