A arte do palhaço

ATENÇÃO: conteúdo delicado.


O picadeiro deveria ser a extensão de seu lar, não a via-crúcis que havia se tornado. Um pobre coitado, pego para Cristo. Palhaço de profissão, palhaço de coração, palhaço na vida. Infeliz do palhaço. Nenhuma risada vinda da plateia. Ao invés de gargalhadas, lágrimas. Lágrimas que refletiam os sentimentos mais pútridos de uma plateia que não poderia ser definida de outra forma senão podre. Tão podre que lhe deu a alcunha de o Pior Palhaço do Mundo.


A plateia não sabia — ou talvez nunca soubesse —, que palhaço e graça não são sinônimos; palhaço e sinceridade são. E era isso o que o Pior Palhaço do Mundo fazia de melhor: ser sincero. Mas quem disse que a podridão aprecia a sinceridade? A podridão quer ver o caos. Vive do caos. E, assim, não sossegaram até instaurá-lo.


Começou com um burburinho para cá, um disse-me-disse acolá. E, como um vírus, a fama do palhaço se espalhou rapidamente. Todos, sem exceção, queriam comprovar a existência de um palhaço incapaz de tirar um mísero sorriso de canto de boca da plateia. Ao palhaço, bem-vindo ao inferno. De jantar, o pão que o diabo amassou. Apedrejamento público, humilhações insustentáveis, chacotas que, por vezes, viraram atos de violência. O palhaço conheceu a angústia de viver. Ele virou o cárcere de seu próprio lar. Luzes apagadas, silêncio; sua presença não podia ser notada.


Cansado de tudo aquilo, esgotado, sonhava com um ponto final. Prometeu, então, um último ato. E promessa é dívida. A notícia se espalhou, e logo eis a euforia mundial. "Um último ato do Pior Palhaço do Mundo?!" Uma última oportunidade de vê-lo atuando?! Quem não gostaria? Tomates podres a postos.


A lona foi armada, o circo montado, e a casa, lotada. Às 20 horas, em ponto, o público já clamava pelo início do espetáculo. O palhaço tomou uma última dose de cachaça, deu um último trago no cigarro e, com uma respiração profunda, preparou-se para o ato. Pronto! O palhaço estava pronto. Quando colocou um único pé no picadeiro, o silêncio tomou conta do lugar. A apreensão era geral. Luzes focadas no palhaço. O espetáculo se iniciou; nada de "boa noite", nem mesmo um "respeitável público". Nada. Silêncio.


Foi então que o palhaço sacou um revólver calibre 38. Um estouro, e seus miolos passaram a fazer parte do espetáculo. Sangue para todos os lados. A atração principal caída no chão. Novamente, silêncio. Mas apenas por poucos segundos. Um, dois, três. Exatos três segundos para a ficha cair. O silêncio deu lugar às gargalhadas — gargalhadas sinceras, do âmago. Público podre!


Guardem os tomates, o Pior Palhaço do Mundo acabara de se tornar o melhor palhaço do mundo. Seu último ato foi um sucesso — ou melhor, quase. Entre tanta podridão, havia uma rosa — ou seria uma Rosa? Tanto faz. Uma jovem, sozinha em meio às gargalhadas, chorava copiosamente — incrédula. Diferente do que o Pior Palhaço do Mundo pensava, ele era amado. Uma fã, uma única fã, de luto pelo ocorrido. Viu a sua maior inspiração fazer o que fez diante de seus olhos. Tomada pela tristeza, revoltada com a maldade que a cercava, a jovem fez uma promessa: nunca deixaria a arte do palhaço morrer. Palhaça de profissão, palhaça de coração, palhaça na vida.


Clown palhaço circo
A arte do palhaço.

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