Viagem aos Confins do Mundo
ATENÇÃO: Esta é uma obra de ficção.
Você conhece algum negacionista? Se encontrar com um na rua, será que seria capaz de diferenciá-lo de um não-negacionista? Cuidado! Pode haver um negacionista ao seu lado neste exato momento. Sozinho, um negacionista não oferece muito perigo. Porém, quando se juntam, podem ser comparados a um estouro de manada. É um verdadeiro Deus nos acuda! Corra para as colinas e salve-se quem puder. Eles podem causar estragos enormes e, até mesmo, ajudar a eleger presidentes fascistas.
Os negacionistas são seres esquisitos que vivem na Terra. Parecem-se muito com os humanos não-negacionistas, mas há uma pequena diferença: possuem a estranha mania de negar teorias científicas. Desde conceitos básicos, como o formato da Terra, até leis incontestáveis, como a gravitação universal. É difícil afirmar as razões, mas tudo indica que os negacionistas têm uma incontrolável necessidade de ser "diferentões". Também é difícil dizer como alguém se torna negacionista. O fato é que todos eles gastam muito tempo lendo teorias conspiratórias, assistindo a documentários no canal History e acompanhando no YouTube o canal do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, considerado o guru dos negacionistas brasileiros.
Muitos negacionistas viviam nas sombras até pouco tempo atrás. Morriam de vergonha de expor suas ideias conspiratórias malucas. Mas as redes sociais serviram como um instrumento importante para tirá-los da escuridão e colocá-los em destaque. Agora, eles se multiplicam como vírus e já possuem muitos adeptos. Contarei aqui a história de um desses negacionistas, Jerônimo. Desde já, peço desculpas a todos os Jerônimos não-negacionistas espalhados pelo mundo. Não se sintam ofendidos; não há nada de pessoal. Voltando à vaca fria, contarei a história do negacionista Jerônimo: um homem que foi até os Confins do Mundo para provar que a gravidade era uma farsa e para tirar sua família de uma cilada que ele mesmo provocou.
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| Confins do Mundo. |
O Negacionista Jerônimo
Jerônimo era um jovem rapaz que morava com seus avós. Tinha alguns amigos que, segundo palavras de seu próprio avô, eram "bem esquisitos". Mas eu não estou aqui para julgar ninguém, nem para falar sobre os amigos de Jerônimo. O importante para esta história é que esses amigos também eram negacionistas. Eles se comunicavam principalmente por um grupo em um aplicativo de mensagens instantâneas. Era por lá que divulgavam as maiores e mais recentes "descobertas" do campo negacionista. O nome do grupo? Arquivo-X, em homenagem à famosa série de ficção científica dos anos 1990.
Sempre que possível, Jerônimo e seus amigos passavam horas trancados no quarto criando mapas geoplanorreferenciados e os mais diversos materiais terraplanistas imagináveis. Compartilhavam também um sonho em comum: conhecer um lugar chamado Confins do Mundo. Segundo teorias negacionistas, era o único local na Terra onde seria possível provar que a gravidade era uma farsa. Para eles, a gravidade não existia. Ou melhor, acreditavam que as empresas aéreas controlavam um sistema mundial que criava um fenômeno gravitacional na Terra. O motivo? Manipular o mercado de transporte aéreo. No Brasil, mais especificamente nos Confins do Mundo, haveria uma falha nesse sistema. Tratava-se do único lugar onde seria possível experimentar a "não-gravidade".
A história que estou contando aqui ocorreu durante um período sombrio na Terra. Uma pandemia provocada por um vírus mortal trazia desespero à humanidade. Pessoas morriam aos montes. Para evitar a disseminação do vírus e o colapso do sistema de saúde, o isolamento social foi adotado. Mas, claro, não pelos negacionistas. Jerônimo, assim como seus amigos, não acreditava nessa história de vírus mortal e isolamento social. Segundo uma notícia compartilhada no grupo Arquivo-X, o vírus era uma invenção da NASA. De acordo com a publicação, a agência norte-americana aproveitava o isolamento social para transportar discos voadores que haviam caído próximo ao Vale da Morte, na Califórnia. Convencido por essa narrativa, Jerônimo seguia sua rotina normalmente, sem tomar os mínimos cuidados para evitar a contaminação e, pior, levando o vírus para casa, onde morava com os avós.
Uma Reviravolta na História
Certo dia, Jerônimo acordou se sentindo mal. Ao ser questionado pelos avós sobre sua ausência no café da manhã, ele minimizou: "É só uma gripezinha." Preocupados, seus avós cuidaram dele com dedicação exemplar. No entanto, os sintomas de Jerônimo eram iguais aos associados ao vírus mortal. Ele insistia que não era nada sério, até que uma mensagem no grupo Arquivo-X mudou tudo.
A mensagem não negava o vírus, mas dizia que ele havia sido criado como parte de uma conspiração chinesa para implantar o comunismo no mundo. O texto também apontava a cura: uma flor rara encontrada apenas nos Confins do Mundo. Agora, Jerônimo estava convencido de que havia contraído o vírus e infectado os avós.
Determinou-se, então, a salvar sua família. Arrumou suas malas, pegou seu mapa da Terra plana e partiu para os Confins do Mundo, decidido a encontrar a flor que curaria seus avós e, de quebra, provaria que a gravidade era uma farsa.
A Tragédia nos Confins do Mundo
Após dias de viagem, Jerônimo chegou ao local. Encontrou a tal flor — na verdade, um simples hibisco. Acreditando ter resolvido parte do problema, ele seguiu em sua missão de desmascarar a gravidade. Subiu uma montanha até o ponto mais alto, onde acreditava estar o "local da falha gravitacional". Cheio de confiança, começou a gravar um vídeo e, aos gritos de "Jerônimo!", saltou.
Mas, ao contrário do que esperava, não flutuou. Sentiu a força da gravidade em sua máxima potência. Seu corpo foi encontrado dias depois, estatelado no solo. Seus amigos, por sua vez, atribuíram sua morte a uma emboscada das empresas aéreas, convencidos de que Jerônimo havia descoberto "demais".
Epílogo
Quanto aos avós de Jerônimo, que confiavam na ciência, procuraram ajuda médica e sobreviveram ao vírus. A tragédia de Jerônimo, por sua vez, entrou para a história da física. Um professor usou o caso como questão de prova, transformando-o em um exemplo de que negar a gravidade não a faz deixar de existir.
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| Descanse em paz. |


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