Maria-Cemitério
Tudo começou no florescer de sua juventude. O que parecia um sábado qualquer foi abruptamente interrompido pelo grito choroso de sua mãe: a família acabara de perder sua representante mais velha. Cento e dois anos vividos à base de caipirinhas diárias — desde os 12 anos de idade. Eis o segredo para uma vida longa e feliz. O falecimento da centenária marcou o debuto de Maria, nossa heroína, nos velórios. O primeiro de muitos. Era o início de uma vida dedicada a celebrar as mortes e os mortos — um hábito difícil de compreender para aqueles que, digamos, a sociedade considera normais. Mas, convenhamos: quem é realmente normal nesta sociedade louca e cheia de manias?
Maria acompanhou tudo de perto, como se estivesse em um camarote. Observou as pessoas darem o último adeus à sua bisavó. Algumas choravam; outras compartilhavam histórias antigas sobre a defunta. E lá estava a bisavó, repousando imóvel, com um leve sorriso no rosto, como se sonhasse tranquila com verdes campos. Maria seguiu o cortejo no carro de um de seus tios e, ao chegar ao cemitério, surpreendeu-se com a quantidade e variedade de túmulos. Alguns eram simples; outros, luxuosos. Havia cruzes, crucifixos, bustos, estátuas de anjos, santos e até de pessoas. Ela olhou ao redor e sentiu uma paz inédita, como se estivesse em casa — como se tivesse voltado ao útero de sua mãe.
Após a morte da bisavó, Maria começou, por conta própria, a frequentar o cemitério em todos os dias santos — e também nos profanos. Você pode até pensar que a saudade fosse sua motivação, e isso até faria sentido. Afinal, bisneta e bisavó tinham uma relação muito amorosa, tanto que a velha deixou seu pé de meia como herança para Maria. Mas não era isso. Maria não ia ao cemitério para visitar a bisavó. Não. Maria havia se viciado em eventos fúnebres.
Sério! Ela acompanhava tudo: a maquiagem do defunto, o velório, o cortejo e o enterro. Só não era fã do feriado de finados ou de funerais de famosos — grandes aglomerações de vivos nunca foram seu forte. Fora isso, Maria estava sempre presente no campo-santo, independente de quem tivesse morrido, como ou onde. Lá estava ela, cantando "Ao findar o labor dessa vida", pegando carona no carro funerário e consolando familiares da pessoa defunta. Para Maria, aquilo não era trabalho — até porque serviço de graça não é serviço. Era passatempo. Quanto mais frequentava, mais precisava. O cemitério era sua droga, sua fonte de felicidade.
Com o tempo, a vizinhança começou a chamá-la de Maria-Cemitério. E, surpreendentemente, ela adorou. Onde já se viu? Maria-Cemitério!
Aos 15 anos, Maria fez amizade com um grupo de jovens que curtia coisas sombrias: Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo e afins. Ela se identificou com eles, e eles com ela, embora Maria fosse, sem dúvidas, a mais excêntrica do grupo de esquisitões. Todas as noites, essa turma se reunia no cemitério para tomar vinho barato — daqueles aramzenados em garrafa plástica —, recitar textos macabros e contar histórias de terror. Histórias tão pesadas que faziam Edgar Allan Poe parecer um iniciante. Eles chamavam o encontro de Sarau da Meia-Noite.
Aos 17 anos, Maria foi diagnosticada com uma grave tuberculose. No início, ela chegou a gostar da ideia de morrer como seu grande ídolo, Augusto dos Anjos. Mas havia um problema: Maria tinha planos detalhados para o seu próprio evento fúnebre e sabia que, se morresse cedo, não conseguiria realizá-los.
Seria esse o fim trágico de nossa heroína? Ou será que ela conseguiria o enterro dos seus sonhos? Essas são respostas que você só terá nos próximos capítulos. Não! Espere! Não tem próximos capítulos. Basta continuar lendo e você saberá qual o desfecho da história de Maria.
Maria lutou contra a tuberculose como nunca havia lutado antes — e venceu. Recuperada, decidiu trabalhar duro para garantir que seus planos funerários fossem realizados. Com a herança deixada pela bisavó, comprou um pedaço de terra no cemitério da cidade e começou a construir seu próprio mausoléu. Espaçoso, gótico, exatamente como ela sonhara. Comprou um caixão de mogno, o mais caro da funerária. Aliás, ela chegou a trabalhar na própria funerária para juntar dinheiro e continuar a obra. Não é surpresa que fosse a funcionária mais dedicada, hors concours no prêmio de Funcionária do Mês.
Após dez anos de muito esforço, sua morada eterna estava pronta. Faltava apenas a moradora. Na noite da inauguração, Maria organizou uma festa para os amigos de longa data do cemitério. Relembraram histórias da juventude e dos tempos do Sarau da Meia-Noite. Quando o dia amanheceu, os convidados foram embora, e Maria ficou para arrumar a bagunça.
Exausta, decidiu deitar no caixão para descansar. Era tão confortável — mil vezes melhor do que sua velha cama. Foi a melhor noite de sono de sua vida. O ambiente era tranquilo, sossegado e, de quebra, perto do trabalho. Nos dias seguintes, Maria percebeu que aquele era o lugar onde queria estar. Instalou um chuveiro, gás e mudou-se definitivamente para seu mausoléu.
Assim, Maria-Cemitério adotou de vez o apelido. Antes mesmo de morrer, já habitava sua morada final. Lá viveu, lá descansou, e lá permanecerá por toda a eternidade.
| Campo Santo. |
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