Doze horas para daqui a pouco

Era uma noite quente de verão. Os ponteiros do relógio indicavam: faltavam apenas dois minutos para as 22 horas e 49 minutos. Sim! Apenas dois minutos para as 22 horas e 49 minutos. O que isso significa? Nada! Absolutamente nada! Mas faltavam dois minutos para as 22 horas e 49 minutos. 

O calor da estação, o calor do instante, o calor do quarto. Um calor infernal. A cama de casal parecia um colchonete para os pombinhos que dividiam aquilo que costumava ser um ninho de amor, mas que, naquela hora, servia apenas para ele destilar o ronco ébrio de um dia de bebedeira; e, para ela, a peleja de encontrar uma posição, uma maldita posição, que desse fim à sua maldita insônia. 

E a merda do ronco não parava. E a merda do calor não passava. Nenhum ventilador conseguiria cumprir tal façanha. E nenhum protetor auricular conseguiria abafar aquele ronco desgraçado. A mulher, exausta pela labuta diária, e o filho da puta bêbado dormindo tranquilo — tranquilo como uma maria-fumaça velha diligenciando a todo vapor.

Sem impedimentos, o tempo progrediu em seu trabalho de passar, mas os ponteiros do relógio ainda marcavam a mesma hora: faltavam dois minutos para as 22 horas e 49 minutos. A vantagem de ter um relógio de ponteiros que não funciona é que toda hora é meio-dia para daqui a pouco, e meio-dia para daqui a pouco é hora de fazer o que lhe der na telha. 

Na telha da mulher só dava o desejo de dormir, mas seus olhos não se pregavam nem por um diabo. Quanto tempo naquela ingrata tarefa? Quanto tempo rolando naquela cama? Quantos minutos perdidos sem conseguir descansar e, coincidentemente, sem fazer porra nenhuma? Ou seriam horas?

— Tanta coisa para fazer amanhã! Ou será que amanhã já é hoje? Será? Puta que o pariu!

As dúvidas, somadas ao calor e à insônia, fizeram a mulher cerrar os punhos e desejar arrancar os seus cabelos. Ela tentou gritar, mas sua voz não saiu. Restou-lhe a fúria expressa como em um velho filme mudo. A fúria de um corpo implorando por um pouquinho de sossego. Nada mais do que sossego. O grito emoldurado não sepultou a angústia da mulher. Era como se faltasse algo, e de fato faltava, mas logo deixaria de faltar. Novamente a fúria foi extravasada, dessa vez em sangue-frio.

— Deus há de pensar no amanhã. Agora eu só preciso dormir. Deus há de pensar no amanhã!

O sangue-frio da mulher esfriou o corpo quente — e ruidoso — que estava ao seu lado. Um travesseiro para calar o ronco lateral. Ela o segurou firme. Segurou com uma força que nem a própria executora da força sabia possuir. A ele restou a falta de ar, os olhos esbugalhados escondidos por detrás de um travesseiro macio. Acordou, mas logo voltou a dormir, agora em silêncio. Sem ronco, sem dar ao menos um pio. Emudecido e estatelado. Um coração que nunca mais baterá. Finalmente em paz. A ele e a ela, finalmente paz. 

O silêncio da noite tomou o quarto. Como um milagre, a chuva começou a cair e deu trégua ao calor. Os ponteiros do relógio ainda indicavam a mesma hora: faltavam apenas dois minutos para as 22 horas e 49 minutos. Finalmente em paz.

— Boa noite, amor! Durma com os anjos.


Relógio
Vinte e duas horas e 47 minutos.

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