Van Damme e o rapto do menino dourado que, na verdade, era um dragão dourado — eu acho
| Qual é a cor do dragão branco de Van Damme? |
Lá estavam eles, dois encostados, sentados preguiçosamente no sofá — não poderia ser diferente. Com o controle remoto na mão, passeavam mundo afora através do aparelho de TV. O destino era incerto. De canal em canal, o universo se retraía e nada absorviam seus perdidos cérebros. Mas, porém, contudo, entretanto (e tudo mais), quem sou eu para julgá-los? Estou aqui, apenas, narrando a história de dois seres a quem sobravam afazeres a não se fazer. E cumpriam a árdua tarefa de não fazer nada com louvor.
Também pudera, com tantas opções disponíveis, tantas possibilidades, fica difícil encontrar o milho em meio a um mar de bosta. E, no final das contas, a atividade menos custosa que lhes restava era a TV. Na falta do que se fazer, o dedo pesa em cima do botão 'channel up' e os canais pestanejam na frente dos olhos de Barman e Mefistófeles. Companheiros de jornada preguiçosa, sem um pingo de coragem, no vagar vagabundo dos canais. Um a um, em busca do entretenimento barato perdido.
Mas o tédio é pentelho. Às vezes, o tédio cutuca a solidão com força descomunal e uma súbita vontade de falar — nem que seja a primeira imbecilidade que pintar na cabeça — surge feito uma jamanta desgovernada, um FNM, descendo a ladeira. É incontrolável! Inevitável. Alguém precisa quebrar o silêncio.
— Sabe aquele filme do Van Damme, acho que é O Grande Dragão Branco?
Perguntou Mefistófeles, sem mover mais do que o necessário para executar a tarefa, a Barman. Preguiça para perguntar, preguiça para responder. Barman não estava para papo e balbuciou algo que deveria ter sido um "não". Pobre! Não imaginava que a sua resposta acordaria o demônio da obsessão que habita Mefistófeles. O indivíduo não pouparia esforços para se fazer entendido. Barman precisava, independente da forma, se lembrar do referido filme do Van Damme com o grande dragão. O grande infortúnio é que nem sempre é fácil encontrar coesão e organização na vastidão de um cérebro preguiçoso. Gradualmente, a empolgação de Mefistófeles foi cedendo lugar à confusão, e o entendimento foi dando adeus sem, ao menos, se apresentar.
— Ou será que é O Último Dragão Branco? Ou o dragão era dourado? Sim! O dragão era dourado... [pausa] O dragão era dourado e foi raptado. É isso, o dragão foi raptado!
Se questionou, e se questionou, e se questionou Mefistófeles, o perdido apreciador da sétima arte. Barman até que fez as vezes de um bom companheiro de jornada, após perceber o labirinto que havia se tornado a cabeça de Mefistófeles. Com calma e paciência, resolveu tentar ajudar a solucionar o caso do misterioso filme do Van Damme e o dragão cuja cor e o destino ainda eram incertos. Barman largou o dedo de cima do botão 'channel up', aceitou o fim precoce de seu passeio pelos canais da Veneza do entretenimento e mergulhou de cabeça no desafio. O desafio mortal.
— Mas o rapto não era o do menino dourado? Sabe? Naquele filme com o Eddie Murphy, do menino monge carequinha.
Perguntou Barman. Sem surpresa alguma, adianto-lhes: não era o filme do Eddie Murphy. Sem meninos dourados e sem "Eddie Murphys" no tal filme mencionado por Mefistófeles. Ele estava falando de dragão e estava falando de Van Damme. Repito, dragão e Van Damme. De acordo com Mefistófeles, tratava-se de um baita filme que passava constantemente na boa e velha "Sessão da Tarde".
— É aquele filme que conta a história de um torneio secreto de MMA, mas antes mesmo de surgir o MMA.
