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Mostrando postagens de junho, 2020

Ele só queria ter paz

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ATENÇÃO:  conteúdo delicado. Ele não aguentava mais o forte cheiro de excremento humano daquele calabouço. Vivia na mais degradante condição humana possível, sem nenhuma dignidade. Estava cansado de comer aqu ela gororoba com sabor indecifrável. Queria uma refeição decente, servida em um prato, sentado à mesa e utilizando talheres. Sua única fonte de vitamina D provinha dos poucos minutos de raios solares que passavam por uma pequena fresta no teto. Ele se sentia fraco e cansado. Seus músculos, ou aquilo que restava deles, ardiam por ele permanecer tanto tempo acorrentado em uma única posição. Seus pés e mãos estavam em carne viva devido ao atrito das correntes com sua pele. Ele mal conseguia levantar a cabeça, abrir os olhos. Não conseguia mais gritar por socorro. Naquele momento, seu único desejo era a morte.   O calabouço. O pior de tudo, ele não se lembrava de como chegara ali. A única lembrança vívida que possuía era o momento de acordar naquele calabouço escuro, imers...

O mistério da casa de taipa

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Àquela altura da noite, o medo tomava conta de nós. Éramos quatro pessoas, sozinhas, em uma estrada de chão batido. Nosso caminho era mal iluminado pelas poucas lanternas de mão que carregávamos na hora. O silêncio amedrontador daquele lugar só era interrompido pelos sons da natureza — o coaxar dos sapos, o canto de uma coruja e o romper do vento nas árvores. Nossa única certeza era de que estávamos longe do vilarejo. Mas, quão longe? Um, dois, sete quilômetros? Não sabíamos responder. Segundo as instruções daquela nativa, estávamos no caminho certo. Do coreto do vilarejo, descemos a rua principal em direção à padaria, passamos por mais duas ruas e, na terceira, viramos à direita. Estava tudo certo! Agora só precisávamos seguir. Mas, até quando? E se fosse uma cilada? E se o intuito daquela moça era nos sequestrar, molestar nossos corpos, roubar nossos órgãos? Pensamos em todos os finais trágicos possíveis que aquela história poderia ter, mas sem externá-los; isso só aumentaria o nosso...

Os sábios

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Aos meus pais.   Vista de casa.   Disseram-me os sábios: — A certeza no achismo É a mãe da ignorância. Ah, se eu soubesse... Faria tudo diferente. Será? Talvez não. Mas mediria minhas palavras. Ah, se você soubesse... Faria tudo diferente? Será? Claro que não! Você sempre soube. Ah, se você soubesse... Faria tudo diferente? Será? Claro que não! Ou não seria você. E a minha única certeza, o paradoxo socrático, devo-a ao seu esmero.

Dia dos namorados

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Minha versão de nós.   Rabiscos de nós dois.

Um fantasma

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Quase 40 mil mortes por COVID-19 no Brasil. Não foi por falta de aviso:  "Minha especialidade é matar" (Bolsonaro, J. M. 2020).   Carma. Desesperado,   incansável, — até quando? —   inconsciente [...]   grito.   Grito, grito [...]   e [...]   grito!  E não há ser, nesta maldita terra,   a sete palmos dela,   que me responda.   Meu clamor foi silenciado pela solidão.   A mesma solidão que tomou este lugar. Tristeza e lágrimas [...]   Terno de madeira, coberto de terra.   Uma lápide, um epitáfio [...]   Descanse em paz. Definitivamente,   me sinto um fantasma.

Os invisíveis

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Os invisíveis. Era uma vez um homem... Um homem como qualquer outro no mundo.   Cabeça, tronco, sonhos, sentimentos...   Todas essas coisas que qualquer ser humano possui.   Era um homem muito pobre...   Não tinha o que comer, não tinha um lar, e sua cama era de papelão.   Vivia nas ruas da cidade,   Revirando lixos à procura de sobras.   Era um homem sofrido...   À margem da sociedade, vivendo de migalhas.   Sem companhia e sem amigos. Não tinha família.   Só o vira-lata que o acompanhava, para baixo e para cima. Clichê, não?   Era um homem que possuía um superpoder...   Um superpoder que não lhe tinha serventia.   Não enchia sua barriga, não o aquecia do frio...   Não o protegia dos perigos da rua.   Era um homem invisível!   Pedia socorro e ninguém o enxergava.   Era como se ele não existisse.   Mas ele exi...

Soneto — ou quase — amarelo como maracujá

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Testemunhaste comigo o encarnar da depressão, Quando abutres volteavam os meus sentimentos; Quando me assombravam pensamentos funestos; Quando escassa a esperança de findar tal condição. Lastimaste comigo o avanço silente da escuridão, Quando a mudez do socorro baldava os contentamentos; Quando a dor da impotência corroía puros sentimentos; Quando a insônia remetia arranhões na tampa de caixão. Mas o desalento havia de se acabar. Precisávamos reconstruir o nosso elo. Voltar àquele tão apaixonante valsar. Concedeste meu último anelo, Guiaste-me com o teu lumiar. Findaste o breu com o teu amarelo!   Lagoa de praia. Dedicado à Amanda Silva.

Se a Terra falasse

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Peço licença para dar voz à Terra. Sou um planeta da Via Láctea. Me chamo Terra, pelo menos assim disseram. Escrevo-lhes não para pedir ajuda, mas para alertá-los. Tenho, aproximadamente, 4.5 bilhões de anos. Sou o terceiro planeta mais próximo ao Sol em minha galáxia. Essa distância, somada a alguns outros fatores, me concedeu uma característica muito interessante. A vida! Sim, sou lar de uma infinidade de plantas e animais, que interagem direta e indiretamente entre si e, obviamente, comigo também. Juntos criamos um sistema complexo, baseado em troca de energia e matéria. Ao longo de todos os meus anos de vida passei por muitas mudanças. Vi diversas espécies surgirem e se extinguirem, continentes em muitas posições, montanhas e oceanos aparecerem e desaparecerem. A verdade é que esse sistema nunca para. E nunca irá parar. Entretanto, há pouco mais de 350 mil anos, surgiu uma espécie diferente de tudo que eu já havia visto. Vocês! Homo sapiens . Uma espécie inquieta e que, de um tempo...