Contato imediato de 3o grau

Era uma noite fria de inverno no ano de 1985. Após passar o dia vendendo os queijos que a minha família produz em nosso sítio, eu finalmente voltava para casa, louco para calçar os meus chinelos e ter um pouco de descanso. Dirigia sozinho na velha estrada de terra que ligava a cidade ao interior. Estava a pouco menos de dois quilômetros de casa quando me deparei com uma situação, minimamente, suspeita. 


Avistei um carro parado no canto da estrada. Seus faróis acesos, a porta do motorista aberta e, ao que tudo indicava, ninguém em seu interior. Mesmo desconfiado, e com muito medo, resolvi parar e averiguar. Fui até o carro abandonado e confirmei que ele estava vazio. Senti a minha espinha gelar; meu corpo se estarreceu naquela hora. Milhões de cenários e panoramas se passaram pela minha pobre cachola. 


Explorei a cercania em busca de uma pista e, como um Sherlock Holmes, encontrei. Imerso ao matagal, avistei uma luz. Era uma luz muito intensa, que se movimentava pouco, mas que, às vezes, quebrava o breu com movimentos bruscos. Voltei ao meu carro, peguei a minha lanterna e fui investigar o que poderia ser aquele diacho de luz. Sabia que havia algo muito estranho acontecendo. Sentia uma presença naquele lugar, e algo não me cheirava bem. 


Na verdade, literalmente, algo não me cheirava bem. Um cheiro forte pairava no ar. Um cheiro pútrido. Fui avançando no matagal e, quanto mais me aproximava da luz, mais forte o cheiro ficava. Era um cheiro de outro mundo. Meu Deus, eu juro: só de pensar, o fedor retorna às minhas narinas. Ânsia é pouco para definir o que senti. Tapei o nariz com o braço e segui avançando no matagal. Alguns grunhidos estranhos chegavam aos meus ouvidos. 


Naquele instante, naquele exato instante, eu já não tinha mais dúvidas: estava em contato com algo que não era deste planeta. O medo tomou conta do meu corpo. A luz estava cada vez mais forte, o cheiro também. Logo eu, que nunca acreditei nessas histórias de alienígenas e contatos imediatos, vivenciando isso? 


A luz já estava muito perto, a menos de quatro metros de distância. Apenas uma moita me separava da misteriosa criatura. De repente, tão de repente, me deparei com um ser pequeno, de cócoras, com as costas curvadas e com uma cabeça um tanto quanto maior do que o habitual. Não tinha ideia do que fazer ou de como agir. Resolvi entrar em contato e me apresentei ao estranho ser, dizendo o meu nome, a minha idade, a minha origem e que a minha família produzia e vendia queijo por aquelas redondezas. 


Nem bem acabei de me apresentar, uma voz do outro lado da moita imediatamente respondeu. Confesso: a resposta me surpreendeu.  


— Boa noite, senhor! Me chamo João, tenho 37 anos e te peço, encarecidamente: me deixa cagar em paz! Um maldito queijo produzido aqui na região me deu uma baita caganeira desgraçada.


Alien ET
Eu quero acreditar.

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