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Mostrando postagens de abril, 2024

Macetando o Apocalipse

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João era um típico cristão fervoroso. Quarta geração de uma família evangélica. Ia à igreja na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado e, obviamente, no domingo, que é o dia oficial de ir à igreja. João era solteiro, parte por falta de opção, uma vez que as mulheres da igreja não se engraçavam muito para o seu lado; e parte por ainda não ter encontrado a sua cara-metade, com a qual iria copular, mas apenas com o intuito da procriação. João tinha as suas manias. Ao acordar, mal abria os olhos, ainda cheios de remelas, e corria para o oratório abrir uma página aleatória da Bíblia e tentar decifrar o que Deus havia preparado para o seu dia. João tinha pia certeza de que recebia mensagens do divino através das escrituras sagradas. No estilo daqueles passarinhos que tiravam a sorte das pessoas nos circos mambembes de outrora.  João sempre sonhou em ocupar um cargo de liderança na igreja em que frequentava, mas nunca foi indicado a um. A João, o pastor dizia que ele ...

As três carpideiras

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A mãe, coitada, era uma coitada. Tinha uma vida de merda. Órfã, morava na rua e a fome mandava lembranças do nascente ao poente. Seu bolso não sabia o que era ter centavos. Sempre que sobravam alguns, o endereço era certo: arranjar comida. Um bico aqui e outro acolá lhe mantinham o mínimo de dignidade possível. Trabalhava com o que dava, onde dava e como dava. Mesmo com pouca idade, fez de quase tudo nessa vida; mas o seu ofício mais frequente, e o único que talvez gostasse, era de carpideira. Quando debruçada aos prantos na tampa de um caixão, se sentia uma atriz. Uma atriz dessas de novelas, mesmo sem saber direito o que era ser uma atriz e o que era uma novela. Foi enquanto exercia o ofício de carpideira que conheceu o dono de uma pequeníssima funerária, mas um grandessíssimo bosta, que por ela se apaixonará. Sem muita escolha, cedo se casou sonhando com uma vida nova. Tão logo percebeu que se casar com um bosta a levou de uma vida de merda para uma vida de bosta. Teve três filhas. ...

Cruz e credo

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Não! Eu não creio! Eu não creio em Deus-pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra. Não creio que um homem, batizado Jesus (do nome hebraico יֵשׁוּעַ, transl. Yeshua), nato de Belém, na Judeia, que residira em Nazaré, na Galileia, teria sido concebido pelo poder do Espírito Santo e, pasmem, nascido de uma virgem chamada Maria (do nome hebraico מרים, transl. Miriam).  Enquanto convicções mínguam e dúvidas me abundam, seguro estou de que Espírito Santo é um estado brasileiro fronteiriço aos também estados brasileiros do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. E por falar em Bahia, eis a comunhão dos santos que conheço. A Baía de Todos-os-Santos. Bahia de São Salvador. Dizem que o pobre nazareno, por volta de seus 30, 33 anos, foi preso por atentar contra a ordem estabelecida pelo Império Romano. Também dizem que ele padeceu sob Pôncio Pilatos — governador da província romana da Judeia entre os anos 26 e 36, mais ou menos — que o condenou à pena de, como bem dito por Raul Seixas, mor...

O pacto

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Três da manhã, a hora dos mortos; e você, oposto, havia de repousar para daqui um tanto se deleitar dos privilégios e dos mistérios da vida. Havia. Abarrotado de conflitos, não prega os olhos nem por 10 vinténs. Mas [...] quem sabe por aquele que ostenta tantos nomes? A culpa não lhe dá folga. Lhe obriga a carregar nos ombros uma, duas, talvez três toneladas de fantasmas de uma vida abarrotada de escolhas socialmente erradas. Não para mim. Onde quadrados enxergam triângulos, eu enxergo dúvidas. Sou 30 gotas de dipirona monoidratada para as dores que os boticários não curam. Àqueles que vivem do pecado, a hora dos mortos é a hora de fechar os olhos e não dormir. Mais valia abri-los e olhar nos olhos do diabo. Encare os seus medos. Esqueça os seus remorsos. Coragem, homem! Abra os olhos! Se cobrir com o lençol não espantará os seus demônios. Pare de se enganar e, ao menos, ouça a minha proposta. Se a vida lhe é cara, lhe oferto a salvação. Lhe ofereço uma vida nova, longe de julgamentos,...

Era

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Quando o amor alveja, cansados relicários são rebaixados a quinquilharias. Era pavão, agora, quarado, [...] agora é pálido feito pena de garça — o sol gasta.  Caso certo do certo, a parte é tão óbvia quanto relativa. Ao tempo que zás conflito, e tão zás o arrependimento, tão zás jaz a mágoa. Num zás-traz. Mas quando o arrependimento é preguiçoso, assim também sou. E se a preguiça ousa em bater à porta, chegada a hora de se pensar.  Dor, como a morte, é a única certeza. Uma imediata e a outra [...] a outra talvez. Imediata como agora. E agora. E agora. O tempo é o tempo, segue — e assim será. No fim, a dor não é o tempo. A dor ou segue, ou melhora, ou acaba.  Se aos cacos ou não, pouco importa. O que vale é a saída .  Fato é, sem saber bem onde fica a saída, ando aos cacos. Aos cacos como [...] aos cacos como [...] aos cacos como pisos de cacos de lajotas de cerâmica nos quintais suburbanos do Rio de Janeiro. É, estou cansado! Cansado como se eu mesmo tivess...

A quarta-feira de cinzas

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ATENÇÃO:  conteúdo delicado. Se você não sabe o que é dor, minha senhora, seu lugar é pro lado de lá. Por de trás desta porta. As bandas de cá são pra'queles que cansaram de sofrer. E até do bocejo estou cansado. Me escondi pra não expor o trágico. Ainda mais pr'olhos desacostumados como os teus. Por isso me tranco em fortaleza antiflagra. Enquanto você, de fora, esmurra os portões da salvação. Não à própria, a alheia. A salvação do mais corajoso dos covardes. Daquele que esconde o seu rubor d'outro lado. O rubor por ato que em breve o palidecerá. Medo da vida, coragem pr'oposto. Parece que a coragem é relativa. Tempo e espaço. Tudo, absolutamente tudo, depende d'um referencial. Você na agonia de ouvir o choro alheio — o choro que vêm de lá d'outro lado — e em breve conhecerá a agonia ainda maior do silêncio mórbido. Mórbido pode virar estado eterno. E se é eterno, é morte. Aquele silêncio que incomoda àqueles que ainda vivem. O fado da incapacidade percorre sua...