Relato de uma mariposa em um beco escuro
Preta, puta, pobre e travesti. Pão-com-ovo, fina de dar pena, do cu se vê os dentes. E não é pra dar close, não, amapô. É da larica mesmo. Da fome. Vivo — ou sobrevivo — vinte e quatro horas no corre, no truque, no babado. Sempre no alerta. Sempre no giro. Por quê? Nem sei, mona. Mas tô viva. E já é muito nessa latrina.
A maquiagem é meu reboco de guerra, meu aqué de defesa. E quando aquendo, abafa, porque a trava aqui não anda, ela fecha! Desfila, pisa, monta no carão. É minha metamorfose de pista. Mas só por fora mesmo. Porque por dentro continuo a mesma bicha desde erê. Como se nudasse, mas sem desmudar quem eu sou.
Saí do casulo faz cota, desde erê, mas só bati cabelo pra fora do armário na adolescência. E quando saí, taquei fogo naquela desgrama pra nunca mais voltar. Nem imaginava o tanto de carrego que vinha depois. Deve ser culpa de Júpiter retrógrado, da lua virada, sei lá. Mas acho que o problema é o povo mesmo. O povo e sua neca de ódio.
Minha família... Que família? Família porra nenhuma. A minha família, nessa porra, sou eu! Minha família fui eu que fiz no asfalto, no bajubá da rua, no acolhe das outras travas. Foi na rua que virei gente. Sei as leis do gueto de cor e salteado. Perita no tribunal dos becos escuros. Sem diploma, sem jaleco, sem porra nenhuma. Sem pisar o pé na escola, me formei. Advogada, promotora, juíza, ré... tanto faz. Tudo ao mesmo tempo. Sou doutora em sobreviver aos alibãs.
E se você reclama de comer o pão que o diabo amassou, eu chupo o pau do diabo todos os dias — tapando o nariz pra não sentir o bafão de enxofre da neca podre dele.
Meu corpo, nem de longe, entrega a minha força. No meu corpo, de longe, se revelam as minhas chagas — literais e metafóricas. Estão todas aí, pra todo mundo ver.
Do meu corpo, sobrevivo. Sobrevivo com o meu corpo. Apesar de você e do pesar de viver. A vida que eu tenho não escolhi, mas a vida que eu tenho, macho nenhum vai me tomar. Se eu tenho orgulho? Foda-se! Sobreviver nunca foi pecado.
Xanã, taba e padê até umas horas. Só assim pra aguentar o inferno sem desmontar na esquina. Mas dormir no ponto? Jamais. Bobear é virar saudade. Ando sempre com a navalha de baixo da língua, no jeito. Se vacilar, sangro a neca sem dó. Vrau!
E, por falar em navalha, quantos cortes os meus pulsos já não me imploraram? Quantos cortes? Afinal, como disse aquele grande poeta burguês que cuspia no prato que comia, a vida é bem mais perigosa do que a morte.
Mas, sou preta, puta, pobre e travesti. A minha existência já é sinônimo de luta. E não lutar não é uma opção.
Colaboração: Luan Fonseca e Natália Napoli
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| Diva. |

Foi uma honra colaborar com o texto! Vendo ele prontinho dá uma felicidade maior e a ilustração está linda! ❤️
ResponderExcluirLuan querido! Muito obrigado pelo carinho!
ExcluirExcelente!
ResponderExcluirIs we brou!
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