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Mostrando postagens de outubro, 2021

Movimento dos astros

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As primeiras bocejadas. Uma, duas, três. O corpo não mente. As dores, o peso. É hora de dormir.   Alguns passos até o banheiro. Mão na maçaneta, abro a porta. Me olho no espelho. Fecho a porta.   A TV me ensinou a lavar as mãos antes de comer, beber e pegar na mamadeira; e o dito popular prega que barata rói o canto da boca de quem vai pra cama sem escovar os dentes. Não sou muito de prevenir para não remediar, mas, nesse caso específico, prefiro evitar. Deus que me livre!   Escovo bem os dentes. Lavo o rosto, o enxugo com a toalha. Respiro profundamente. Penduro a toalha no toalheiro.   Me olho no espelho. Olho as minhas tatuagens. Quantas tatuagens? Perdi as contas. A primeira ainda é a minha preferida.   Fixo o olhar em meus olhos. Fixo o olhar. Meus olhos. Meus olhos. Meus olhos? Quantos olhos? Calma! Fixo o olhar. Agora sim! Vejo os meus olhos. No espelho, as bordoadas do tempo — e as peripécias de uma mocidade um pouco travessa....

Perfume pútrido

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Tudo muito perto. Tudo muito igual. Tudo numa mesma. Nada mudou. Tudo continua na mesma boa e velha bosta de sempre.   — Ah! Mas se estivéssemos na bosta, sentiríamos o cheiro da merda. Retruca um idiota literal. Ou seria um literal idiota? Tanto faz. Um infeliz.   Com a certeza de um blefe, clamo o truco e retruco. No começo — bem no comecinho — a gente até se incomodou com o aroma do chorume pairando no ar. Mas, com o passar do tempo, o cheiro se espalhou. O próprio Zéfiro encarregou-se desse serviço ingrato.   Lembro bem. A merda, como um rastro de pólvora, tomou de assalto todos os orifícios: os nasais e os não nasais. E, mesmo assim, insistimos. Os cabelos caíram. A barba cresceu e se embranqueceu. O cheiro ficou. E agora estamos todos acostumados com esse perfume pútrido.   É o que resta nesta festa: se acostumar. E a gente se acostuma. Se acostuma com tendências, com números, com tragédias. Se acostuma com tudo que tiver que se acostumar. S...

Eu acho

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Esta é a história de uma pessoa, e de outra pessoa, e de outra pessoa. Sem diálogo, sem diabo e sem nada. Pessoas. Apenas pessoas. E, como pessoas, pessoas diferentes.   Ela sabia que eu sabia que ele dizia saber, mas, no fim das contas, no frigir dos ovos, ninguém sabia de nada. Nem ela, nem eu, nem ele. Nadica de nada! Ao menos, eu acho.   Atento àquilo que acho, e mais atento ainda àquilo que digo que sei, acompanho o intervalo entre o raiar e o pôr do sol. E se algum sabichão vier com a prosa de que sabe das coisas, que vá saber para as bandas do raio que o parta.   O médico me disse para evitar leros assertivos. E, em meio a uma multidão assertiva, encontrei um porquê e o porque. Ora! Por que não?   Quem sabe se talvez?

A família Muriqui

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Sabe aqueles animais enjaulados, ziguezagueando, como se pudessem escapar do tempo? Assim estava o senhor Muriqui, andando de um lado para o outro, prestes a abrir uma vala na frente de sua casa. O sol já ia alto, e seu filho, que havia saído cedo para comprar pão, ainda não voltara. Todas as manhãs, religiosamente, o garoto pedalava até a padaria ao raiar do dia, mas agora a demora era insuportável, como se algo segurasse o tempo.   Raiva e preocupação duelavam na mente do velho, até que um alívio frio tomou conta de seu corpo. Ao longe, lá vinha o garoto, pedalando sua bicicleta. Mas o que começou como alívio logo deu lugar a uma fúria crescente, e a raiva finalmente venceu quando ele percebeu que o menino voltava de mãos vazias.   — Onde diabos cê'stava, moleque? — sua voz cortava o ar, carregada de um misto de desespero e incredulidade.   — Fui comprar o pão, pai. — E cadê o pão? — A padaria sumiu. Desapareceu! Escafedeu-se, junto com o resto da cidade ...