Círculo de fogo
Era uma vez o vento mudo. Era. Não é mais. O vento, mudo, vagava o mundo. Vagava, e continua a vagar, mas agora o vento não é mais mudo. Era uma vez o vento mudo que ganhou um urro. Era uma vez o vento mudo que deixou de ser mudo. Era uma vez um ex-vento mudo que de uma índia ganhou o urro.
Índia, quando sonha com Anhangá, é sinal de mau presságio — tragédia anunciada. Naquela manhã, a índia passou a manhã ressabiada, com os olhos mirando o chão. A aparência de um dia normal não deixou o coração da índia se enganar. Seu coração doía por antecedência, mesmo sem saber o motivo.
A anunciação veio sob o sol a pino. Incrédula, a índia precisou esfregar os olhos para ter certeza de que não era uma visagem. Novamente, Anhangá. Agora, ele exibia uma imponente cauda de escorpião. Nos braços de Anhangá, havia uma criança. A índia conhecia aquela criança. O sinal dos caboclos não poderia ser mais claro. A índia gritou de desespero, compartilhando sua dor com o mundo.
A índia correu à aldeia com a certeza da desgraça, mas precisava ver com os próprios olhos. A desgraça era real. A índia viu seu filho, caído no chão, agonizando. Ao seu lado, um escorpião — o causador de sua dor. Tarde demais. Não havia volta, senão guiar sua cria a Guajupiá. Em Guajupiá, sua cria passaria a eternidade ao lado de seus ancestrais.
A índia fez uma fogueira para espantar Anhangá. Anhangá é ladrão de aruê. Anhangá tem medo de fogo. A fogueira também aprisionou o escorpião responsável por tanta dor. A índia não queria viver com o fantasma de uma morte, mas precisava libertar o aruê de seu filho, que agora pertencia ao animal. A índia fez uma prisão com muros de chamas. Não matou, mas teve a sua vingança. Cercado pelo fogo, restou ao escorpião provar de seu próprio veneno.
Aos prantos, a índia seguiu agachada com o filho em seus braços — desolada pelo derradeiro suspiro da pobre criança. Corre o boato de que os urros de tristeza da índia foram tão altos que até mesmo Tupã se assombrou. A tristeza da índia era tanta que, no instante em que ela libertou o aruê de seu filho, seu corpo desapareceu, sumiu, se escafedeu.
Mas, com seus urros, a índia resiste por aí. Agora, a índia deu voz ao vento, e com ele vaga, anunciando a sua dor.
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| Círculo de fogo. |

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