A velha rezadeira
Esta história, que talvez em minhas mãos tenha virado uma estória, conta o dia em que Amanda e eu conhecemos uma velha rezadeira. História ou estória, pouco importa. O que vale de verdade é a lembrança boa que ela nos traz.
É ocês! É o casal que os santos anunciaram. Sim! Os santos me contaram. E sim, eu falo com os santos! Sou assim com eles, e eles são assim comigo. Me disseram que ocês passariam por essas bandas no dia de domingo. Neste exato dia, nesta exata hora e neste exato momento. E os santos nunca erram! Garanto a minha afirmação.
Mas desculpem a deselegância. Deixem-me apresentar. Sou uma velha rezadeira, conhecida do litoral ao sertão. Rezo por gente, bicho e planta. Já rezei de um tudo neste mundão. De menino novo a senhor velho. Até galinha eu já rezei. Já rezei cabrito, cavalo e cachorro, sem me importar com a linha. Pode acreditar, quem me conhece não se espanta. É só ter coração bom para ganhar uma oração.
Simbora deixar de embromação. Vamos ao que interessa, porque o importante é o que importa. Trabalho para o divino através de oração. Os santos me pediram para tecer um dedo de prosa com ocês. Um pedido especial, um pedido celestial, que, se negar, não tem perdão. Ocês, que são filhos de Maria — e eu sei que são —, estão rogados pela Nossa Senhora, a nossa sagrada santinha. Ela é mãe protetora e nunca abandona um filho. E, garanto, de lá do céu, está conduzindo ocês por um caminho de luz.
Mas eu não vim aqui falar por Nossa Senhora. Primeiro, eu falo por São Francisco. Aquele que ocês chamam de Chico. Eu gosto disso, e ele também gosta. Foi ele mesmo quem me disse. São Francisco, que é protetor dos pobres e da natureza, disse para ocês nunca se esquecerem de suas origens e, principalmente, seguirem humildes, porque a maior conquista que uma pessoa pode ter é um coração livre da ganância. Se assim for, ele sempre há de interceder por ocês.
Trago também recado de Santo Expedito. Porque, se a vida fosse um doce, não seria maria-mole; 'tá mais para rapadura. Vim falar de dificuldade também. Decerto, tristezas também virão. Mas meu santinho das causas impossíveis disse para ocês não aperrearem o coração. Para ocês não temerem, que ele já prometeu acudir. E, se ele intercede nas causas impossíveis, quem dirá nas causas que têm solução?
Chegou o momento especial, o momento que eu mais esperava. Agora eu falo por Santo Antônio. O santo do amor também tem um recado para dar. Ele disse que o amor de ocês é lindo, que o amor de ocês é verdadeiro! E o santo me enviou aqui para fazer o papel do casamenteiro. É para casar ocês de pressa, para casar ocês ligeiro. Sem papel de documento, de testemunha só o jumento. Porque o importante mesmo é o sentimento. Declaro ocês marido e mulher. Agora vão simbora, acabou-se o casamento.
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