O ostentador de mentiras
Ah, Homo sapiens! Seres extraordinários. Entre suas muitas habilidades, carregam consigo uma que é verdadeiramente única: a incrível capacidade de inventar. Falo isso com propriedade. Homo sapiens que sou, me divirto a pampa inventando histórias. Mas os Homo sapiens não se contentaram apenas com histórias. Inventam de um tudo. Inventam modas, tendências, objetos, leis, crenças, deus, diabo e o diabo a quatro.
Basta parar um pouco, olhar ao redor, e ver como nossa capacidade inventiva moldou o que somos hoje. Se faz frio, invente uma fogueira, ou se cubra com algo. Sei lá? Apenas invente uma forma de se aquecer e sobreviva. Quantos mitos, quantas ferramentas, quantas geringonças tiramos da nossa cachola ao longo do tempo evolutivo? E o pirocóptero, lembra? Tudo tirado daqui, da cabeça da gente.
E as mentiras? Já pensou nisso? Pois é! As mentiras também carregam o selo de autenticidade dos Homo sapiens. Duvido, duvido muito, que você, caro leitor, nunca tenha inventado uma mentirinha para escapar de uma roubada ou para não se sentir um peixe fora d'água em uma roda de conversa. Sim, eu sei! Mentir é feio, é errado. Mas, como diria o mais famoso dos nazarenos: "Aquele que nunca pecou, que atire a primeira pedra."
O problema é quando alguém exagera, passa do limite. Para esses, nem Jesus na causa — quem diz isso é um ateu. Deixando de lado a enrolação, narrarei aqui a história de um grandessíssimo mentiroso. Não qualquer um, mas o maior de todos, o mais escroto. Ah, e se ao final desta leitura você duvidar da veracidade da história, tudo bem, às vezes exagero nos fatos. Mas afirmo, categoricamente: este não é o caso. Infelizmente, a única garantia que posso lhe dar é a minha palavra.
Era uma vez um menino que mentiu uma vez. Tomou gosto e virou um grande mentiroso. Mentia para qualquer pessoa, em qualquer situação, em todas as escalas. Como diria dona Maria de Lourdes, mentia "até o cu bater palmas." A cada mentira, esticava mais o limite da sua régua.
Seus pais, desgostosos com o comportamento do menino, tentaram de tudo para ajudá-lo. A lista é longa, mas vale o esforço de ilustrar: conversas francas, umas palmadas (sem juízo de valor, por favor, na época era permitido), esportes, aulas de arte, terapia convencional, terapia espiritual, cromoterapia, cronoterapia, ocultismo, magia, hipnose, regressão, religiões (até o jediísmo entrou na conta), reabilitação, simpatias, promessas (com direito a santos pendurados de cabeça para baixo por longos períodos), e por aí vai.
E bota por aí vai nisso. Nada adiantou.
O tempo passou, e o menino virou adolescente. Continuava mentindo, cada vez mais. Seus pais, cansados e sem esperança, desistiram. Criaram, sem querer, o maior mentiroso do mundo. Mentira atrás de mentira. Uma após a outra. E mais outra.
Por quê? Para quê? Não fazia sentido.
O adolescente virou homem, saiu de casa e se profissionalizou na arte de mentir. Mestrado, doutorado, MBA, NBA — pelo menos é o que consta no currículo. E o que parecia não ter como piorar, piorou.
O grande mentiroso encontrou uma galera animada, que compartilhava sua paixão pela mentira. Se organizaram, se multiplicaram feito vírus e se tornaram uma espécie de milícia, com o objetivo de espalhar a mentira pelo mundo.
Logo, o grande mentiroso virou o Messias de uma legião de mentirosos. Recebeu até o apelido de "mito." Era "mito para cá", "mito acolá", "mito para todo lado." O tal do "mito" decidiu então alçar voos mais altos. Candidatou-se à presidência da República Federativa Tupiniquim. Seu plano de governo? Baseado em inverdades (vulgo mentiras) e promessas de milagres.
Por mais absurdo que pareça, o povo caiu no conto do vigário. E o grande mentiroso venceu as eleições. Sim, ele virou presidente. Parece mentira, mas não é.
Hoje, a desgraça segue como chefe maior da nação. E, segundo ele próprio, sua carreira política é um sucesso e sua gestão vai de vento em popa. Obviamente, é mais uma grande mentira. Só quem perdeu o juízo acreditaria na palavra de um mentiroso.
Eis o mistério da fé.
| O poderoso ratão. |
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