Um dia de paz em um prédio em chamas

Fiscalizando as folhas caindo, a vizinha do 503 fumava o seu cigarro, preguiçosamente escorada em sua janela. Enquanto isso, o vizinho barbeiro do 401, distraído ao entrar no prédio, bateu o carro no portão da garagem. Era mais um dia de feira por aquelas bandas movimentadas, mas este, na verdade, seria de longe o pior dia da história daquele prédio.


De modo a evitar o acidente, a fumante do 503 até pensou em avisar o pobre motorista distraído, mas o infortunado ocorrido foi mais rápido que o cérebro da potencial boa samaritana. Uma pancada certeira. Resultado: um portão amassado e um alarme disparado.


O fuzuê despertou a vizinha curiosa do 403, que pulou do sofá e correu em direção à janela do quarto para espiar o ocorrido e dar o seu veredito. Adianto-lhes: ela não gostou daquilo que viu. Parte por ter sua paz interrompida, parte pelo envolvimento do "imbecil do 401" no acidente.


A curiosa — e agora também furiosa — do 403 esbravejou e repreendeu o barbeiro do 401 como se ele tivesse acabado de cometer um pecado mortal. Os vizinhos de porta não se batiam há tempos, e esta não era a primeira baixaria protagonizada pelos dois. Na verdade, se não me falha a memória, esta era a quarta confusão entre eles naquela semana.


Mas, voltando à vaca fria, o estouro da curiosa do 403 estremeceu a fumante do 503, que, involuntariamente, deixou o cigarro escapulir por entre os dedos. A bituca caiu feito uma jaca madura ao se desprender de sua jaqueira mãe. Talvez eu esteja exagerando, mas, de qualquer forma, a bituca acertou milimetricamente o centro da região do pioco da curiosa do 403.


Não por menos, a mulher atingida pela bituca tomou um susto de cair o queixo. Por reflexo, desinclinou o corpo para dentro do apartamento e, cambaleante, esbarrou em um pote de vidro contendo a magnífica coleção de berlindes — também conhecidas como bolinhas de gude — internacionais de seu filho. A coleção incluía uma esfera de aço cujo uso em partidas oficiais é proibido em mais de 150 Estados-membros da ONU, mas essa é outra história. Fica para uma próxima.


O esbarrão no pote foi suficiente para fazê-lo pender à direita, depois à esquerda, novamente à direita e, por fim, tombar, espatifando-se em milhões de pedaços no chão do apartamento.


O barulho do pote quebrando e das bolinhas se espalhando assustou o gato do vizinho do 203. O infeliz do pequeno felino estava, confortavelmente, esparramado na janela do quarto, acompanhando o ir e vir daquele prédio movimentado, sem cometer crime algum. Arrebatado com o furdunço, o gato saiu em disparada e, encravando suas garras, escalou o dorso de seu dono como se ele fosse feito para tal função.


Pobre do dono do gato. Preparava, ululante, o jantar ao som de Red Hot Chili Peppers e foi dolorosamente interrompido pelo seu fiel camarada, que o transformou em uma parede viva de escalada. A dor da acupuntura felina deixou o vizinho do 203 em estado de choque. Ele mal percebeu que o pano de prato que carregava no ombro esquerdo havia caído nas chamas do fogão.


Quando finalmente deu por si, o pano já havia se transformado em uma grande labareda e, em um piscar de olhos, o fogo se espalhou para os armários da cozinha, depois para os móveis da sala e dos quartos. Em pouco tempo, o prédio estava tomado pelas chamas. Felizmente, ninguém se feriu. Todos os moradores saíram do prédio em segurança e ilesos.


Experiências traumáticas, como a ocorrida nesse prédio, são capazes de afetar o emocional das pessoas — seja para o bem ou para o mal — e mudar suas percepções em relação à vida. Com essa vizinhança não foi diferente.


A compreensão da fragilidade da vida tocou os corações daqueles moradores outrora amargurados. Eles perceberam o quanto se preocupavam com causas fúteis, tolices, idiotices e, quase automaticamente, iniciaram uma grande ação de reconciliação. Beijos e abraços foram trocados em uma magnífica confraternização em homenagem à ventura de viver.


Reunidos em frente ao prédio em chamas e com o som das sirenes dos bombeiros se aproximando ao fundo, em um belo ato simbólico, os vizinhos deram as mãos e cantaram "Kumbaya, my Lord". Que cena incrível! Que momento emocionante!


Para consagrar de vez o instante, um sopro divino trouxe uma inesperada chuva ao local. Uma chuva purificadora, daquelas que lavam a alma. Naquele momento, os moradores do prédio incendiado esqueceram de vez suas divergências, seus problemas pessoais e voltaram a ser crianças.


Todos os moradores juntos, brincando de ciranda em uma enorme poça d'água ofertada pela mãe natureza. Desritmados e encharcados, porém felizes, celebravam como nunca haviam feito antes em suas pobres vidas.


Mas, como já dizia o velho ditado: tudo que é bom dura pouco. A vida, marota como Ivo Holanda, prega das suas pegadinhas.


Enquanto os moradores cirandavam felizes na poça, um raio acertou o poste elétrico que os iluminava, causando uma grande explosão. O impacto arrebentou os fios de energia, que caíram na poça d'água onde os moradores se divertiam, liberando uma potente descarga elétrica.


A descarga matou toda a vizinhança. Sim, todos morreram eletrocutados. Era o fim da celebração da vida. Irônico, não é mesmo? Ponto para a morte.


Ah, quanto ao gato do 203, vai bem, obrigado! Gato tem medo de água e não se mistura com qualquer um.


Prédio em chamas
Em chamas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Nem se o destino tivesse aprontado

O rapaz que era apaixonado pela estrela D'alva

Círculo de fogo