A família Muriqui
Sabe aqueles animais enjaulados, ziguezagueando, como se pudessem escapar do tempo? Assim estava o senhor Muriqui, andando de um lado para o outro, prestes a abrir uma vala na frente de sua casa. O sol já ia alto, e seu filho, que havia saído cedo para comprar pão, ainda não voltara. Todas as manhãs, religiosamente, o garoto pedalava até a padaria ao raiar do dia, mas agora a demora era insuportável, como se algo segurasse o tempo.
Raiva e preocupação duelavam na mente do velho, até que um alívio frio tomou conta de seu corpo. Ao longe, lá vinha o garoto, pedalando sua bicicleta. Mas o que começou como alívio logo deu lugar a uma fúria crescente, e a raiva finalmente venceu quando ele percebeu que o menino voltava de mãos vazias.
— Onde diabos cê'stava, moleque? — sua voz cortava o ar, carregada de um misto de desespero e incredulidade.
— Fui comprar o pão, pai.
— E cadê o pão?
— A padaria sumiu. Desapareceu! Escafedeu-se, junto com o resto da cidade pra lá da praça central. Tudo foi embora: cartório, igreja, a casa da dona Joaquina... Tudinho.
O velho encarou o menino como se olhasse para um delírio. Explicações vieram, mas ele não acreditou. Quem acreditaria? A ideia de que metade da cidade simplesmente desaparecera era absurda. No entanto, algo no ar — talvez um silêncio pesado demais, ou o cheiro estranho que vinha do vento — parecia dar razão àquelas palavras insanas.
Sim, metade da cidade havia sumido. De um dia para o outro, sem alarde, sem testemunhas. No lugar dela, um deserto frio e estéril surgira, expandindo-se como uma praga. O mais estranho era que ninguém notara até ser tarde demais. Sem alardes, nem barulhos, nem avisos. Só ausência.
E os moradores? Você pode perguntar. Eles também desapareceram. Prefeito, padre, comerciantes... todos engolidos pelo vazio. Não sobrou sequer uma sombra de quem eram, apenas o silêncio e a areia. Na parte que restou da cidade, a última autoridade restante era um vereador despreparado, eleito sem mérito, mad por suas palhaçadas.
Quando os moradores perceberam que estavam completamente isolados — sem rádio, sem TV, sem internet —, o pânico tomou conta da cidade. Reuniões foram convocadas, mas terminaram em gritos, acusações e desespero. Sem respostas, cada um voltou para casa com a esperança de que, ao menos, suas paredes ainda estariam lá na manhã seguinte.
Não estavam.
No dia seguinte, o deserto avançou. O que restava da cidade foi reduzido a um único ponto: a casa do senhor Muriqui, cercada por um oceano de areia. A visão era aterradora. Um horizonte vazio, sem movimento, sem vida. A areia parecia viva, pulsando em um ritmo próprio.
De onde veio esse deserto? O que aconteceu com a cidade? Ninguém sabe. O que sei é que lá ficaram os Muriquis, isolados, aprisionados pelo tempo e pelo vazio. O relógio parecia andar mais devagar, cada segundo esticando-se em um sofrimento interminável.
Eles esperavam. Talvez pela salvação. Talvez pelo desaparecimento. Não sei dizer ao certo. Suponho que nem eles. Mas eles esperavam.
O que resta é viver. Até que o nada os alcance.
| O Muriqui. |
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