O GPS do cu

PESSOA COM DIARREIA

— Caralho! Que maçaneta suja do caralho! Que porra é essa? Se foder! Ou entro nessa merda, ou meu mundo vira uma merda.


NARRADOR

— Parece que o cu tem um GPS que registra todas as posições geográficas de todos os banheiros do mundo.


PESSOA COM DIARREIA

— Não é de se admirar, o interior do banheiro é tão sujo quanto a recepção de boas-vindas.


NARRADOR

— O cu manda a localização atual e a distância até o banheiro mais próximo. Essa informação é transmitida para o cérebro, que imediatamente entra em contato com o sistema digestivo para calcular o tempo entre a digestão do alimento e a necessidade urgente de evacuar. 


— Mas o sistema digestivo é traiçoeiro. Ele trabalha com o único objetivo de foder a roupa do portador do cu. A lógica é simples: animais não-humanos nascem e vivem nus ao longo de suas vidas — desconsiderando animais de estimação que usam roupas. E a máxima é praticamente a mesma para animais-humanos. Também nascemos nus, o que significa que o ato de se vestir não é intrínseco de nossa espécie. 


— É um comportamento cultural inserido há milhares de anos em nossa sociedade, mas não tem relação alguma com a nossa preferência por usar roupas ou não. Brincadeiras à parte, nenhum cu gosta de viver no sufoco.


PESSOA COM DIARREIA (após a evacuação)

— Alívio! O alívio me resume agora. Mas quase instantaneamente o nojo em relação ao banheiro sujo retorna. A função que resume o sentimento de nojo ao cagar em banheiro sujo é, claramente, uma senoide. 


— Visualize comigo. O nojo é igual a zero quando você ainda não viu o banheiro. Pronto. Agora você chegou no banheiro e percebeu que ele está sujo, consequentemente, o nojo aumenta. Quanto mais tempo você passa no banheiro, mais detalhes relacionados à sua imundície você vê, logo, o nojo aumenta. Concorda? Ok. Seguimos. 


— Mas, quando você precisa usar o banheiro com urgência, usá-lo ou não não é uma opção. Simplesmente não dá para segurar. O nojo é deixado de lado e as necessidades fisiológicas se tornam imediatas. Olha aí o nojo caindo. E caindo. E caindo. 


— Pronto. O serviço está feito e você se sente aliviado. A partir desse momento, começa a preocupação com outras coisas, como a presença, ou falta, de papel higiênico. Dependendo da dieta, você enxuga o suor e, finalmente, olha ao redor. 


— Lembra que o banheiro que salvou a sua dignidade está uma desgraça. Voilà. O nojo volta a aumentar e assim segue até o momento em que você consegue se livrar do banheiro sujo.


NARRADOR

— Com a informação da distância do banheiro mais próximo calculada, o sistema digestivo luta incessantemente contra a evacuação tranquila. A vontade de cagar, quando aparece em uma esquina qualquer, aumenta exponencialmente com a aproximação de um banheiro. 


— Isso acontece porque o sistema digestivo envia uma dose de esperança ao sistema nervoso, que sinaliza ao corpo a singela mensagem: "Corre que dá tempo!" Raramente dá. A merda se antecipa, coloca a cabeça para fora para conferir o ambiente, checar a temperatura, a umidade do ar. 


— O cérebro, como um inspetor de corredor escolar, sente que algo não cheira bem. Averigua a situação e se movimenta para garantir a manutenção da dignidade do portador do cu. Sinaliza ao cu a obrigatoriedade de seu imediato fechamento, mas o cu é traquinas. 


— O cu conhece o seu eleitorado. O cu movimenta as massas. Reconhece a sua classe e convoca o sistema digestivo, que diz não à opressão das vestimentas. Inicia-se então um desesperador abrir e fechar de cu, que segue em movimentos síncronos com a respiração do portador. 


— Inspira, e o cu fecha. Expira, e o cu abre. O desespero e a dúvida em relação ao sucesso de uma cagada segura fazem a respiração do portador do cu se tornar cada vez mais ofegante, o que aumenta o abrir e fechar do cu. 


— Sem saber o que fazer, o pobre coitado divide sua energia entre encontrar o banheiro e segurar a cagada. O resultado dessa aventura depende de vários fatores externos, como: agilidade do portador do cu, dieta, rotina diária, genética, cultura, alimentação nas últimas 24 horas, a quantidade de alimento ingerido, etc. 


— No fim das contas, a cerâmica é sempre a maior prejudicada. Mas, se houver pimenta na história... pior para o cu.


Banheiro sujo
Boca do palhaço.

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