A faxina

ATENÇÃO: conteúdo delicado.

O escravo que mata senhor, 
seja em que circunstância for, 
mata sempre em legítima defesa.
LUIZ GAMA

As marcas de um marido ébrio e violento já não eram mais cobertas pela maquiagem. Ao marido, a servidão de uma esposa submissa; à esposa, socos, pontapés e assédios. Essa era a rotina do casal, mas a esposa chegou ao seu limite; estava cansada de levar uma vida de merda, cansada de chorar escondida pelos cantos da casa. O sofrimento havia de se acabar.


Encontrou sua vingança nos remédios que tomava — ou melhor, nos remédios com os quais se entupia — na busca de uma noite de sono tranquila. Um marido de ressaca, um café para curar. Café forte, com um toque especial; remédio suficiente para derrubar um cavalo — suficiente, também, para derrubar um embuste com a alcunha de marido. Pronto! Um traste dopado. O descanso foi breve, nem uma hora. Bem feito! Só os justos merecem um sono tranquilo.


Acordou com uma dor — aguda, insuportável. Dor que nunca havia sentido antes, não por falta de merecimento. O marido — imobilizado, nu e ensanguentado dentro de uma banheira — tentou gritar por socorro. Não conseguiu. A fita prateada que vedava a sua boca — aquela mesma fita utilizada por sequestradores em filmes hollywoodianos — não o permitia. Poucos grunhidos foram o máximo que ele conseguiu emitir.


O auge do desespero, e da dor, chegou quando o macho alfa — por autoidentificação — se viu como um rufião. Toda a sua ideia de masculinidade — murcha — separada do corpo, caída no chão da banheira. A esposa, segurando uma faca, assistia a tudo; como se estivesse vivendo um filme trash. Assim o casal permaneceu, até que a última gota de sangue do marido pingasse no chão.


Morte confirmada, hora da faxina. O marido já podia servir de alimento aos vermes — literalmente. A mulher limpou, minuciosamente, todos os vestígios de sua vingança. Ao findar, um bom banho. Lavadas alma e corpo. Debutou o sentimento de liberdade. Pegou o telefone e discou uma sequência de números. O telefone começou a tocar do outro lado da linha. Sua ligação foi prontamente atendida.


A agora viúva disse:


— Alô! Gostaria de pedir uma pizza, por favor.


A faxina.
A faxina.

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