Mefistófeles não poupou esforços para se fazer de entendido, mas o mistério ainda permanecia sem solução. O desejo de resolver o caso tomou um patamar desesperador. E o desespero... o desespero nos leva a tomadas de decisões precipitadas e atitudes drásticas. Foi um tal de "Brasil versus Sião" para cá, "Estados Unidos versus China" para lá. Parecia que Mefistófeles estava lendo a tabela de jogos da Copa do Mundo de futebol com a voz de um locutor de um torneio clandestino de MMA. Perseverante, se esforçou um bocado para que Barman reconhecesse o locutor de um filme que ele mal sabia se havia assistido. Acho que não é surpreendente, mas a estratégia de Mefistófeles não funcionou.
— Não? Nada?
Persistente, Mefistófeles continuou em disparada.
— Foda-se! Basicamente, o filme conta a história de um torneio secreto de artes marciais. Participam do torneio os maiores lutadores do mundo. Ou melhor, os maiores lutadores do mundo, mas, desde que convidados por uma comissão cujos membros se vestem como monges. O Van Damme se infiltrou na equipe do representante dos Estados Unidos no tal do torneio, mas só para descobrir onde ele era realizado — ou algo do tipo. Não, espera! Será que o Van Damme queria participar do torneio, mas o exército americano não liberou e ele foi lutar escondido? Não! Não! Espera!
Mefistófeles dá uma breve pausa, tenta clarificar a cuca, e continua em disparada.
— Não lembro direito! Mas acho que o torneio era em uma cidade perdida. Ou será que era em Taiwan? Não! Não! Não é o filme que se passa em Taiwan. Esse é outro! Que, para ser sincero, nem lembro se o filme se passa em Taiwan ou não, mas deve ser. Acho que no filme que eu estou — ou estava, já não sei — falando, o Van Damme era um ladrão que comandava uma perigosa gangue de criancinhas órfãos. A gangue das criancinhas órfãos armou um grande plano para roubar o prêmio do tal torneio secreto. E o prêmio do torneio secreto... era um grande dragão dourado, é claro! Ou era branco? Algo do tipo, ou branco ou dourado. Ou não?
— Espera!
Retrucou Barman, que, a essa altura, estava curiosíssimo para descobrir que diabos de filme era esse que Mefistófeles estava falando e, afinal, descobrir qual era a cor do dragão do Van Damme.
— Torneio de luta secreto, [...] dragão? [...] Você só pode estar falando de Mortal Kombat. É Mortal Kombat! Não é?
Barman foi precipitado e, quase instantaneamente, percebeu sua precipitação.
— Mas o Van Damme não estava no Mortal Kombat. O Van Damme estava no Street Fighter.
Sim! Sim! E sim! É claro! O Van Damme não estava no filme Mortal Kombat, mas estava no horroroso Street Fighter. Street Fighter, cuja maior façanha — digna de Oscar — foi ter sido o último filme estrelado pelo magnífico Raul Julia. Grande Raul Julia!
Filmes inspirados em jogos à parte, o mistério do filme do Van Damme ainda continuava sem solução. Barman seguiu Mefistófeles, paciente, em sua saga de se fazer entendido.
— Independente! Eu não estou falando nem de Mortal Kombat e nem de Street Fighter.
E continuou...
— Eu estou falando de um filme em que, no frigir dos ovos, o Van Damme substitui o americano no torneio secreto e acaba ganhando a porra toda.
Mefistófeles se levantou, se posicionou logo em frente ao sofá e, completamente desajeitado, começou a imitar os movimentos de luta que, provavelmente, deveriam se parecer com os movimentos do Van Damme no tal misterioso filme. Ele, ao invés do papel do incansável lutador, fazia o papel de ridículo. Um baita ridículo. Quanto a Barman, observava e ouvia as bizarrices de Mefistófeles enquanto se perguntava onde havia amarrado sua égua.
— Não lembra mesmo? É aquele filme em que, na luta final, o antagonista joga um pozinho no olho do Van Damme. O pozinho cega o Van Damme. Com o Van Damme cego, parecia que estava tudo perdido. Parecia a contradição do mal vencer o bem. Mas não em um filme do Van Damme. Graças aos ensinamentos do senhor Miyagi do Van Damme [...]. Claro que não é o senhor Miyagi de verdade, do filme do Daniel San. É outro senhor Miyagi, esse é o treinador do Van Damme no tal do filme do dragão. Digamos que é o senhor Miyagi do Van Damme.
