Movimento dos astros

As primeiras bocejadas. Uma, duas, três. O corpo não mente. As dores, o peso. É hora de dormir.  


Alguns passos até o banheiro. Mão na maçaneta, abro a porta. Me olho no espelho. Fecho a porta.  


A TV me ensinou a lavar as mãos antes de comer, beber e pegar na mamadeira; e o dito popular prega que barata rói o canto da boca de quem vai pra cama sem escovar os dentes. Não sou muito de prevenir para não remediar, mas, nesse caso específico, prefiro evitar. Deus que me livre!  


Escovo bem os dentes. Lavo o rosto, o enxugo com a toalha. Respiro profundamente. Penduro a toalha no toalheiro.  


Me olho no espelho. Olho as minhas tatuagens. Quantas tatuagens? Perdi as contas. A primeira ainda é a minha preferida.  


Fixo o olhar em meus olhos. Fixo o olhar. Meus olhos. Meus olhos. Meus olhos? Quantos olhos?


Calma! Fixo o olhar. Agora sim! Vejo os meus olhos. No espelho, as bordoadas do tempo — e as peripécias de uma mocidade um pouco travessa.  


Meu corpo não é mais o mesmo. Eu não sou mais o mesmo. Mas, no fim das contas, ainda sou eu. Carrego o meu nome, o meu Registro Geral, o meu CPF.  


Olho para o espelho mais uma vez, só para tirar a prova dos noves. Definitivamente, sou eu.  


Estranho. Não me sinto o velho eu. Talvez um pouco, mas não aquele. O velho eu era mais novo.  


Cavalo-do-cão
Cavalo-do-cão.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Nem se o destino tivesse aprontado

O rapaz que era apaixonado pela estrela D'alva

Círculo de fogo