Auto de boas-vindas
NARRADOR – Essa é a história de um homem um tanto quanto excêntrico. Acho que essa é uma palavra boa para defini-lo. Durante toda a sua vida, ele recebeu conselhos de dois anjos que viviam em sua cabeça. Pelo menos ele gostava de pensar que eram anjos. Um dos anjos era extremamente calmo, o Barman. O outro era um tanto quanto estressado, um pequeno demônio, o Mefistófeles.
Ter os anjos conselheiros por perto era uma faca de dois gumes. O lado positivo era que o homem quase não agia por impulso. E o lado negativo? Ele agia raramente por impulso. Sim, exatamente isso. Os lados positivo e negativo eram os mesmos. Não agir por impulso evitava que ele tomasse decisões precipitadas, mas, às vezes, ele pensava tanto, mas tanto, antes de tomar uma atitude, que ela nunca saía do papel. Quantos planos perdidos dentro de sua cachola? Quantas ideias? Era quase uma autossabotagem.
Esse homem gostava muito de escrever e desenhar. Ele considerava essas atividades uma espécie de terapia. Passava horas a fio rabiscando com dedicação e cuidado. Mas esse cuidado acabava no exato instante em que ele terminava suas obras. Ou ele arrumava uma forma de perdê-las, ou arrumava um motivo para jogá-las fora. Talvez fosse por medo das possíveis críticas negativas que poderia receber. Medo de ser julgado.
Mas um dia ele criou coragem e resolveu acabar com isso. Sentiu-se pronto. Resolveu criar um blog. Assim ele poderia parar com a autossabotagem. O que ele quase fez novamente. A ideia do blog por pouco não virou outro plano frustrado. Mas não dessa vez. Dessa vez ele tomou uma atitude. Correu para o computador e começou a criação de seu blog. E o que parecia ser uma simples tarefa acabou se tornando uma odisseia. Ok! Talvez odisseia seja um pouco de exagero. Ou muito. Mas é justamente essa a história que vocês verão aqui. Como um homem, ao qual chamarei de Autor, junto com as vozes conselheiras que habitavam sua cabeça, resolveu o grande desafio de escolher o nome de seu blog.
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| O teatro de marionetes. |
Ao abrir o pano, entra o Autor com um caderno antigo cheio de desenhos e textos.
AUTOR – Não posso ficar jogando fora minhas obras. E chega de ter medo de críticas. Vou criar um blog para depositar essas coisas.
Entram Barman e Mefistófeles.
MEFISTÓFELES – Mas já está procurando sarna para se coçar? Não tem obrigações o suficiente? Você não dá conta da sua vida e ainda quer cuidar de um blog?
AUTOR – Você falou igual a minha mãe quando pedi a ela um bichinho de estimação.
BARMAN – Eu acho uma ótima ideia. Ele sempre está rabiscando pelos cantos. Não acho que isso vá atrapalhar em nada na vida dele.
MEFISTÓFELES – Claro que vai. Você sabe que ele vai acabar gastando um tempão cuidando desse blog.
BARMAN – Um tempão? Que exagero. Claro que não. E o blog pode ajudá-lo a parar de pensar besteira. Você sabe o quanto isso está difícil ultimamente.
MEFISTÓFELES, com expressão de tédio – Mas é claro que está difícil. Quem diria que ele iria enfrentar uma pandemia com um fascista governando o país?
AUTOR – Pessoal, por favor. Não vamos falar disso agora. Vamos focar no blog. E, em relação ao tempo, vocês sabem muito bem o quanto sou organizado com as minhas coisas. Consigo dar conta disso. Não vai me prejudicar nem um pouquinho.
AUTOR, sussurrando e com expressão de preocupação – Assim espero.
MEFISTÓFELES – Estou vendo que sou voto vencido. Não vou perder meu tempo tentando argumentar com vocês. E qual será o conteúdo desse blog?
AUTOR – Alguns textos acompanhados de uns desenhos.
BARMAN – Então será uma espécie de portfólio.
AUTOR – E o que diabos é um portfólio? Desculpa, Mefistófeles, não quis ofender.
MEFISTÓFELES – Tudo bem. Eu entendo.
BARMAN – Portfólio é um agrupamento de trabalhos de um artista.
AUTOR – Entendi. Mas eu não me considero um artista.
BARMAN – Mas não deixa de ser um agrupamento de trabalhos.
AUTOR – Você tem razão.
MEFISTÓFELES – Você precisa escolher um nome para seu blog.
BARMAN – É verdade. Que tal "Blog do Autor"?
MEFISTÓFELES e AUTOR – Que nome horrível!
AUTOR – Preciso de algo mais criativo. Algo que represente bem o blog.
MEFISTÓFELES – Tem que ter um nome grande. Tipo Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.
BARMAN e AUTOR, falando ao mesmo tempo – Gostei da ideia.
AUTOR – E se eu criasse um eu lírico? Sempre gostei de palhaços.
MEFISTÓFELES, rindo – Você já é um palhaço.
BARMAN, segurando o riso – Mefistófeles, deixa de graça. E quanto ao palhaço, você precisaria dar um nome a ele também.
AUTOR – É verdade. Já está difícil o suficiente dar um nome para o blog. Esquece a ideia do palhaço.
MEFISTÓFELES – Mas, e se você mantivesse a temática do circo para seu blog?
AUTOR – Tá aí! Boa ideia.
MEFISTÓFELES – Que tal "Circo de horrores"? Seus desenhos são um tanto quanto sombrios.
BARMAN – Não sei. Será que "Circo de horrores" representa bem seu blog?
MEFISTÓFELES – Talvez. Mas ainda assim está pequeno em comparação ao Sgt. Pepper's.
AUTOR – Eu nunca me compararia ao Sgt. Pepper's.