Agora, uma pausa necessária. Senhor Miyagi do Van Damme? Senhor Miyagi é demais! Demais! Mefistófeles passou, olhou para o limite, o pegou, deu-lhe uma rasteira, estirou-o no chão e sambou em sua cara. Sambou até não poder mais sambar. Sambou como se não houvesse quarta-feira de cinzas. Descanse em paz, limite. Na hora em que Mefistófeles proferiu, sequencial e propositalmente, as palavras "Senhor Miyagi do Van Damme", ele impossibilitou Barman de pensar em qualquer outra coisa que não fosse: "Senhor Miyagi do Van Damme". Também pudera! No mesmo instante em que as palavras entraram em seus ouvidos, o pobre imaginou o senhor Miyagi mandando o Van Damme pintar a cerca, [...] encerar o carro, [...] enquanto, ao fundo de sua imaginação, tocava a clássica canção tema do filme Karatê Kid. Como se não fosse o bastante, Mefistófeles seguiu em sua batalha.
— Que seja! Graças aos ensinamentos do senhor Miyagi do Van Damme, o [...] Van Damme [...] aprendeu a lutar com os olhos vendados. Sério! Com os olhos vendados! Durante a luta final, bem na hora em que o Van Damme mais precisou, quando todo o esforço do mocinho estava indo por água abaixo, quando o troféu escapulia por entre os seus dedos, surgiu aquele flashback de superação, aquele flashback "flashbackeando" como o mocinho havia se preparado para as mais difíceis e também improváveis situações. Aquele flashback "flashbackeando" como o Van Damme podia, e merecia, vencer o torneio, mesmo ficando cego em plena luta final. Afinal, um flashback não mente, e se o flashback disse que o Van Damme estava preparado, Van Damme estava preparado. Van Damme estava muito, muito, muito mais preparado do que qualquer outro participante, do que qualquer outro adversário, do que qualquer outro competidor, e ninguém, absolutamente ninguém, a não ser o próprio Van Damme, poderia vencer aquele torneio. Nenhum espertalhão poria fim ao sonho do Van Damme de levar o grande dragão — ainda de cor indefinida — para casa. No fim das contas, o Van Damme ganhou a luta, mesmo sem enxergar um palmo à frente de seu nariz. Consequentemente, conseguiu vingar a honra de seu amigo, que ficou paraplégico após uma luta contra o antagonista da história. O tal que jogou o pozinho no olho do Van Damme.
Se Mefistófeles já havia sambado na cara do limite quando mencionou "Senhor Miyagi do Van Damme", agora o limite já estava enterrado, de cachão lacrado, a sete palmos do chão. Junto ao findar do limite, ele acabara de nocautear a paciência de Barman. O pobre simplesmente desistiu. Desistiu de pensar, desistiu de entender, desistiu da saga Van Damme e do dragão de cor indefinida. Era o fim! Era o fim do universo cinematográfico Van Damme. Pelo menos o universo cinematográfico existente na cabeça de Mefistófeles. A Barman restava, apenas, a fúria. A fúria de um grande dragão cuja cor pouco importava.
— Isso não faz o menor sentido! De onde saiu esse amigo paraplégico? E esse pozinho que cega? E o Senhor Miyagi do Van Damme? Que porra é essa? Sério? Eu desisto! DE-SIS-TO! E que diabos você quer — ou queria — com esse tal filme do Van Damme e a porra do dragão de, sabe-se lá, que cor?
A resposta de Mefistófeles... A resposta de Mefistófeles...
— Esqueci!
Sim! Esqueci, disse o diabo. E que diabo. Tanto esforço por nada. Nada! Barman retomou o controle remoto e pesou o dedo no botão 'channel up'. Assim ele ficou, até notar que estava passando Mudança de Hábito 2 no canal 8.
Faltou Mefistófeles se lembrar que o filme era baseado em fatos reais. Ativaria a memória do Barman na hora.
ResponderExcluirKkkkkk... É veddade! Na bagunça que é cabeça dele, faz sentido não ter lembrado.
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