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Ensaio sobre a fofoca

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1. Introdução Fofoca . Substantivo feminino, de seis letras, capaz de provocar uma infinidade de sensações em seu agente receptor. Sensações que podem variar entre espanto, entusiasmo, surpresa e vergonha alheia, até tesão, asco, nojo e repulsa. Conforme o dicionário Aurélio, fofoca é definida como: • dito cheio de maldade; disse-me-disse; mexerico; • aquilo que se comenta com o intuito de causar intrigas; • conversa sem fundamento; especulação; • ação ou efeito de fofocar, de bisbilhotar, de divulgar segredos de outras pessoas. Segundo vozes da minha cabeça — que são muitas e diversas, mas aqui me refiro especificamente às que entendem de fofoca —, a origem da fofoca é incerta e de difícil datação. Contudo, relatos completamente inventados por mim, sustentados exclusivamente pelo meu achismo, apontam a dominação do fogo pelos antigos hominídeos como fator fundamental para a disseminação desse fenômeno social. Ao redor da fogueira, grupos se reuniam para cozinhar, se aquecer, afastar p...

Fajuto ateu, graças a deus

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Nunca fui sério. Nunca fui meão. Nunca fui santo. Mas também nunca fui escroto. Não, escroto eu nunca fui! Ou melhor, rematutando bem, também nunca fui mentiroso.  Confesso, já fui escroto. Empiriquei Paulo Freire. Não tem perigo! Empiriquei! Mas nada suficiente para tirar o meu pedacinho no céu.  Mesmo me esforçando muito pra cheirar o chão de talco que o diabo encarreirou, na balança, ainda aponto pra riba. Oxe! O que foi?  Um ateu não pode fazer analogias cristãs? Valei-me! Ofá.

Punheta

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Uns 90 milhões em ação; ao menos, foi o que médico me disse. Pra frente Brasil. Pra cima Brasil! Salve a seleção! Ora? Por que não?  Nada mais natural do que a solidão. Pelo sim, pelo não, pelo pelo na mão. Afinal, mais vale um pássaro na mão do que um estouro de estorninhos no saco. Desculpe-me! Estou sendo escroto. Mas é isso. É orgânico. É um coitado pentelho que coça. Inocente, a mão familiar busca, a coceira pelicular, aliviar. Um despertar e, quando vê, carícia em mastro em contento  —  confesso, faltou-me humildade.  Ademais, demais contente. Em demasia em contento. Num harmônico sobe e desce que umedece e anseia o júbilo do momento. E o final é um momento de contento.  É isso. Pra frente! Pra cima! Pra fora, Brasil! Em riste! Faça soar o seu brado retumbante! Pra todos ouvirem. Assim! Ai, Jesus! Duas vezes: ai, Jesus! Olha o gol! Olha o gol! Olha o gozo!  Uma pausa dramática. Uma respiração profunda: Gozo. Valei-me!  Ufa! Que porra é essa?

Neurose

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Meu cérebro pulsa a quilo. E aquilo que consumi, hoje me consome.  Quantos vícios?  Quantos?  Vícios?  Tantos! Eu nem sei.  Se eu começar a me preocupar com isso, será meu novo vício.  Talvez seja esse o meu drama. Se, ao menos, fosse em grama,  talvez minha memória não fosse esse disquete. Não sei bem como funciona. Sou leigo no assunto.  Não sei se é pelo consumo de frutose —  comprometo o meu ritmo por uma maçã —  ou por osmose,  quem sabe asquerose.  Por que não? Eu sou um inventor. Asquerose. Asquerose soa bem! Não existe, mas soa bem! Ou, quem sabe, não está na 2-desoxirribose. Sei lá?! Vai saber!  Quem sabe não veio do meu pai. Veio da minha mãe. Ou, quem sabe, dos meus avós.  Quem sabe?  A única coisa que sei: a minha sobra de adenosina depende de mais uma dose. Mais uma dose, por favor! Uma para mim e outra pro santo, não necessariamente nessa ordem. Mas a ordem foi dada: mais uma dose! Mais uma dose, ma...

