Nada pode estragar o dia de Maria

ATENÇÃO: conteúdo delicado.

Todo dia é assim. Acorda às três da manhã. Em estado de sopor, Maria engole o café. Não dá para dizer que toma o café, pois mal tem tempo para se sentar. Precisa correr. O ônibus não esperará. Religiosamente, antes de sair de casa, Maria cumpre seu ritual: um beijo na testa da filha e faz um sinal da cruz, mesmo quando a fé lhe falta. Corre para o ponto. Esse é só o primeiro dos três coletivos que pegará até o trabalho. Hoje não teve sorte, terá que viajar de pé. Mas Maria é otimista. Nada pode estragar o seu dia.


Alforria
Maria.

 
Chegou ao trabalho. Não tem tempo para respirar. De sua casa até a dos patrões são quase três horas de viagem. No quarto de empregada, troca de roupa. Corre para preparar o café do patrão. Ele não pode esperar, é um homem muito ocupado. Um silêncio mórbido toma conta da casa. O patrão lê o jornal e não quer ser incomodado. Maria aprendeu a ser educada: “bom dia”, “muito obrigado”. Mas o patrão, definitivamente, não frequenta a mesma escola que ela. Se acha importante demais para gastar seu vocabulário com serviçais. Ainda mais com Maria, que mal fala português corretamente. Invisível aos olhos dele, Maria engole a falta de educação e respira fundo. Maria é otimista. Nada pode estragar o seu dia.

O patrão sai de cena. Entra a patroa. Considera os empregados uma extensão de sua família e se orgulha disso. Maria não concorda, não se sente da família. Mas quem é ela para dizer algo? A patroa é sempre solícita, até quando não requisitada, principalmente para dar aulas sobre política e civilidade. Maria já conhece a história de cor. Todo santo dia é igual. A patroa, se vangloriando de fazer parte de uma tradicional família brasileira, composta por “cidadãos de bem”, explica por que Maria não sabe votar. Maria escuta calada, lembrando de como o candidato da patroa destruiu a sua vida e a de seus próximos. Sente saudade das gestões passadas e reza para que o candidato da patroa nunca mais seja eleito. Enquanto lava a louça, Maria torce para o monólogo acabar. Torce para que hoje seja um daqueles dias em que a patroa sai de mansinho, sem dizer para onde vai. Maria sabe de seu caso extraconjugal com o personal trainer, mas ela nem desconfia. Mas, para desespero de Maria, a ladainha não tem fim. Continua. Parece interminável. Mas Maria é otimista. Nada pode estragar o seu dia.

Finalmente, a patroa deixa Maria em paz. Por ora, não a incomodará mais. Maria aproveita para faxinar a casa. Só consegue pensar que porcos não merecem ser comparados a essa família. Animais limpinhos, os porcos. Quase toda a casa já está arrumada. Mas existe um cômodo onde Maria não consegue entrar: o quarto do patrãozinho. Na porta trancada, Maria bate uma, duas, três vezes. Sem sucesso. A música que sai do quarto é ensurdecedora. De péssimo gosto, pensa Maria. Finalmente, a porta se abre. O quarto do patrãozinho é um pesadelo para os sentidos. Ao olfato, o cheiro de desodorante misturado ao de mato queimado que ele fuma escondido dos pais. Maria lembra de quantos jovens em seu bairro morreram para que pessoas como o patrãozinho fumassem esse mesmo mato queimado. À visão, os pôsteres de mulheres nuas pregados nas paredes. Reflexo de uma cultura machista e nojenta que o patrãozinho segue à risca. À audição, o som alto de uma música de gosto, no mínimo, discutível. E, ao tato, talvez o pior de todos os sentidos nesse inferno: o assédio. Maria já reclamou, mas, conforme os patrões, é só uma brincadeira do menino. Além disso, o patrãozinho nunca iria se engraçar com uma preta como ela. Não é isso que Maria vive. Ela sabe que não é brincadeira. Assim como sabe que o patrãozinho não é um menino. Já pensou em denunciar milhares de vezes. Mas o medo de perder o emprego pesa. Quem acreditaria nela? Preta, pobre, analfabeta. Só resta se esquivar e ameaçar capar o patrãozinho. Ele leva na brincadeira, mas Maria não brinca em serviço. Ela fala sério. Respira fundo. Está cansada. Mas Maria é otimista. Nada pode estragar o seu dia.



Natureza morta
Memento mori.

 
Meio-dia. O almoço está servido. Não para Maria. Ela é da família, mas não tem lugar à mesa. A família — patrão, patroa e patrãozinho — se delicia com o prato principal, especialmente preparado por Maria. Não sobraram restos. Maria não teve direito a uma garfada. Mas ela já esperava por isso. Maria precisa preparar sua própria refeição: arroz, ovo, uma salada de alface. Às vezes ela tem direito a uma salsicha, mas isso depende do humor dos patrões. Após se deleitarem com o almoço, patrão, patroa e patrãozinho sentem um sono súbito. Um sono incontrolável, incomum. Precisam descansar. Para eles, tudo bem. Estão com a vida ganha. Um cochilo não os tornará mais ricos ou mais pobres. Dirigem-se aos seus aposentos. Maria não. Ela não pode parar, nem esperar. Ela tem pressa. Tira a louça da mesa, lava, enxuga e guarda. Vai ao quarto dos patrões e confere se tudo está dentro dos conformes. Vai ao quarto do patrãozinho e checa se está tudo sob controle. Todos ainda dormem, como anjos. Maria mantém a calma. Nada pode estragar o seu dia hoje.

Fim de expediente. Agora mais tranquila, Maria se banha. Troca de roupa. Não costuma se vestir tão bem, nem usar maquiagem, mas não hoje. Hoje Maria se produz. Hoje o dia é especial! Normalmente, Maria pegaria três conduções de volta para casa. Mais três horas de viagem. Não hoje. Hoje o dia é especial! Hoje Maria pegará apenas um ônibus para chegar ao seu destino. No caminho, pensa em tudo que passou durante sua vida, desde a infância. Pensa em sua filha. Uma lágrima escorre pelo seu rosto. Mas hoje não é dia de tristeza. Hoje o dia é especial! Maria vê a parada onde deve descer e puxa a corda do ônibus. Maria desce e caminha até encontrar um rosto conhecido. O rosto de sua filha. Maria chora mais uma vez. Não consegue conter a emoção. Todos os seus pertences estão embalados em uma caixa e em uma mala. Suas roupas guardadas em duas mochilas. Elas estão prontas para a mudança. Passagens compradas. O destino, só mãe e filha sabem. Hoje o dia é especial! Já são dez da noite, patrão, patroa e patrãozinho continuam dormindo um sono funesto. Maria muda em busca de seus sonhos. Hoje é o dia mais feliz da vida de Maria!


Agradecimentos: à Amanda Silva. Sem você a história de Maria seria outra.

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