O mistério da casa de taipa
Àquela altura da noite, o medo tomava conta de nós. Éramos quatro pessoas, sozinhas, em uma estrada de chão batido. Nosso caminho era mal iluminado pelas poucas lanternas de mão que carregávamos na hora. O silêncio amedrontador daquele lugar só era interrompido pelos sons da natureza — o coaxar dos sapos, o canto de uma coruja e o romper do vento nas árvores. Nossa única certeza era de que estávamos longe do vilarejo. Mas, quão longe? Um, dois, sete quilômetros? Não sabíamos responder. Segundo as instruções daquela nativa, estávamos no caminho certo. Do coreto do vilarejo, descemos a rua principal em direção à padaria, passamos por mais duas ruas e, na terceira, viramos à direita. Estava tudo certo! Agora só precisávamos seguir. Mas, até quando? E se fosse uma cilada? E se o intuito daquela moça era nos sequestrar, molestar nossos corpos, roubar nossos órgãos? Pensamos em todos os finais trágicos possíveis que aquela história poderia ter, mas sem externá-los; isso só aumentaria o nosso medo. Por que uma estrada tão escura? Por que um lugar tão deserto? Até que uma luz cintilante fez renascer a esperança em nossos corações.
A luz, que naquela hora era símbolo de nossa esperança, vinha de um candeeiro que estava na porta de uma velha casa de taipa no alto de um morro. Começamos a subi-lo com passos fugazes. Ouvimos um som que parecia sair da casa. Ainda era impossível distingui-lo, mas, mesmo assim, começamos a tentar adivinhar do que se tratava. Perguntávamos se aquilo era música. Quanto mais nos aproximávamos da casa, mais o som se tornava perceptível. Definitivamente, era música! E da melhor qualidade! Única! Mágica! Ela nos atraía como o canto de uma sereia. Transbordávamos de felicidade. O alívio estampado em nossas faces dizia isso. Já conversávamos, ríamos e, por mais incrível que possa parecer, mesmo sem saber o porquê, a nossa felicidade aumentava a cada centímetro que nos aproximávamos da casa.
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| Casa de taipa. |
Ao chegar na casa de taipa, já estávamos em êxtase. A zabumba, o triângulo e a rabeca tocavam em uma harmonia encantadora. Todos aqueles instrumentos com aparência rudimentar — sem caixa de som, sem eletricidade, sem nada disso — nas mãos de talentosas mulheres vestidas de algodão cru. Para ser sincero, não me lembro da aparência de nenhuma delas, mas isso pouco importa. Em meu imaginário, elas eram como anjos. Com certeza, era um bando angelical dando suporte a um senhor, que, posso estar enganado, me parecia ter para lá de oitenta anos. Ele tocava uma flauta ainda mais rudimentar do que os instrumentos das mulheres que o acompanhavam. Não, não era uma flauta, era um pife. Pelo menos assim ele disse. Esse senhor entoava melodias maravilhosas com seu pife, sempre acompanhado pelo ritmo contagiante e pelos cânticos do bando angelical. Cânticos que me remetiam aos mais belos cordéis sertanejos, diga-se de passagem. O velho do pife intercalava as suas músicas com causos, histórias e anedotas que pareciam sair da boca do homem mais sábio do mundo. Um homem que aprendeu com as alegrias e as tristezas do mundo.
A diversão era tanta que não queríamos mais que findasse. Clamávamos por mais músicas, por mais anedotas. Porém, o velho do pife estava cansado e precisava dormir. Imediatamente ele colocou seu pife no bolso e saiu andando sem dar mais nenhuma palavra, sozinho pela estrada escura, até desaparecer. Para nosso deleite, a banda angelical continuou tocando mais algumas músicas, como que se estivesse dando tempo para que o velho do pife pudesse sair sem ser incomodado. Mas tudo o que é bom dura pouco. Após um período tocando sem cessar, as mulheres também resolveram partir. Elas saíram pela porta da casa sem nenhuma cerimônia. Quanto a nós, ficamos completamente sem reação vendo aquela cena. Não conseguíamos abrir a boca, dizer um muito obrigado, ou até, quem sabe, pedir mais uma música. Simplesmente estávamos paralisados naquela casa de taipa, ainda em êxtase pela experiência que acabávamos de vivenciar. Confesso que não sei dizer quanto tempo ficamos parados de pé, e em silêncio, no interior daquela casa. Quando deixamos a casa, ainda incrédulos, o astro-rei já começava a brilhar no céu. Não precisávamos mais das lanternas para voltar. Também não existia resquício de medo daquela estrada de terra deserta. Não conseguíamos pensar em mais nada a não ser na noite maravilhosa que tivemos. Chegamos ao nosso acampamento e cada um de nós foi direto à sua barraca. Parecia estarmos em estado de transe. Simplesmente apagamos e dormimos. Após longas horas de sono, nos reunimos para conversar e desjejuar. Sem exceção, todos sonhamos com a experiência transcendental da noite passada.
Passamos o dia falando sobre a noite maravilhosa que tivemos com o velho do pife e seu bando angelical. Empolgados, relembramos de cada anedota contada, cada música tocada. Lembramos do medo que tomou conta de nosso corpo até chegarmos na casa de taipa e como valeu a pena toda aquela experiência. Precisávamos voltar lá. Era como se estivéssemos abstêmios de uma droga viciante e pesada. Precisávamos sentir aquilo outra vez. Resolvemos voltar à casa de taipa. Andamos a passos largos na escura estrada. Dessa vez, sem tempo para ter medo. Queríamos a música, queríamos o senhor do pife e queríamos o bando angelical. Quando chegamos na subida que dava acesso à casa de taipa, notamos que dessa vez o candeeiro estava apagado. Não era possível ver a casa. Também não conseguíamos ouvir a música. Perguntávamos se a nossa caminhada havia sido em vão. Decidimos subir o morro para confirmar isso e o que vimos, ou melhor, o que não vimos, foi assustador. Não havia mais casa de taipa! Na verdade, não havia nenhum sinal de que já tivesse existido algo lá. O lugar estava tomado por mato. Não havia dúvida de que estávamos no lugar certo. Como era possível tudo ter desaparecido da noite para o dia?
Voltamos ao vilarejo e perguntamos para uma infinidade de nativos sobre o lugar misterioso que passamos a noite, sobre o velho do pife e seu bando angelical. Nenhuma pessoa queria falar sobre isso. Quando perguntados sobre o assunto, todos tinham a mesma reação, faziam cara de espanto e, em seguida, desconversavam. Alguns, para disfarçar, diziam que estávamos ficando malucos. Somente uma pessoa, em todo o vilarejo, não se esquivou do assunto. Era uma senhora muito conhecida nas redondezas, uma rezadeira. Ao perguntarmos sobre o misterioso lugar, como todos os outros moradores do vilarejo, a velha rezadeira também se espantou. Mas ela não tentou fugir da conversa. Disse estar velha demais para ter medo, porém, não poderia nos dar muitos detalhes. Disse que as pessoas com quem passamos a noite — se é que podemos chamá-los de pessoas — não eram desse mundo e que, de tempos em tempos, eles aparecem por essas bandas para se alimentar de almas pecadoras. A velha rezadeira encerrou a conversa dizendo:
— Cês deram sorte que eles foram com a fuça d’ocês. Isso não costuma acontecer. Muito difícil alguém voltar pra contar essa história. Aproveitem a sorte que tiveram.
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| O velho do pife e seu bando angelical. |


Misteeeeeerio! (Com voz do Cide Moreira) 😱
ResponderExcluirkkkkkkkkk... Que medo!
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