O dia em que a morte saiu de férias

Apresentação

O desejo precede o pecado. O pecado precede a culpa. A culpa precede a penitência. A penitência precede a morte. E a morte é o fim. Clichê, não é mesmo? Mas, do que são feitas as boas histórias senão de sequências — nem sempre compostas de fatos — clichês? A receita é simples. Era uma vez um mocinho e um vilão. O mocinho é pudico e o vilão não tem escrúpulos. O mocinho queria seguir com sua tediosa vida — o cotidiano é sinônimo de tédio. O vilão tem asco ao tédio. Os caminhos do vilão e do mocinho se cruzam. Apesar de antagônicos, mocinho e vilão se tornam um só, a existência de um passa a ser dependente da existência do outro. No entanto, nas cabeças do mocinho e do vilão não há espaço no mundo para antagônicos. Mocinho e vilão precisam duelar. O vilão arma um plano para acabar com a vida do mocinho e com tudo o que ele ama. O vilão coloca em prática o seu plano maligno. A vida do mocinho parece ruir, mas o vilão tem um ego enorme e um incontrolável desejo de preenchê-lo. Querendo demonstrar a sua genialidade, o vilão gasta preciosos minutos, às vezes segundos, explicando o seu diabólico plano antes de finalizá-lo. O vilão dá tempo ao mocinho, quase derrotado, de se salvar e de salvar aos seus. O mocinho derrota o vilão. Como recompensa pelos atos heroicos, o mocinho ganha um beijo de sua querida, e linda, e amada donzela. Mocinho e donzela vivem felizes para sempre. E esse é o fim. A menos que a história dê lucro. Se for esse o caso, talvez surja uma sequência com um novo vilão, ainda mais desafiador, mas que segue o mesmo roteiro que acabei de narrar. Viu? Clichê! Eu disse. No entanto, existe um porém nessa receita de sucesso — pelo menos para mim. Eu nunca me senti pertencente às, consideradas, boas histórias. Donzela? Eu? Sempre me enojei dos príncipes encantados. Sempre procurei as motivações dos vilões, seus traumas e suas confusões. Ninguém é bom e ninguém é mal ao acaso. E ninguém é sempre bom e sempre mal. Por não ser, exatamente o que a maioria da sociedade espera de uma garota — na verdade, nenhum um pouco parecida com o que a sociedade espera de uma garota —, minha vida sempre foi um verdadeiro inferno na Terra. Nunca tive um lugar para chamar de meu. Nunca tive amigos. Nunca tive amores. Motivação? Já ouvi falar, mas, para ser sincera, não faz parte do meu dicionário. E, confesso, estou farta dessa merda de mundo solitário e repleto de gente escrota. Talvez essa gente escrota seja a mazela do mundo. Talvez. Independente, de mazelas já bastam as minhas. A minha história pode até ter começado de maneira clichê, mas ela não pode, de forma alguma, terminar de maneira clichê. Aqui a minha história começa, aqui ela termina. 

Adeus mundo cruel! Clichê, não é mesmo?


A grande frustração

Não! Não é possível! Meu nome e função são antônimos. Não é possível! De pecados estou cheia. Isso nunca me foi um problema. Tentei o maior deles. O inverno passou e adivinha quem voltou? Ou melhor, quem persistiu. O inferno que é a minha vida! Que fique registrado nestas linhas: não foi por falta de coragem. Muito menos por falta de vontade. Cansada de sofrer, cansada das pessoas, cansada do mundo. Enfim, cansada. Resolvi dar fim ao meu cansaço. Navalhei os pulsos e sangrei, e sangrei, e sangrei [...], sangrei até [...] até continuar viva. Sem metáforas, sangrei até não poder mais, e continuo viva. Sim! Cá estou, com os pulsos cortados, sem qualquer gota de sangue para correr em minhas veias e escrevendo o meu relato. Eu sei. É surreal! Eu sei. Eu só queria descansar, ter uma eternidade de paz, mas, não! Nem disso sou capaz. Nem a Morte me deseja. A Morte olhou nos meus olhos e disse: não! Um ato que tinha tudo para ser fatal, que deveria ter sido fatal, mas não foi. Manobra divina? Genética? Não, nada disso. O crédito é único e exclusivo da Morte. Isso mesmo, da Morte. A ceifadora. Assim como eu, a Morte estava cansada. Cansada de sofrer, cansada das pessoas, cansada do mundo. A Morte resolveu tirar umas férias — e por tempo indeterminado. 


