"Tá lá um corpo estendido no chão"

Ouviu esse barulho? Batuque de tambores, pouco ortodoxos e recém-descarregados, anunciando um fim prematuro. Um longo ruído. Os tímpanos zunem. E em três, dois, um...

Voilà! 

O choro de uma mãe solo corta o silêncio, lamentando o adeus prematuro ao filho. Um pato socialmente desgarrado, agora sem vida, vira manchete. Inversão do papel natural de coveiro. Receita diária de tragédia: camisa de escola à cabidela, cozida lentamente no asfalto quente. E, agora, de que serve? Costurar, lavar e quarar, para quê? Não tem mais valia.

Oito da noite, em ponto. O menino vira estatística no telejornal. Mas esse não tem número na camisa. Apesar do sonho, não tem realização. Não tem gol, não tem comemoração. Só mais um fulano, senhor de uma história qualquer. Preto, pobre, fodido. Dirão: era o lugar errado, na hora errada. Culparão o acaso. Mas não foi o acaso!

Um corpo estendido no chão. Uma vida resumida a um momento. Pique sem fantasia. Pique-esconde, pique-pega, polícia-e-ladrão... agora, a valer. Guerra que segue. Ninguém ganhou.

Seu nome era Qualquer. Sua mãe, desolada, culpa as más amizades pelo fim trágico do filho. Mas o que sei é que os três mosqueteiros precisavam de um D’Artagnan. E como não se identificar? Quatro moleques: a mesma vida, as mesmas angústias, as mesmas ausências. Esquecidos pelo mundo, lembrados apenas quando conveniente.

A escola era o destino naquela manhã, mas a aventura falou mais alto. Desceram ao asfalto, pegaram uma condução, fugiram sem pagar. Uma prainha, uma zapeada no shopping. Queriam um lanche, mas não tinham dinheiro. Pediram. Afinal, como diria o velho galdério — e um não tão velho, saudoso amigo meu —, a tenteada é livre.

Foram escorraçados — tapa na cara como método didático. Moleques pretos e favelados não são bem-vindos em ambientes "bem frequentados". Assustam a clientela. E, vou te contar, a didática funcionou. 

Aprenderam na pele as injustiças de um povo que não sabe dividir. Lembraram daquele outro moleque, o do Beco do Rato, aquele que as mães alertavam para evitar. O moleque faz uns corres, comprou tênis, anda com lupa no rosto e celular no bolso. Mas, principalmente, agora ajuda a colocar comida em casa. Faz a vida "ganhando" pertences de donos distraídos.

— E se a gente ganhasse também?

Pensaram.

Pensaram nas mães. Mulheres que se matam de trabalhar para pôr comida na mesa. Mas, vez ou outra, falta.

— E se?

— Pois é, e se?

— Só hoje.

— Só hoje!

O diabo tenta porque não se aguenta. E eles tentaram. Ganharam o celular de um almofadinha.

Perdeu! Anunciaram.

Olha, vou te contar, eu nunca vi policial de asa. Mas, dessa vez, eles caíram do céu. Todos fardados, armados, prontos para a guerra.

Corre, porra! Corre!

Correram. Desembestados. Um para um lado, outro para outro. Um deles, mais esperto, logo se misturou na multidão. Mas um qualquer perdeu a corrida. E, como já disse, polícia-e-ladrão a valer. Agora, não vai mais correr. Nunca mais.

Disseram: "um qualquer morto no chão". Mas não era só um qualquer. Era o Qualquer.

Um erro. Uma porrada de tiros. E o fim.


Dinheiro real
Made in Hell.

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