Eu queria ter fé

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Talvez, só talvez, as Três Marias  —  andarilhas das bandas lácteas que prendem as calças de um gigante cheio de testosterona  —  sejam as que me guardam.  Pai, filho, espírito santo e amém?  Uma ova! Maria, Maria, Maria e Maria. Três vezes Maria. Talvez, só talvez, nem sejam três Marias. Talvez sejam seis. Ou talvez sejam mais.  Não sei.  Talvez sejam 10, igual aos mandamentos. Talvez 12, igual aos apóstolos.  Mas tudo isso é puro achismo. Puro achismo.  Dando linha ao meu achismo; talvez, só talvez, algumas dessas Marias sejam Marias; talvez outras não, mas, talvez, só talvez, essas me guardem.  Vai saber? Me mostram o caminho, tais quais girassóis, ou o Cruzeiro do Sul.  Pelo sim, pelo não, e por tudo que há no meio disso, quase fazem um ateu ter fé.  Como? Eu não sei. Mas hoje estou rogando de joelhos, eu queria ter fé.  Haja fé para um ateu.  Dois barcos.

Memórias de uma primeira comunhão

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Um dia me lembrei do padre Sano. Acho que era Sano o nome dele. O padre Sano foi o padre da minha primeira comunhão. Na verdade, não me lembrei exatamente do padre Sano. Me lembrei de um episódio com o padre Sano no dia da minha primeira comunhão. Acho que, na verdade, me lembrei primeiro da minha primeira comunhão e, depois, do episódio com o padre Sano. Mas, no frigir dos ovos, me lembrei. Me lembrei, e lembro como se fosse ontem. Eu estava cagando de medo. Com o cu na mão. Me cagava porque estava prestes a enfrentar o confessionário. Era o meu debute. Pouco mais de dez anos de pecados acumulados, e eram muitos. Muitos desses, a grande maioria, cometidos após os seis anos. Como eu aprontei! A minha agonia foi longa, pois os formandos em Cristo eram chamados à confissão em ordem alfabética. Meus pais me escolheram um nome que se inicia com a letra V, uma das últimas do alfabeto. A ordem alfabética, às vezes, me frustra. Todo mundo lembra que A é de amor, B é de baixinho, mas ninguém s...

Mamirauá

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Caralho! Tanto sofrimento. Tanta dor. Que falta me faz o guaraná, […] o açaí e o tucumã, […] o tucupi, o tacacá. Tudo isso.  Se aquieta! Eu explico. Ou, tento.  Um dia larguei o vale do Paraíba. Troquei pelo acarajé, pelo vatapá.  Depois desviei rota pra's bandas de lá do cerrado. Jurubeba, buriti, piqui, cajuí e aquela manga-rosa cheia de cristais.  Inquieto e decidido, fui pro estado da negação. Nego! Claro que nego! Nego quantas vezes tiver que negar.  Só não nego o meu amor, nata do estado da negação, mas que subiu o Solimões até se perder de vista.  No seu lugar deixou uma alergia a camarão, uma abstinência e o meu estado repleto de negação.  Ela é o meu pleonasmo necessário, a abundância que não cessa. Ela é a minha casa.  Baião de dois. Nós dois. Por favor, nós dois! […] Agora não tem nós dois. […] Não tem.  Nenhum de nós. O rio levou. Mas, por favor, diga a ela: em breve terá. Diga a ela. Em breve terá guaraná, açaí e tucumã, tucupi, ...

Dois pontos: um pecador convicto

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Em tanto  —  talvez quanto  —  disse-me-disse, me disseram um tanto.  Disseram tanto que diabo não pode, ao invés: há de ser santo! E eu, que sabia que não era santo, me caguei!  Fiz das tripas coração e dos ovos a minha estrada. Fui tentando, e falhando. Rachando uns ovos aqui. Esmagando outros acolá.  Enfim, falhei rudemente. Não dava pra esperar outra coisa de uma criança cuja memória não era bem uma memória. Talvez uma vaga lembrança.  Você acha mesmo que eu lembro os dez mandamentos de cor e salteado?  Você acha mesmo que um dia eu já soube? Ave Maria? Pai nosso? Salve Rei? Credo? Ave Maria e cruz credo! Na prova pra santo, fui reprovado umas seis vezes. Talvez sete — sete é número de mentiroso. Todas reprovações por mérito e com louvor.  Mas persisti. Não queria dar o desgosto à minha mãe de ser a única criança do bairro sem diploma de santo.  No fim das contas, capenga, passei.  Nas costas largas, é bem verdade. Graças à...

