Lamento do malandro
Embuste de vida fácil, de despertar sem galo e sem grilos. A quem a mesa sempre esperou posta. Que nunca descascou uma batata e, quem dirá, os abacaxis que a vida traz. Se o tempo lhe rendeu algumas rugas, quem as entalharam foram o Vasco e o jogo do bicho. Destino danado que não lhe tirou a sorte grande no milhar. Filho de desgraçados quaisquer. As maiores riquezas de seu vocabulário são as palavras pendura e fiado. Vive a ladrar que a busca por trabalho lhe fadiga até em pensamentos. Por tal, seu sustento sai dos bicos e das falcatruas que lhe caem no colo. Herdara do pai o gosto pela preguiça e o credo pela malandragem. Dele também herdara a fraqueza por um rabo-de-saia. Fizera de seu falo escoteiro. A preguiça que lhe sobra para a labuta, lhe falta para o cortejo. Andou arrastando asas a um mundaréu de outras que não caberia listar. Esqueceu-se do teto de vidro que lhe cobria. Enquanto se envaidecia na boêmia, largara a sua senhora em casa com as novenas e as novelas. Co...