Daqui de casa

Oh, Deus! Grito a plenos pulmões: socorro! Por favor, escute a prece de um pobre ateu. Sim, um ateu — daqueles — convicto de Sua magnânima não existência. Mesmo assim, eu suplico! 


E não é que eu tenha dado o braço a torcer. Não! Continuo descrente. O mesmo bom e velho ateu de sempre. Mas sou um ateu que sabe assumir a derrota. E eu perdi. Perdi feio, de lavada. 


Perdi a fé naquilo em que mais acreditava. Perdi a fé na humanidade. A mim, nada mais faz sentido. Então, pouco importa se sou um ateu apelando ao divino. Até porque, agora, só um milagre seria capaz de nos tirar do fundo do poço. 


Pare de adiar o inevitável! Desisti de proferir o fim. Que as pessoas saiam de suas casas, que ocupem as cidades, que festejem, que ignorem os mortos e os feridos. Dane-se! Já não faz mais diferença. 


Cansei de ser o chato, o louco, o radical. Que o carpe diem reine! Estão vendendo justificativas, a torto e a direito, para legitimar a negação. Não faltam escusas — que, quando encarnadas com afinco, permitem uma noite de sono tranquila — para ignorar o caos que se instaurou pelas bandas de cá. 


Afinal, como diz o ditado: "farinha pouca, meu pirão primeiro". Não é?


Estúpidos! Eles não sabem que o altruísmo foi o responsável pela ascensão de nossa espécie? Agora, cabe ao egoísmo nos levar à derrocada. Não poderia ser mais irônico.


Ah! Quanto a mim, não se preocupe. Ficarei aqui, em casa, assistindo ao Apocalipse, que não tarda a chegar. 


Mar praia Sol
Amanhã de manhã.

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