Insônia

São cinco e tantas da manhã. As primeiras pinceladas do sol já estão no céu, e o ar de sua graça expôs a minha desgraça. A própria desgraça refletida em um espelho trincado no banheiro. 


Carneiros não pulam a cerca pelas bandas de cá — pelo menos, não os meus. De suas carnes, me alimentei; de suas lãs, fiz vestimentas. A verdade é que todos eles tinham nome e agora a culpa me consome. 


Já tentei de tudo — ou quase — por algumas horas de paz. Quem sabe se eternas horas de paz não findariam a minha angústia? Eu sei! Cheguei ao limite e, confesso, olhando daqui a janela me parece um tanto atraente. 


Na verdade, olhando daqui eu vejo a morte; e ela nem é tão feia como vendem por aí. A depender da vida, a morte pode ser, até, bem tentadora. Infortúnios perduram, tão somente, enquanto ainda há vida. Não há cansaço após a morte, não há dor após a morte — não para um ateu como eu. Só há o fim. 


Exagerado? Talvez. Mas o que posso fazer se, às vezes, penso na morte? Não me julguem por isso. É assim mesmo. Vida e morte andam de mãos dadas. Não há como lembrar de uma e esquecer da outra. Ainda bem. Do contrário, estas linhas seriam um epitáfio. Longo demais para um epitáfio.


Carneiro
Insônia.

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