O duelo

O dia estava ensolarado, com um calor insuportável. Tudo o que José desejava era ficar em casa, derretendo de preguiça no sofá, mas o destino não dava a mínima para suas vontades. José precisava sair. Ele não sabia, mas essa saída mudaria sua vida para sempre.


Mal colocou os pés na rua, um pombo fez suas necessidades fisiológicas na cabeça de José. O susto foi tão grande que ele deu um salto e foi parar no meio da rua. O coitado quase foi atropelado. Foi por muito pouco. Com um movimento brusco no volante, o motorista conseguiu evitar o atropelamento — pelo menos de José. O carro derrapou, desviou dele, mas acabou derrubando um rapaz que vinha pedalando sua bicicleta no canto da rua.


Com a queda, o rapaz da bicicleta trombou com uma jovenzinha que voltava do mercado carregando uma bandeja de ovos. Os ovos voaram e se espatifaram na cabeça de João, que fumava, tranquilo, seu cigarro na calçada. João culpou a menina, que culpou o ciclista, que culpou o motorista, que culpou José, que culpou o pombo. Mas que pombo? O pombo já não estava mais lá. Fez suas necessidades e foi embora fazer suas "pombisses" em outros cantos. Mas alguém precisava levar a culpa! Escolheram José.


Com o culpado definido, João, demonstrando toda a sua masculinidade frágil e doentia, começou a gritar — desesperadamente — clamando por uma luva. Todos que acompanhavam a cena estranharam aquela situação, digamos, constrangedora. Muito provavelmente, você também tenha estranhado. Mas você não leu errado, lá estava João, todo sujo de ovo, bufando de raiva e clamando por uma luva. Por que diabos? Calma, eu já vou explicar.


Retomando, sem entender os motivos de João, o motorista abriu o porta-luvas do carro e, por mais incrível que isto possa parecer, retirou de lá uma luva. Tudo bem que a ideia original do porta-luvas era justamente portar luvas; mas quem, em sã consciência, em pleno século XXI e em um país tropical, porta luvas no porta-luvas? Que seja! O motorista abriu o porta-luvas do carro, retirou de lá uma luva e a entregou para João. Aliviado, João pegou a luva, se aproximou de José, respirou profundamente e, com a luva, esbofeteou o coitado no rosto.


Para os leitores mais distraídos, João acabara de desafiar José para um duelo. José tentou recusar, agradeceu o convite, mas o local, a hora e o dia já estavam marcados. Ainda incrédulo com o ocorrido, José voltou para sua casa. Pretendia ficar por lá, sentado no sofá, torcendo para que a história do duelo passasse. Não passou. No dia, local e hora marcados, a rua estava abarrotada de gente: apostadores, vendedores ambulantes, famílias inteiras, emissoras de rádio e televisão e, é claro, João; todos a postos para o grande duelo.


Mas ainda faltava uma pessoa, afinal, não se duela sozinho. José, o outro protagonista do duelo, para variar, estava sentado em seu sofá, rezando para a confusão se dispersar — de preferência, o mais breve possível. Porém, a multidão estava lá para assistir a um duelo, e não sairia sem ver o tiroteio. Invadiram a casa de José e o levaram à força para a rua.


José continuou tentando se esquivar do duelo. Implorava por perdão, pedia clemência, mas ninguém dava ouvidos ao pobre. O coitado não tinha, ao menos, uma arma para duelar. Mas isso não era um problema! Um cidadão de bem, prontamente, tirou uma arma de sua cintura e a emprestou a José. E o coitado do José não sabia, ao menos, atirar. Isso também não era um problema! O mesmo cidadão de bem pegou a arma das mãos de José, mostrou como destravá-la, ensinou como puxar o gatilho e, por fim, mostrou como um cidadão de bem atira. Mostrou com um tiro perfeito, entre os olhos de João, que caiu morto no chão.


José ganhou o duelo. Virou o herói da rua, do bairro, da cidade, sem nunca ter apertado o gatilho. A fama de José se alastrou como o fogo em mato seco, o Pistoleiro Sem Pistola, mas tudo o que José desejava era ficar em casa, derretendo de preguiça no sofá.


Pombo
O duelo.

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