Desvendando a dinâmica populacional humana

Agora, um pouco de matemática. Sempre tive uma quedinha pelos números, mas eles nunca me corresponderam muito. Para você, cujo interesse é único e exclusivo em saber o que diabos aconteceu comigo, solicito um pouco de paciência, mas entender os impactos das férias da morte, ao menos, sobre a população humana me ajudou a antever um futuro sombrio. Isso porque eu desisti de tentar entender como um corpo humano consegue sobreviver sem uma gota de sangue circulando em suas veias. Imagina só! Imaginou? Pois é! Esse corpo sou eu. Mas, voltando a demografia. Digamos que a população humana seja cerca de 8 bilhões de pessoas. Ao longo de um tempo, nascerá um bocado de pessoas e morrerá outro bocado. Certo? Certo! Após esse tempo, a população humana será de 8 bilhões de pessoas, somada ao bocado de pessoas que nasceu e decrescida do bocado de pessoas que morreu. Sendo assim, caso o bocado de pessoas nascidas seja maior que o bocado de pessoas mortas, a população aumentará. Do contrário, a população diminuirá. Claro, partindo do pressuposto de que a Morte não tira férias.


E se, por um acaso, não morrer ninguém?

Mas, agora imaginemos outro cenário. Vamos-lhe. Nasce um bocado de pessoas, e não morre ninguém. Nasce mais um bocado de pessoas, e não morre ninguém. E assim segue, por uma hora, por duas horas, por três horas, […] por 12 horas. Isso mesmo, 12 horas sem nenhum óbito. Nenhum óbito! Eu não tenho o costume de acompanhar dados de obituários pelo mundo afora para saber quantas pessoas morrem por hora, mas, não acredito que 12 horas sem nenhum óbito seja algo corriqueiro. E, muito provavelmente, o resto do mundo também não. Bastaram um pouco menos de 12 horas sem nenhum óbito para a história das férias da Morte virar um burburinho geral. Pela primeira vez na história, o Plantão da Globo não está anunciando uma morte, mas a falta de mortes.


Dia um

Ninguém quer saber quem matou Odete Almeida Roitman. Verdade é, coveiro passa fome durante as férias da Morte. E, para não falarem que eu não falei em morte, no mundo não se fala de outro assunto. Depois de um dia inteiro sem nenhuma morte, não há Caetano Veloso estacionando seu veículo automotor no Leblon que tome as manchetes e os noticiários — e não tinha como ser diferente. De um lado, cientistas arrancando os seus cabelos e tentando encontrar uma resposta plausível para explicar toda essa situação maluca. Do outro, religiosos se dividem naqueles que acreditam que a falta de mortes é o sinal do apocalipse, e naqueles que acreditam que estamos vivenciando o início de uma nova era de paz e luz. Também tem um bando de astrólogos e profetas aproveitadores que invadiram os canais de televisão para encher o povo com asneiras. E eu, aqui, querendo morrer em paz, continuo vivinha da Silva. Segundo o enfermeiro plantonista aqui do hospital onde estou internada, sair às ruas virou um deus nos acuda. Paciência, nunca fui muito fã de sair de casa e, honestamente, o hospital parece o meu lar agora. Quem te viu, quem te vê! Ou seria quem me viu, quem me vê? Tanto faz! O relato é meu.


Desconfiança inicial

Nas primeiras horas após a descoberta, as pessoas acompanhavam as férias da Morte com desconfiança. Afinal, não é sempre que se vê um total de zero óbitos nos registros de todo o mundo. Nem câncer, nem cólera, nem diarreia, nem engasgo, nem mesmo um russo que estourou os seus miolos com uma arma calibre 12, só para comprovar se a história das férias da Morte era verdadeira. Nada! Absolutamente nada disso foi capaz de fazer alguém descansar em paz. Tudo bem que o tal do russo virou um zumbi e agora vive a vagar pelas ruas sem grande parte da cabeça, mas imagina só, nem mesmo um tirambaço desse conseguiu matar uma pessoa. E quanto mais provas das férias da Morte tem aparecido, mais a desconfiança das pessoas tem dado lugar a um certo êxtase. Pouco a pouco as pessoas estão se acostumando com a ideia da vida eterna. Na verdade, não só se acostumando, mas adorando. 


