Postagens

Mostrando postagens de novembro, 2024

Fadiga

Imagem
Cansaço e corpo, meus, unificados em mim. Sou ser, esse ser que fala, e que às vezes pensa — pois pena — em não ser. Já que sou, mesmo sem querer, me sinto uma qualquer pena, que não quer que de mim sintam pena; tal qual quem depena uma ave que sequer voa. Eis o fado de quem vive da pena: sem querer e, sendo convidado, se vê obrigado a entrar em cena. Luz, câmera e verbo. De que vale um pavão depenado, senão ter pena?  Pobre pavão. Talvez, covarde que sou, continuarei a ser aquele que talvez preferiria não ser. Talvez, nem tão covarde assim, já que viver requer a coragem de ser. Mas, também, nem tão corajoso, já que morrer também exige coragem. Vivo ou morto, sou covarde e coragem. Sou a dualidade. Sou sempre dois, mas de um sou certo: sou inteiro cansaço. Queria apenas ser. Por tal, sigo sendo o que suporto ser. Até quando? Não sei. Mas sou.  Paciência. Talvez seja covardia, mesmo. A lâmina.

Quiromaníaco da madrugada

Imagem
Justo na hora dos mortos? Viva! Ela, viva, dorme o sono dos justos; enquanto eu — ainda vivo — vivo trancafiado no banheiro, sonhando acordado em filiar-me aos homenageados dessa dita hora. Contraintuitamente, com a mão cheia de pelos, gasto, com o meu braço direito, a energia que não desprendo em nenhuma outra atividade senão a punheta.  O que me pesa é a falta que sinto da dialética socrática, que jaz junta à sua humildade inerente. Após posto exposto a relação entre o pensar e a existência, o saber da própria ignorância, que movera guaribas bípedes, foi relegado à certeza do saber. Num zás, porque o trás ficou para trás, surgiu o: penso, logo sei; quando o ideal seria: penso, logo acho. Pelo menos, eu acho. Mas isso pouco importa. Eu acho muita coisa. Kanteneando à esquerda, penso, logo [...] acho. Se acho, logo, não tenho certeza. Mas, acho. Acho, por exemplo, que ela não sabe das minhas peripécias solitárias no banheiro durante as madrugadas de insônia. Acho. Não sei. Mas, ach...