A saideira de um bêbado chato é sagrada

Antes de mais nada, tudo! Eu sei que as mesas empilhadas representam para a clientela o luto, mas, no bar, boca seca é pecado; e eu não quero ir contra as doutrinas da minha igreja. Sendo assim, caro garçom, a saideira, por favor. Aquela que o dono do bar escondeu no fundo do freezer para se empunhetar após o fechar das portas do estabelecimento.

Entendo que o expediente deixou o teu velho saco de estopa no chão. É notável! Você estapearia um boi bravo para pegar o trilho de casa, tirar essas botinas velhas, tomar um bom banho e se espreguiçar em uma cama confortável. Mas não precisa fazer essa cara de quem comeu e não gostou. Não estou pedindo nada de mais, apenas a saideira.

Também sei que esta é a terceira, ou a quarta, saideira que lhe rogo. Fazer o quê? Toda saideira perde o posto no exato momento em que outra saideira é solicitada. Fato de tanto faz, eu sei! Mas colabore! Lá fora está caindo o mundo, nada melhor do que um pé-d'água para legitimar mais uma cerveja.

Para piorar — ou melhorar, há de se afirmar, dependendo do ponto de vista — aqui dentro está um calor dos infernos. Parece que o próprio Sete-Pele é assíduo deste bar. Justamente por isso, por favor, conceda o desejo desse pobre demônio que vos fala.

Repare! É a combinação perfeita das escusas. Se a chuva me aprisiona neste lugar quente e cheio de cerveja, o que me resta é molhar a goela. Afinal, para isso serve um bar! O bar é o hospital dos beberrões, lar dos desatinados e dos inconformados. No bar surgiram, e surgem, as revoluções. No bar nascem os heróis. Faça como Jesus! Compartilhe o vinho — quero deixar clara minha predileção por cerveja, mas, por favor, não me deixe a ver navios. Gargalhemos das mazelas e tornemos o inferno um lugar agradável. Vamos, homem! Me acompanhe em um copo. Puxe uma cadeira e acomode suas ancas. Asseguro: desta saideira não passará — ou, no máximo, da próxima.

Confesso que entendo o seu aborrecimento. Particularmente, sou daqueles que acreditam que a gorjeta deva crescer exponencialmente em relação à chatice do bêbado — e eu, chato confesso e de carteirinha, prometo generosidade. Contudo, também pressuponho perda de tempo de sua parte me negar um último gole. Você não sabe o quanto é difícil acompanhar a cabeça de um ébrio ainda consciente? Pouco importa se você quer manter a sanidade julgando minha loucura. Mas, cá entre nós, antes seco da chuva e encharcado de suor do que encharcado da chuva e sóbrio. Na verdade, a sobriedade nem deveria ser uma opção. Há um consenso entre a sanidade que me resta e a sede que me sobra: qualquer desculpa é desculpa para tomar mais uma. Logo, não me restam opções a não ser beber aquela saideira que te pedi. Fazer o quê? A boemia me veio de herança.

Basta! Cansei de cansá-lo. Gastarei o meu zap. Hoje, justamente hoje, é o meu último dia de férias. Faltam poucas horas para o meu retorno à labuta diária. A repartição me aguarda, e vejo como uma ofensa chegar sem olheiras no meu primeiro dia pós-férias. Quero aproveitar essas últimas horas como se não houvesse amanhã. Você não pode negar o pedido de um pobre assalariado prestes a retomar sua ingrata rotina. A saideira de um pobre miserável que daqui a pouco será engolido pelas tribulações de suas obrigações. Ninguém pode ser tão pestilento assim. Tenha compaixão desse miserável que, de garganta seca e olhos marejados, implora por um último gole.

Ah, meu camarada! Obrigado! Muitíssimo obrigado, caro amigo garçom! Eu tinha certeza de que seu coração não era feito de pedra. Não há espaço para corações de pedra em bodegas. Brindemos! Vamos! Ao melhor garçom do mundo! O mais generoso, o mais compreensível, o farmacêutico dos boêmios, o terapeuta dos ébrios! Um grande viva. Viva!

Mas, sem querer abusar de sua boa vontade, não sei se reparou, a cerveja que você me trouxe parecia furada e já acabou. Com o rosto ruborizado, só me resta pedir outro favor. Asseguro-lhe: não é nada de mais. Seria possível, por obséquio, me trazer a saideira? Apenas para arredondar a conta.


Bar cerveja
Uma saideira.

Comentários

  1. Muito bom! Saudade de ficar chata nesse nível. Kkkkkkkkk

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nem me fala!!! Mas acho que os garçons não sentem nossa falta. Kkkkk

      Excluir
  2. Gostei Vaguinho. Só tem um senão:
    Bêbado chato é muito chato mesmo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu pai! Mas agora fiquei pensando. Será que todo bêbado é chato ou só os chatos são bêbados chato?

      Excluir
    2. Pois é! A minha hipótese: a bebida potencializa a chatice.

      Excluir
  3. Muito bom kkkkkk será q ele ainda aguenta mais uma saideira?

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Nem se o destino tivesse aprontado

O rapaz que era apaixonado pela estrela D'alva

Círculo de fogo