O grande carnaval

Bastaram, cerca de, 72 horas sem nenhum óbito — e algumas tentativas de assassinatos fracassadas — para o mundo se transformar em um grande carnaval. O globo terrestre virou uma grande Salvador. Concretizada a profecia do sábio pensador: “we are the world of carnaval”. Agora, “we are all Bahia”. Mas, confesso, continuo preferindo o sossego. As pessoas invadiram as ruas e estão celebrando como se não houvesse amanhã. Quem é de droga se droga, quem é de bebida se embebeda e quem não é de nada disso, passou a ser. Afinal, não é todo dia que se descobre a imortalidade. Confetes e serpentinas para uma população que desfila em unidade. Não existe mais o feio e nem o bonito, não existe mais o certo e nem o errado, não existe mais o bom e nem o mau, só existe o carnaval. Limite virou coisa do passado; de um tempo, não tão remoto, onde ainda se morria. Mas, deixo um pós-escrito: é impressão minha ou o hospital está cada vez mais cheio? Impressão? Só sendo besta mesmo! Tem gente dormindo no chão! As geringonças não estão funcionando direito. Os sistemas estão caóticos. Estou cercada por zumbis. Ok! Não são zumbis, nao estão atrás de cérebros. Mas, que se parecem com zumbis, se parecem. 


Do carnaval ao caos

Nunca, em toda a sua história, a humanidade festejou tanto e por tanto tempo seguido. Mas, tudo o que é bom dura pouco. Gradualmente a alegria carnavalesca tem dado espaço ao caos carnavalesco. A falta de mortes expôs ossos mal enterrados pela sociedade. Velhos questionamentos mal resolvidos voltaram à tona. Dessa vez, com força total. Desigualdades e preconceitos expostos em um cenário agravante de um mundo de cabeça para baixo. Serviços essenciais já não funcionavam mais. Supermercados e lojas saqueados, casas invadidas. O medo me consome. Não é medo de morrer, é claro! Na verdade, não sei do que tenho medo, mas, sei que tenho. Acho que é medo de viver. O hospital foi invadido e tomado de assalto. Graças a uma enfermeira corajosa, conseguimos nos esconder em uma pequena ala do hospital isolada para uma reforma. Por ora, temos comida e água, mas tão pouco que não deve ser suficiente para uma refeição. Eu não sei o que seria de mim sem essa enfermeira. E eu nem sei o seu nome. Preciso perguntar. Encontrei um anjo em meio a esse inferno. Para qualquer lugar onde a vista bate, o que se vê é: fogo, destruição e miséria. Ouvi dizer que tem muita gente vivendo nas ruas. Agora, de vez, posso chamar o hospital de casa e os funcionários e pacientes de família. Estamos revezando na vigilância de nosso esconderijo. Acho que nem os cenários de guerras conseguem ser tão horríveis assim. Apenas quatro dias após o último óbito registrado e já estamos vivendo um caos generalizado. Descobrimos da pior forma possível que ser imortal não significa ser indestrutível. O mundo vive um apocalipse de zumbis imortais. 


Nunca diga que não tem como piorar

Cinco dias sem a Morte dar o ar de sua graça e eu, juro, gostaria de dizer que estamos vivendo como animais selvagens, mas seria injusto com os animais selvagens. Perdemos o medo da morte, mas ganhamos o medo da vida. Hoje tivemos que deixar o nosso abrigo para conseguir comida. Apesar de não corrermos o risco de morrer pela falta de alimento, a fome foi a pior dor que já senti em toda a minha vida. Sair do esconderijo, pelo menos por algumas horas, foi a nossa única opção para conseguirmos alimento. A aventura requisitou uma estratégia de guerra. Tivemos sorte, talvez de principiantes, mas tivemos sorte. Ninguém se feriu e conseguimos o nosso jantar. Um belo pombo gordo assado. Mas nem mesmo a euforia do banquete conseguiu me acalmar. Eu não consigo parar de chorar. Eu não consigo esquecer o que meus olhos viram. Juro! Pessoas cometendo canibalismo em plena luz do dia. Gangues atacando, sem piedade, as pessoas mais fragilizadas e descuidadas, arrancando os seus membros para saciarem a fome. Que ânsia! Se eu tinha medo da humanidade antes de tentar suicídio, imagina agora? A palavra limite se perdeu na confusão do carnaval e nunca mais foi vista. 


