Ele só queria ter paz
ATENÇÃO: conteúdo delicado.
Ele não aguentava mais o forte cheiro de excremento humano daquele calabouço. Vivia na mais degradante condição humana possível, sem nenhuma dignidade. Estava cansado de comer aquela gororoba com sabor indecifrável. Queria uma refeição decente, servida em um prato, sentado à mesa e utilizando talheres. Sua única fonte de vitamina D provinha dos poucos minutos de raios solares que passavam por uma pequena fresta no teto. Ele se sentia fraco e cansado. Seus músculos, ou aquilo que restava deles, ardiam por ele permanecer tanto tempo acorrentado em uma única posição. Seus pés e mãos estavam em carne viva devido ao atrito das correntes com sua pele. Ele mal conseguia levantar a cabeça, abrir os olhos. Não conseguia mais gritar por socorro. Naquele momento, seu único desejo era a morte.
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| O calabouço. |
O pior de tudo, ele não se lembrava de como chegara ali. A única lembrança vívida que possuía era o momento de acordar naquele calabouço escuro, imerso na dor e no desespero. Nem mesmo os últimos dias, antes de ser lançado naquele abismo, ele conseguia recordar. Sua mente estava fragmentada, como um quebra-cabeça cujas peças se recusavam a se encaixar. Nos primeiros dias, ele gritou, se debateu, exigiu explicações. Mas tudo foi em vão. Nada mudava. Sua esperança foi se esvaindo com o passar do tempo. No início, ainda tentava contabilizar os dias. Mas logo perdeu a conta, como se o tempo em si tivesse se dissolvido.
A falta de esperança o corroía por dentro, e com ela, surgiu um novo plano: acabar com a própria vida. Tentou se enforcar com as correntes que prendiam suas mãos e pés, mas não conseguiu. O mais perto que chegou da morte foi bater sua cabeça contra a parede. Mas não funcionou. A frustração o consumia. Ele se via como um inútil, incapaz de até mesmo tirar a própria vida. Cada tentativa, uma falha. E ele, um espectador impotente de sua própria condenação.
O tempo passou e, com ele, seu corpo se atrofiou. Até as tarefas mais simples, como comer ou defecar, se tornaram uma odisseia de dor insuportável. Qualquer movimento, por mais ínfimo que fosse, provocava gritos de sofrimento. Mas o pior de tudo: ele já não era mais capaz de realizar sozinho seu maior desejo, aquele que o consumia desde o início. Morrer. Sua única ocupação agora era pensar. Pensar e tentar entender, tentar recordar, tentar encontrar uma razão para aquele sofrimento sem fim.
Suas tentativas de suicídio não haviam dado certo, mas, naquele momento, ele estava determinado a entender o porquê de estar preso naquele lugar. Queria lembrar como havia chegado ali, o que o havia levado até aquele calabouço. Começou a buscar fragmentos de sua memória, tentando juntar as peças da vida que existia antes daquele pesadelo. Ele se lembrava de ter perdido o emprego, de sua dolorosa separação conjugal, da relação destrutiva com seus pais. Mas, acima de tudo, ele percebeu algo ainda mais assustador: seus desejos suicidas não haviam surgido apenas naquele calabouço. Eles já estavam lá, bem antes de sua prisão.
Com o tempo, ele começou a lembrar de eventos mais recentes. E então, uma noite, algo se passou em sua mente. Ele finalmente se lembrou da véspera em que acordou naquele lugar sombrio. Uma das noites mais tristes de sua vida. Naquela noite, ele havia pensado incansavelmente em como cometer suicídio, de que forma seria mais eficaz. Recordou da carta que havia escrito, do copo d'água, do frasco de medicamentos. Ele abriu o frasco, engoliu uma dose massiva, suficiente para matar um cavalo. E então, tudo escureceu. Ele não conseguia mais se lembrar do que aconteceu após aquele ato desesperado. Não sabia se foi socorrido ou se morreu ali mesmo, sozinho em sua casa. Já estava tão confuso, que não conseguia encontrar respostas para suas próprias questões. A única coisa que conseguia pensar era: "Morreu ou não morreu?" E se ele tivesse morrido, o que seria aquele lugar? Seria o calabouço... o inferno? Será que, por ter cometido suicídio, ele estava sendo punido? Enviado para pagar por seus pecados, por toda a eternidade?
A possibilidade de estar no inferno dominava sua mente. Às vezes, durante as refeições, ele mal conseguia engolir a comida. E então, uma ideia macabra surgiu em sua mente: "Se eu não comer, talvez sucumba... ou talvez, finalmente, descubra que estou no inferno." Então ele começou a se recusar a comer. Dia após dia, sentia seu corpo definhar. Sua respiração se tornava mais difícil, seu coração mais fraco. Mas, surpreendentemente, ele não morria. Já havia passado dois meses sem água, sem comida. Ele deveria estar morto. Não tinha mais dúvidas: estava no inferno. E agora, ele sabia. Sabia que sua eternidade seria passada ali, nesse calabouço, condenado a pensar incessantemente em morrer, a tentar a morte, mas sem jamais alcançá-la.
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| Inferno. |


Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos
ResponderExcluire arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras
e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar
que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que
constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer..,
dormir... dormir... (SHAKESPEARE, 1988, ato III, cena I, p. 24).
Que lindo! Nunca pensei em uma analogia entre um texto meu e Shakespeare. Muitíssimo obrigado!
ExcluirSuicídio, coragem ou covardia?
ResponderExcluirTalvez nem uma coisa nem outra.Simplesmente desesperança.
Pois é! Quem somos nós para julgar?
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