Um belíssimo de um merda

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Precisa de ajuda? Não me pergunte como! Afinal, sou o melhor do melhor em não ser o melhor em porra nenhuma.  Do fracasso sou a pessoa, o adjetivo e o verbo. Fracasso auto-imperativo.  Fica assim: Fracasso, o fracassado, fracassou.  E, sem sombras de dúvidas, também sou o complemento que, indubitavelmente, potencializa o verbo.  Agora: Fracasso, o fracassado, fracassou outra vez. Um baita de um fracassado.  Mas, vida que segue.  Vida que segue? Pra quê?  Como: pra quê? É obvio!  Ao tempo que me sinto o pior sendo o que sou; sendo o que sou, sou o melhor em: ser o pior! O que não me tem utilidade alguma, eu sei. Paciência! Mas, sou! É isso. Ponto. Sou aquele que de tanto tentar ser, não sabe o que é, mas sabe o que quer ser. Por ora, apenas sou o que sou, e não o que quero ser. Sou a cerveja sem álcool, o cigarro sem nicotina, o espelho ao avesso, o cavalo paraguaio que morre na praia.  Sou um punhado de migalhas do que gostaria de ser. Migalh...

Ao padre, com carinho

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Um dia direi ao padre Ernesto, com quem costumeiramente fumo um cigarro e tomo um vinho por detrás da igreja:  — Padre, sou ateu! Não satisfeito, completarei:  — Sou entregue aos vícios, padre. Da meretriz quero o gosto e o corpo. Entre as Marias, predileção à Madalena. Do carteado quero o gozo e o troco.  Dos outros vícios, como já dito, a gente costumeiramente compartilha n'outra cena.  E se, por um acaso, o padre vier a se queixar; retrucarei: — À obrigação da rima, verso livre. À anarquia, regras. Ao ateu, deus.  Afinal, do que é feita a descrença senão a crença.  À existência d'uma, a existência d'outra. À inexistência da outra, a existência d'uma.  No credo não creio, mas, pouco me importa se crês tu.  E se a birra do padre firmar, de imediato aviso: irei com meus vícios pr'outras bandas.  Provavelmente um bar. INRI.

Dez minutos ou dois gols: escândalo do dia

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De quatro, de rabo, de diabo a quatro. Mas vale uns quatro de lado do que um quatro alado.  Ao lado, onde já se viu número de asas? Se não vi, duvido. Se duvido, duvido. Duvido e ponto.   De quatro,  O cinco fica de fora.  Bem-feito! Quatro é par e cinco é ímpar. E, por sorte, não sou o quinto. Quatro é par e cinco é ímpar. De quatro, de lado, de diabo a quatro. O um que se folgue,  o dois que aproveite,  o três que se deleite, o quatro que regozije e o cinco que se lasque. Diabo.

Jabuticabas

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Dois olhos.  Talvez sejam azuis.  Azuis, daqueles bem escuros.  Talvez, azul-petróleo. São dois olhos azuis,  quase pretos. Azul-petróleo.  Pretos. Ou quase.  Quase pretos, olhos de jabuticaba.  Isso, jabuticaba! Jabuticaba. Pretos olhos de jabuticaba. Pretos olhos me fitando;  eu em riste.  Ao tempo que a fito se umedecer. Dois dedos de tato. Fito-a com meus olhos que não são como os dela. Os dela?  Dois olhos azuis, daqueles bem escuros  — —  quase pretos. Olhos de jabuticaba.  Eu fito de cá. Ela fita de lá.  Meus olhos que não são jabuticabas; e os olhos dela que também não são. Mas, parecem.  Dois olhos. Duas pálpebras.  Duas pálpebras que respondem ao seu sorriso,  escondem dois olhos. Dois belos olhos. Duas belas jabuticabas escondidas por detrás de duas pálpebras.  Cortinas de um espetáculo cor de jabuticaba.  Jabuticabas.

É...

