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Mostrando postagens de junho, 2024

Lamento do malandro

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Embuste de vida fácil, de despertar sem galo e sem grilos. A quem a mesa sempre esperou posta. Que nunca descascou uma batata e, quem dirá, os abacaxis que a vida traz. Se o tempo lhe rendeu algumas rugas, quem as entalharam foram o Vasco e o jogo do bicho. Destino danado que não lhe tirou a sorte grande no milhar.  Filho de desgraçados quaisquer. As maiores riquezas de seu vocabulário são as palavras pendura e fiado. Vive a ladrar que a busca por trabalho lhe fadiga até em pensamentos. Por tal, seu sustento sai dos bicos e das falcatruas que lhe caem no colo. Herdara do pai o gosto pela preguiça e o credo pela malandragem. Dele também herdara a fraqueza por um rabo-de-saia. Fizera de seu falo escoteiro. A preguiça que lhe sobra para a labuta, lhe falta para o cortejo. Andou arrastando asas a um mundaréu de outras que não caberia listar. Esqueceu-se do teto de vidro que lhe cobria. Enquanto se envaidecia na boêmia, largara a sua senhora em casa com as novenas e as novelas.  Co...

Em boca fechada não entra mosquito

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Quis devolver solidão, não consegui. Não sou desses. Sou daqueles. Daqueles que o silêncio a dois incômoda. Sou sentimento a flor da pele. Sou praticamente todo pele. Fiz das tripas coração. Coloquei os buchos pra fora. Desembuchei tudo o que achava que sabia. Caguei! Descobri que só sabia sobre a parte que me cabia. Pouco, ou quase nada, me cabia. Disse tal parte, disse o que não devia. E agora é tarde, como bem dito por Luís Vaz: sem paz, Inês de Castro jaz rainha. Confesso as fraldas frouxas. Podia ter me calado. Devia ter me calado. Talvez o silêncio não seja tão ruim quanto me parece. Às vezes, em silêncio, o nada vira um estupendo singular. Pegue dois pães franceses duros. Agora, pegue dois garfos. Coloque os pães e os garfos sobre a mesa. Puxe uma cadeira e sente-se à mesa. Certifique-se de que os pães estejam com os fundos virados em direção ao tampo da mesa. Feito isso, alinhe os pães perpendicularmente garantindo que uma das duas extremidades de cada pão forme um ângulo de 90...

Memórias póstumas de um zero a zero

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A duras penas vi meus sonhos empatados como naquele Bangu e Olaria no campeonato Carioca de 64. As metas dos arqueiros Ubirajara e Ari não foram vazadas, e o pouco mais de mil espectadores que foram ao estádio Moça Bonita naquele fatídico 17 agosto ficou a ver navios, assim como cá estou. Tal qual um urubu-rei escaldado cuja majestade fora perdida num verdadeiro “Ai, Jesus”, passei a andar com os pensamentos sem rumo, num deep profundo, como se desse azul não coubesse mais escuro. Mas sempre cabe mais. Bastaram três gotas, apenas três gotinhas, pro meu azul virar um breu total. Ficou tudo tão escuro, mas tão escuro, que à minha vista egoísta só restou a ponta do meu nariz avantajado. Resultado, tropiquei, me estabaquei e quase voei pela boca d'um poço qualquer. Ao ver buraco tão fundo, pensei com os meus botões: escuridão por escuridão, melhor no fundo do poço. Quiçá por lá teria um tiquinho de sossego. Resolvi provar da maçã de Nilton. Provei. Confesso, não gostei. Achei farelent...