MEFISTÓFELES, com raiva – E nem deve! Você sabe que não foi isso que eu quis dizer.
AUTOR – Eu sei. Foi uma piada.
MEFISTÓFELES – Não teve graça.
AUTOR – Piadas sem graça são minha especialidade.
MEFISTÓFELES – Seus textos também serão sem graça?
AUTOR – Claro que não. Na verdade, não sei. Talvez tragicômicos. Acho que essa seria uma boa definição.
MEFISTÓFELES, rindo – Tipo o resultado de um Fla x Flu. Vai depender de quem ganhar e para quem você torce. Ultimamente está sendo trágico para você.
AUTOR, com expressão de tédio – Você pegou o espírito da coisa, mas não é bem por aí. No teatro, uma tragicomédia é uma peça que mescla elementos da tragédia e da comédia. Ou seja, algo funesto, mas acompanhado de incidentes cômicos.
MEFISTÓFELES, com expressão de tédio – Eu sei o que significa tragicômico. Estava fazendo uma piada com seu time.
AUTOR – Muito sem graça.
MEFISTÓFELES, com voz de deboche – Nossa! Como ele está vingativo.
BARMAN – Parem com essas bobagens. Vamos focar no blog. Quais assuntos você tratará em seus textos? Qual a temática? Isso pode ajudar na escolha do nome.
AUTOR – Sei lá?! Falarei o que me der na telha. Sobre o que eu achar relevante.
MEFISTÓFELES – Sobre as coisas da vida?
AUTOR – Isso. Sobre as coisas da vida.
MEFISTÓFELES – Pra você, o que é a vida?
AUTOR – Pronto. Baixou o Abujamra.
Os três caem na gargalhada.
AUTOR – O mundo está muito doido. É presidente fascista, gente que aplaude presidente fascista, pandemia, mudanças climáticas, destruição do meio ambiente, perda da biodiversidade, terraplanista... Eu quero falar dessas coisas.
MEFISTÓFELES e BARMAN, falando ao mesmo tempo – O mundo está bizarro.
AUTOR, concordando – Bizarro.
MEFISTÓFELES – É isso. Que tal chamar o blog de "O bizarro e tragicômico circo de horrores chamado vida"? Tem tudo que já falamos até agora. Bizarro, tragicômico, circo de horrores, vida.
AUTOR, empolgado – Gostei. E é tão grande quanto Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.
Os três caem na gargalhada.
AUTOR – Pronto. Então o blog se chamará "O bizarro e tragicômico circo de horrores chamado vida".
MEFISTÓFELES – Definido? Tem certeza?
AUTOR, inicialmente empolgado e depois com cara de dúvida – Certeza. Ou melhor, eu acho.
BARMAN, bufando – O que foi agora?
AUTOR – Sei lá. Estou pensando na palavra "bizarro". Não sei se é uma boa.
MEFISTÓFELES – Então tira, ué?! Ficaria "O tragicômico circo de horrores chamado vida". Para mim está bom.
BARMAN – Para mim também.
AUTOR, alegre – Ótimo! Então está definido.
MEFISTÓFELES – Ufa! Finalmente. Podemos desenhar agora?
AUTOR – Isso, vamos desenhar!
BARMAN – Calma! Você não vai terminar de criar o blog?
AUTOR, com vergonha – É que ainda não estou muito satisfeito com o nome.
MEFISTÓFELES, emburrado – Não acredito. O que foi agora?
AUTOR – Sei lá? Eu não entendo nada de circo. Será que não vou ofender ninguém chamando o blog de "Circo de horrores"?
MEFISTÓFELES – Então tira o "Circo de horrores".
BARMAN – Sobrou "O tragicômico chamado vida".
Os três caem na gargalhada novamente.
AUTOR – Quando dizemos "tragicômico", estamos nos referindo ao blog. Certo?
BARMAN e MEFISTÓFELES, respondendo ao mesmo tempo – Certo.
AUTOR – E o Barman disse que o blog era um portfólio. Certo?
BARMAN e MEFISTÓFELES, respondendo ao mesmo tempo – Certo!
AUTOR – Sendo assim, que tal se o nome fosse "Um tragicômico portfólio"?
MEFISTÓFELES – Não é dos melhores. Mas, melhor que nada.
BARMAN – Eu gostei muito!
AUTOR, dizendo alegremente – Eu também gostei. Acho que representa bem o blog.
MEFISTÓFELES – Definido?
AUTOR – Definido! Estou feliz.
BARMAN – Eu também.
MEFISTÓFELES, com cara de tédio – Se está definido, eu também estou feliz. E agora, o que está faltando?
AUTOR – Clicar no botão "publicar".
MEFISTÓFELES, estressado – E você está esperando o que para fazer isso?
AUTOR, aparentando dúvida – Não sei. Estava pensando...
BARMAN e MEFISTÓFELES, interrompem gritando – Não!
AUTOR, rindo – Brincadeira. Já está feito. "Um tragicômico portfólio"! Gostei.
MEFISTÓFELES – Pronto? Vamos desenhar agora?
BARMAN – Não. Ainda não. Precisamos recepcionar os leitores. Que falta de educação.
MEFISTÓFELES – Então vamos logo com isso.
AUTOR, BARMAN e MEFISTÓFELES, falando juntos – Sejam bem-vindos e bem-vindas ao "Um tragicômico portfólio". Aqui, a realidade e a ficção se parecerão uma coisa só. Mas não se preocupem, ninguém será enganado. Vocês saberão exatamente o que estão consumindo. Afinal, o importante é informar e não desinformar. Esperamos que gostem.
As cortinas começam a se fechar, e os três desaparecem por trás delas. O Autor coloca a cabeça para fora.
AUTOR – E voltem sempre que quiserem.
Fim.

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