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Tem dias que acordo assim.   Tem dias que acordo assado.   Tem dias que acordo e pergunto:   Por quê?   Por que o que sinto é saudade.   Porque sim. Talvez. Por que não? Por quê?   O porquê é porque digo "sim". Digo sim a cada condição,  A cada situação  E a cada senão.   Se não, não seria eu.   Não sei... Senão,   Sei. É.  Campo de girassóis.

Fadiga

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Cansaço e corpo, meus, unificados em mim. Sou ser, esse ser que fala, e que às vezes pensa — pois pena — em não ser. Já que sou, mesmo sem querer, me sinto uma qualquer pena, que não quer que de mim sintam pena; tal qual quem depena uma ave que sequer voa. Eis o fado de quem vive da pena: sem querer e, sendo convidado, se vê obrigado a entrar em cena. Luz, câmera e verbo. De que vale um pavão depenado, senão ter pena?  Pobre pavão. Talvez, covarde que sou, continuarei a ser aquele que talvez preferiria não ser. Talvez, nem tão covarde assim, já que viver requer a coragem de ser. Mas, também, nem tão corajoso, já que morrer também exige coragem. Vivo ou morto, sou covarde e coragem. Sou a dualidade. Sou sempre dois, mas de um sou certo: sou inteiro cansaço. Queria apenas ser. Por tal, sigo sendo o que suporto ser. Até quando? Não sei. Mas sou.  Paciência. Talvez seja covardia, mesmo. A lâmina.

Quiromaníaco da madrugada

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Justo na hora dos mortos? Viva! Ela, viva, dorme o sono dos justos; enquanto eu — ainda vivo — vivo trancafiado no banheiro, sonhando acordado em filiar-me aos homenageados dessa dita hora. Contraintuitamente, com a mão cheia de pelos, gasto, com o meu braço direito, a energia que não desprendo em nenhuma outra atividade senão a punheta.  O que me pesa é a falta que sinto da dialética socrática, que jaz junta à sua humildade inerente. Após posto exposto a relação entre o pensar e a existência, o saber da própria ignorância, que movera guaribas bípedes, foi relegado à certeza do saber. Num zás, porque o trás ficou para trás, surgiu o: penso, logo sei; quando o ideal seria: penso, logo acho. Pelo menos, eu acho. Mas isso pouco importa. Eu acho muita coisa. Kanteneando à esquerda, penso, logo [...] acho. Se acho, logo, não tenho certeza. Mas, acho. Acho, por exemplo, que ela não sabe das minhas peripécias solitárias no banheiro durante as madrugadas de insônia. Acho. Não sei. Mas, ach...

A lenda da cobra que mama

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ATENÇÃO: conteúdo destinado a pessoas de NENHUMA IDADE . De lá de longe. Lá pr'os lados do açude Carcará. Pr'essas bandas longínquas, pra lá d'onde Judas perdeu as botas, morava a família do Zé Seca-Pimenteira. Esposo, esposa e uma criança recém-parida viviam numa erma casa de taipa. Sem forro e sem reboco. Casa simples, de dois cômodos: o de cozinhar e o de dormir. As necessidades faziam no mato. E vizinhança mais próxima, só a horas e mais horas de andada a pé. O sucedido se sucedeu numa noite de sexta-feira do dia 13 do mês de agosto. Tal qual farol, naquela noite, a lua cheia lumiava as esquinas solitárias do sertão. Da varanda, o esposo olhava pr'o céu como se conversasse por telepatia com o divino. Rogando por aquilo cuja voz não podia orar. Pensava na vida e na morte. Na varanda, o esposo tentava desfadigar a labuta do dia com uma boa dose de água-ardente. No rádio de pilha, o noticiário o avizinhava do resto do mundo. A hora antes da hora de dormir era a hora de...

