Matintape're - A origem
Agradecimento: a um texto, há pitacos que são mera perfumaria e que, mesmo quando acatados, no fim das contas não fazem diferença alguma. Em contrapartida, há pitacos que engrandecem, aprimoram e preenchem lacunas. Esses são fundamentais. Amigo Ed, obrigado pelo pitaco fundamental.
De pai e mãe herdou a escravidão. De pai e mãe herdou a rebeldia.
Vestia branco. Branco cru. Branco gasto. Branco de senzala.
Na cabeça, o gorro. Gorro de estopa. De saco velho. Gorro ensopado de suor e sangue.
Nunca tirava o gorro da cabeça. Nem para dormir. Inseparável gorro branco de senzala na cabeça de um homem de senzala.
Homem de senzala, que nasceu na senzala. Cresceu na senzala. Sangrou na senzala. Aprendeu na capoeira.
Aprendeu a se defender. Se defendia como ninguém. Sua perna esquerda podia ser letal. Seu discurso feria mais.
Bradava a liberdade ao povo. Bradava retumbante. E o coronel tinha ouvidos em pé. Ouvidos atentos.
O coronel ouvia o brado do escravo. Ouvia. E odiava. Resolveu silenciar o escravo. Como se pudesse silenciar o vento.
O coronel armou uma arapuca junto ao capitão do mato. Uma arapuca fedendo a cachaça e fumo velho.
O escravo tinha a mente forte, mas a carne não. Caiu em tentação. Foi pego no ato.
Preso e açoitado. Açoitaram o escravo até se enfurecerem. Se enfureceram com o desaforo.
Escravo gargalhando durante o açoite? Pagava com a vida. Mas não antes de sofrer um pouco mais.
Se a perna esquerda do escravo era uma arma, a tomaram para si.
Facão desembainhado. Uma. Duas. Três facãozadas. Perna separada do resto do corpo. Mas aquilo ainda era pouco. Faltava a cabeça.
O facão se ergueu para o golpe fatal.
E foi então que o vento acordou.
Uma ventania nunca vista por aquelas bandas. Poeira para todos os lados. Nem um palmo diante do nariz se via. O bambuzal vergava. A mata gemia.
E quando a poeira baixou, o escravo havia evaporado.
Coronel e capitão do mato ficaram ressabiados, mas se contentaram com a perna do escravo. Exibiram-na como troféu. O povo se calou. A tristeza tomou a senzala.
Exceto o velho da senzala.
O velho da senzala sabia das coisas. Sabia escutar o vento. Dizia que aquele escravo não era um qualquer. Dizia que estava além da vida e da morte. Filho do vento. Filho do sopro protetor.
E o velho tinha razão.
O vento levou o escravo para o bambuzal das sete cobras.
Dizem que sete é número de mentiroso. Mas no bambuzal havia sete cobras. Sete cobras venenosas. Sete cobras-corais. Corais-verdadeiras. O escravo levou setenta e sete picadas.
Setenta e sete.
Número de morte. Número de vida. Número de cura.
Dormiu por sete dias e sete noites.
Quando acordou, o escravo não vestia mais branco. Vestia vermelho. Vermelho sangue. Na cabeça, o gorro. O mesmo de sempre. Mas o gorro já não era branco havia muito tempo. Havia bebido muito sangue e suor. Sangue e suor de açoite. O gorro era encantado. Era força. Era feitiço. Nunca mais poderia ser separado do escravo.
E então o escravo foi rebatizado.
Matintape're.
Matintape're não era mais homem. Era vento. Era vingança. Era liberdade.
Matintape're voltou à fazenda gargalhando. Sua gargalhada cortava a noite. Cortava a mata. E cortava o sono de quem lhe devia.
Coronel e capitão do mato sabiam de quem eram aquelas gargalhadas. Se viram enlouquecidos. Antes estivessem.
Matintape're deixou seu recado. Deixou coronel e capitão do mato jurados. Do coronel, sumiu o cachimbo. Do capitão, enrolou a crina do cavalo.
Toda noite o vento vinha.
Toda noite o bambuzal assoviava.
Toda noite o medo crescia.
Crescia até virar desespero.
O anoitecer trouxe o vento de volta. Coronel e capitão do mato sabiam o motivo. Tentaram fugir acovardados.
Naquela ventania?
Impossível.
O vento fechou os caminhos. Fechou a mata. Fechou a noite. Fechou o destino dos dois. O bambu vergava. A terra tremia. O céu rugia.
Depois veio o silêncio.
Quando o vento acalmou, coronel e capitão do mato apareceram vivos, amarrados no tronco dos açoites. Prontos para sentir o peso do próprio chicote.
Matintape're não matou. Deixou o povo decidir.
E o povo decidiu.
Os escravos sentiram o sabor da vingança.
Veio o chicote.
Uma vez.
Outra vez.
Outra.
E outra.
E assim foi. Até o fim.
Coronel e capitão do mato, açoitados até a morte. O coronel caiu. O capitão caiu. E a senzala se levantou.
Tomaram a fazenda. Tomaram a terra. Tomaram o próprio destino. E aqueles que tentaram tomar a fazenda do povo receberam o mesmo destino do coronel e do capitão do mato.
Matintape're virou lenda. E por onde o vento soprava, crescia a ânsia de liberdade. A fazenda não tinha dono. A fazenda era do povo. E ninguém entrava naquela terra.
Ninguém.
Porque o vento guardava aquela terra. Porque Matintape're guardava aquela terra.
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| Matintape're. |

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