Perfume pútrido

Tudo muito perto. Tudo muito igual. Tudo numa mesma. Nada mudou. Tudo continua na mesma boa e velha bosta de sempre.  


— Ah! Mas se estivéssemos na bosta, sentiríamos o cheiro da merda.


Retruca um idiota literal. Ou seria um literal idiota? Tanto faz. Um infeliz.  


Com a certeza de um blefe, clamo o truco e retruco. No começo — bem no comecinho — a gente até se incomodou com o aroma do chorume pairando no ar. Mas, com o passar do tempo, o cheiro se espalhou. O próprio Zéfiro encarregou-se desse serviço ingrato.  


Lembro bem. A merda, como um rastro de pólvora, tomou de assalto todos os orifícios: os nasais e os não nasais. E, mesmo assim, insistimos. Os cabelos caíram. A barba cresceu e se embranqueceu. O cheiro ficou. E agora estamos todos acostumados com esse perfume pútrido.  


É o que resta nesta festa: se acostumar. E a gente se acostuma. Se acostuma com tendências, com números, com tragédias. Se acostuma com tudo que tiver que se acostumar. Só não se acostuma quem morreu.  


Aos mortos, não há nada a dizer. Aos conformados, apenas paciência. A vida e a morte continuam as mesmas. O trem ainda sai da mesma estação, no mesmo horário. O destino também não mudou. Nunca muda. Independentemente do maquinista.  


Locomotiva trem Maria fumaça
Loucomotiva!

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