Lamento do malandro

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Embuste de vida fácil, de despertar sem galo e sem grilos. A quem a mesa sempre esperou posta. Que nunca descascou uma batata e, quem dirá, os abacaxis que a vida traz. Se o tempo lhe rendeu algumas rugas, quem as entalharam foram o Vasco e o jogo do bicho. Destino danado que não lhe tirou a sorte grande no milhar.  Filho de desgraçados quaisquer. As maiores riquezas de seu vocabulário são as palavras pendura e fiado. Vive a ladrar que a busca por trabalho lhe fadiga até em pensamentos. Por tal, seu sustento sai dos bicos e das falcatruas que lhe caem no colo. Herdara do pai o gosto pela preguiça e o credo pela malandragem. Dele também herdara a fraqueza por um rabo-de-saia. Fizera de seu falo escoteiro. A preguiça que lhe sobra para a labuta, lhe falta para o cortejo. Andou arrastando asas a um mundaréu de outras que não caberia listar. Esqueceu-se do teto de vidro que lhe cobria. Enquanto se envaidecia na boêmia, largara a sua senhora em casa com as novenas e as novelas.  Co...

Em boca fechada não entra mosquito

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Quis devolver solidão, não consegui. Não sou desses. Sou daqueles. Daqueles que o silêncio a dois incômoda. Sou sentimento a flor da pele. Sou praticamente todo pele. Fiz das tripas coração. Coloquei os buchos pra fora. Desembuchei tudo o que achava que sabia. Caguei! Descobri que só sabia sobre a parte que me cabia. Pouco, ou quase nada, me cabia. Disse tal parte, disse o que não devia. E agora é tarde, como bem dito por Luís Vaz: sem paz, Inês de Castro jaz rainha. Confesso as fraldas frouxas. Podia ter me calado. Devia ter me calado. Talvez o silêncio não seja tão ruim quanto me parece. Às vezes, em silêncio, o nada vira um estupendo singular. Pegue dois pães franceses duros. Agora, pegue dois garfos. Coloque os pães e os garfos sobre a mesa. Puxe uma cadeira e sente-se à mesa. Certifique-se de que os pães estejam com os fundos virados em direção ao tampo da mesa. Feito isso, alinhe os pães perpendicularmente garantindo que uma das duas extremidades de cada pão forme um ângulo de 90...

Memórias póstumas de um zero a zero

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A duras penas vi meus sonhos empatados como naquele Bangu e Olaria no campeonato Carioca de 64. As metas dos arqueiros Ubirajara e Ari não foram vazadas, e o pouco mais de mil espectadores que foram ao estádio Moça Bonita naquele fatídico 17 agosto ficou a ver navios, assim como cá estou. Tal qual um urubu-rei escaldado cuja majestade fora perdida num verdadeiro “Ai, Jesus”, passei a andar com os pensamentos sem rumo, num deep profundo, como se desse azul não coubesse mais escuro. Mas sempre cabe mais. Bastaram três gotas, apenas três gotinhas, pro meu azul virar um breu total. Ficou tudo tão escuro, mas tão escuro, que à minha vista egoísta só restou a ponta do meu nariz avantajado. Resultado, tropiquei, me estabaquei e quase voei pela boca d'um poço qualquer. Ao ver buraco tão fundo, pensei com os meus botões: escuridão por escuridão, melhor no fundo do poço. Quiçá por lá teria um tiquinho de sossego. Resolvi provar da maçã de Nilton. Provei. Confesso, não gostei. Achei farelent...

O mito de Lázaro

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O clima fúnebre impregnava o ambiente. Todos os presentes cantavam cânticos para guiar a alma do defunto para um caminho de paz e luz. Aos prantos, a viúva era consolada pela família. Ainda incrédulos, parentes e amigos fizeram questão de comparecer e dar o último adeus a um velho camarada que, de veras, deixará saudade. O caixão estava posicionado bem no meio do cômodo. Ao lado dele, alguns candelabros de aço suportavam velas acesas que penumbravam o lugar. As muitas flores aliviavam o cheiro da morte. Os idosos se sentaram nas poucas cadeiras disponíveis. Os mais jovens suportavam o cansaço e a tristeza de pé. Café e biscoitos ajudavam a manter os convidados acordados madrugada adentro.  — Quem diria? Lamentou um. — Ainda moço. Lamentou outro. — Pois é! O um que iniciou as lamentações concordou com o lamento em forma de resposta do outro.  Tanta vida pela frente e um escorregão idiota colocou tudo a perder. Ao menos era o que parecia.  — Morto se mexe? Perguntou um terc...