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Mostrando postagens de novembro, 2020

Cárcere de intimidades

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Ninguém dá a mínima para as suas particularidades. Simplesmente não se importam. Praguejam a unidade em vez da desigualdade. Seus discursos são como pedras arremessadas em direção ao inocente. Tragédia iminente, prestes a derrubar um consciente. Eles estão prontos para empurrar o banco e assistir à corda acariciar o seu pescoço. Só existe uma regra neste jogo: se adapta ou te adaptam. Em cárcere de intimidades, a emancipação é preguiçosa. Julgamentos que aprisionam os desejos. Uma quimera chamada livre-arbítrio. Para os inconformados, anseio por uma única oportunidade — nada mais do que isso — de vivenciar o livramento. Ao dar-se, um milésimo de segundo para o mundo sair de cima de suas costas. Fácil? Nem um pouco. Mas a mim, inconformado que sou, bastou uma decisão. Entre uma infinidade de coisas que optaram por mim, escolhi a mais óbvia de todas. Escolhi ser eu. Cárcere de intimidades.

A arte do palhaço

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ATENÇÃO:  conteúdo delicado. O picadeiro deveria ser a extensão de seu lar, não a via-crúcis que havia se tornado. Um pobre coitado, pego para Cristo. Palhaço de profissão, palhaço de coração, palhaço na vida. Infeliz do palhaço. Nenhuma risada vinda da plateia. Ao invés de gargalhadas, lágrimas. Lágrimas que refletiam os sentimentos mais pútridos de uma plateia que não poderia ser definida de outra forma senão podre. Tão podre que lhe deu a alcunha de o Pior Palhaço do Mundo. A plateia não sabia — ou talvez nunca soubesse —, que palhaço e graça não são sinônimos; palhaço e sinceridade são. E era isso o que o Pior Palhaço do Mundo fazia de melhor: ser sincero. Mas quem disse que a podridão aprecia a sinceridade? A podridão quer ver o caos. Vive do caos. E, assim, não sossegaram até instaurá-lo. Começou com um burburinho para cá, um disse-me-disse acolá. E, como um vírus, a fama do palhaço se espalhou rapidamente. Todos, sem exceção, queriam comprovar a existência de um palhaço inca...

A faxina

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ATENÇÃO: conteúdo delicado. O escravo que mata senhor,  seja em que circunstância for,  mata sempre em legítima defesa. LUIZ GAMA As marcas de um marido ébrio e violento já não eram mais cobertas pela maquiagem. Ao marido, a servidão de uma esposa submissa; à esposa, socos, pontapés e assédios. Essa era a rotina do casal, mas a esposa chegou ao seu limite; estava cansada de levar uma vida de merda, cansada de chorar escondida pelos cantos da casa. O sofrimento havia de se acabar. Encontrou sua vingança nos remédios que tomava — ou melhor, nos remédios com os quais se entupia — na busca de uma noite de sono tranquila. Um marido de ressaca, um café para curar. Café forte, com um toque especial; remédio suficiente para derrubar um cavalo — suficiente, também, para derrubar um embuste com a alcunha de marido. Pronto! Um traste dopado. O descanso foi breve, nem uma hora. Bem feito! Só os justos merecem um sono tranquilo. Acordou com uma dor — aguda, insuportável. Dor que nunca havi...

A chama ainda queima — por ora

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Vejam todos quem bate à porta. É a morte! A destra ceifadora. Revigorada — fúnebre e taciturna. Desfilando a céu aberto, escoltada por seu exército, disposto a matar e a morrer. Exército de recrutamento interminável. Alistem-se já! Todos são, e sempre serão, recebidos de braços abertos. Basta retomar a rotina de outrora. Vida que segue — e mortes também. E para aqueles que acreditaram na estória de um "novo normal", parabéns! Vocês foram feitos de palhaços. Ou melhor, vocês foram feitos de soldados. Apresento-lhes o bom e velho normal disfarçado de novo, trajando máscara. Máscara que cobre mais do que a boca e o nariz. Ela também venda os olhos. Enceguecidos, não notam. Os vulneráveis continuam sendo sacrificados em nome do gozo dos opressores — agora aos montes. E os opressores seguem protegidos por muros sociais que segregam classes, cores e gêneros. Sejam todos bem-vindos ao exército da morte. Sejam todos bem-vindos à tragédia anunciada. Aos dispostos, avante! Afinal, você...

Domingo é o dia do diabo

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Hoje é dia de me danar ao cacarejar de um galo velho. O despertar virá naturalmente. Farei o que me der na telha. Se — por ousadia — surgir algum convite inesperado, que seja para não fazer nada. E, olha, periga até recusá-lo, porque até o não fazer nada requer intimidade. Hoje é dia de uma branquinha para abrir o apetite — e que apetite! Sem essa história de miserê. Hoje é dia de passar o dia de pijama. Mais tarde, trocarei a roupa de cama. O sofá será o meu trono; a cerveja, o meu fausto; e a preguiça, o meu mantra. Tudo como o diabo gosta. Hoje o dia pede isso. Hoje é domingo. Dia de satisfazer o não fazer. O cacarejar de um galo velho.