Santa Morte

O desespero tomou conta de todos. Seis dias de caos e as pessoas esqueceram de seus deuses, de suas entidades e de suas crenças. Passaram a cultuar, única e exclusivamente, a Morte. A Grande Morte! Só ela pode nos salvar. Pregadores e profetas prometem a sua volta. Em suas preces, os mais debilitados clamam pela visita da Morte. A vida eterna perdeu a graça e agora vivemos o inferno na Terra. Não existem mais fronteiras, não existem mais cidades, o dinheiro virou um pedaço de papel inútil, e muitos outros sonhos antigos da humanidade se tornaram realidade, mas o resultado não saiu como esperávamos. Não é o mundo de paz e irmandade que Lennon havia imaginado. Talvez a culpa seja da fé. Vai saber?


Há esperança

Uma semana sem ver a cara da Morte e o mundo segue caótico. Porém, a esperança acaba de ser renovada. Um homem, de uns 40 e tantos anos, mas que as marcas do carnaval o deixaram com a aparência de bem mais velho, andava — na verdade, se arrastava — com a sua família em um beco sujo à procura de alimento. Sua filha foi revistar uma armadilha que eles haviam montado para tentar caçar alguns ratos para o desjejum. A armadilha fora ativada e dentro dela havia um enorme gabiru. Feliz, a jovem se virou para anunciar as novas. Avistou a família e tomou um enorme susto. Seu pai estava desacordo, caído no chão. Preocupada, a jovem deu um grito e correu até ele para ver o que havia acontecido. Se aproximou e, com grande estranheza, checou os seus sinais vitais. Ele não respirava e também não tinha pulsação. Tentou reanimá-lo, sem sucesso. Ele estava morto. 


Poucos minutos após a volta da Morte 

A família do recém-morto saiu pelas ruas, aos berros, anunciando a volta da morte. Uma multidão de curiosos, incluindo eu, se aglomerou no beco para ver o defunto. O povo foi tomado por uma comoção inacreditável. Sim! A morte está de volta. Alguns disseram que sentiram a sua presença no local. Outros disseram que a viram. Eu não senti nada. Também não vi nada. Apenas um velho deitado no chão, como se estivesse dormindo. No beco, os espectadores ao meu lado começaram a chorar, se abraçaram e celebraram em harmonia a volta da Morte. Confesso, não sei o que está passando em minha cabeça agora. Não consigo tirar a imagem daquele velho morto de dentro dela. Nunca senti tanta inveja de alguém como estou sentindo daquele velho. Como eu queria estar em seu lugar!


A volta da Morte 

Tão breve a morte do pobre homem deixou de ser novidade; tão breve as pessoas mais debilitadas, doentes e gravemente feridas começaram a cair, uma a uma, mortas pelas ruas. A Morte, de fato, voltou e começou a cobrar o preço de atos inconsequentes tomados pelas pessoas durante a sua ausência e, é claro, tirando o atraso gerado pelas suas férias. Ela está de volta e com força total. Agora revigorada, cultuada, idolatrada e respeitada. O óbito passou a ser celebrado como uma dádiva alcançada. Um presente da Morte. Quanto a mim, continuo aqui, vivendo, até o dia em que a Morte resolver me visitar, para que eu finalmente possa descansar em paz. Costumo pensar que sigo viva porque a Morte gosta de mim, compartilhamos o mesmo cansaço de outrora. Valorizo tanto a Morte, que provavelmente ela está guardando a melhor para mim. Quiçá, eu possa até chamá-la de amiga. Quanto aos cortes nos meus pulsos, ainda estão abertos e sigo sem uma gota de sangue correndo em minhas veias. Vai entender? Eu deveria estar morta, talvez esteja. Mas, enquanto ainda não tenho certeza, vida que segue.

Caveira óculos morte
A morte.

P.S.: Se até a Morte pode entrar de férias, por que não eu? Até breve!

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