Labirinto de portas

Sentia-me em um labirinto. Um labirinto diferente de tudo o que eu já havia visto. Um labirinto de portas. Cada porta que eu atravessava me levava a um lugar totalmente diferente, aleatório. Da sala de jantar de uma casa de uma família de classe média para um supermercado. Do supermercado para o saguão de um hotel chique. Do saguão do hotel chique para uma escola, e assim por diante. A cada maçaneta girada, a cada porta aberta, era como se um portal rumo ao desconhecido estivesse sendo aberto para mim. Eu não tinha ideia de para onde as portas estavam me levando, mas sabia que nelas estava a minha única oportunidade de voltar para casa e rever a minha família.

Tremendo de medo, continuei vagando. As pessoas que encontrava em meu caminho agiam como se eu não existisse. Não adiantava falar, gritar ou pedir ajuda. Era como se eu não estivesse lá. Mas eu estava! Eu observava seus afazeres e ouvia seus diálogos, mas ninguém me respondia. Ninguém falava comigo. Ninguém olhava nos meus olhos. Estranhamente, não percebiam a minha presença. Com isso, o desespero começou a tomar conta de mim. Comecei a chorar de medo. Porta após porta, minha esperança se desvanecia. Eis que, finalmente, eu estava em frente a uma porta que me era familiar.

A última porta que havia atravessado me levou para a frente da minha casa. A esperança de rever meus filhos e minha esposa renasceu naquele exato momento. As batidas do meu coração se aceleraram. Tremendo, coloquei a mão na maçaneta. Girei-a para abrir a porta. Não consegui; a porta estava trancada. De todas as portas que enfrentei durante essa estranha jornada, a única fechada era — justamente — a da minha casa. Procurei a chave nos meus bolsos, mas estavam vazios. Lembrei do lugar onde escondíamos uma cópia de emergência, bem próximo à entrada da casa. Para minha felicidade, a cópia de emergência estava lá. Enfiei a chave no trinco, destranquei a porta e girei a maçaneta. A porta continuou trancada.

Desesperado, comecei a forçar a porta. Eu precisava entrar em casa. Estava cansado de vagar, sedento para rever minha família. Bati, soquei, esmurrei, tentei arrombar, e nada da porta se abrir. Gritava na esperança de que alguém pudesse me escutar. Mas ninguém apareceu. Nem mesmo um vizinho curioso para averiguar o que estava acontecendo. Já sem esperanças, sentei-me no batente em frente à porta e voltei a chorar. Chorei copiosamente, como uma criança desejando o seio de sua mãe. Perguntava-me por que essa maldição estava acontecendo comigo, o que eu havia feito para merecer tamanha tortura. Pouco a pouco, fui relembrando todos os momentos que passei junto à minha família naquela casa. E, finalmente, entendi o porquê daquela porta estar trancada para mim. Eu não sou digno daquele lugar. Não sou digno de ser chamado de pai, de ser chamado de marido. Também não sou digno de pena. Não mereço perdão. Aquela casa — e aquela família — não me pertencem mais. Meu único merecimento é cumprir o meu destino de vagar sozinho.
 

Porta fechada.
Porta fechada.

Comentários

  1. O aconselhável é deixarmos sempre as portas abertas por onde passamos.

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  2. ...E de uma coisa fique certo
    A porta vai estar sempre aberta
    O meu olhar vai dar uma festa
    Na hora que você chegar

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