A desgraça que Josué cativou

É, Josué! Nem Francisco, o cientista, imaginaria tamanha desgraça. Os pés — no plural — foram às nádegas como vão às bolas de futebol. 

E sem esse papo furado de que avisos lhe faltaram. Por favor! Eu disse e redisse tanto que o alerta virou pleonasmo. E, por falar em pleonasmo, a abundância foi boa até que as gavetas não comportassem mais as calcinhas. Foi o caso. Cessou o espaço. 

Também não me venha com essa história da carochinha de que — como você mesmo diz — um rabo de saia acabou com o teu casamento. Que na hora H, no ápice do romance, o bambolê anelar houve de teimar em escapulir do bolso da calça. A falha foi tua, Josué! Os anéis pertencem aos dedos. 

Na empolgação do romance, exagerou na força da retirada das vestes, e a aliança escapuliu do bolso. Atravessou o quarto, de uma ponta à outra, bateu na parede, e um leve tilintar quebrou o silêncio dos amassos quentes. Quicou no chão ecoando em outro leve tilintar, mas não leve o suficiente para passar despercebido. 

Até tentaste negar. Insistiu. Negou até não poder mais. 

— Barulho? Que barulho? Disseste. 

Negou até a origem do barulho ser encontrada. Não havia mais como negar. O “rabo de saia” descobriu que já havias feito o teu pé de meia em outras bandas, com outro “rabo de saia”.

— Desapareça daqui, Josué! Entrou rasgando pelos teus ouvidos.

— Posso explicar. Tentaste retrucar. 

Mas não podia. Como explicar o óbvio, Josué? Estava mais na cara do que nariz. A aliança estava no lugar errado e na hora errada. 

Emputecida — como gostas de dizer — a filial foi atrás da matriz. Encontrou. E para aquele que ostentava dois amores, restou duas inimigas. Duas inimigas tuas que se aliaram. Para piorar, o bestão caiu na história do ménage. Só sendo besta mesmo. Supôs que o teu falo era doce. Supôs errado. Doce é o gosto da vingança de mulheres traídas. 

Pensando bem, é engraçado como a vingança pode ter sabores diferentes para pessoas diferentes. Para paladares distraídos, como o teu, o sabor estava mais para o amargo. 

Abandonado em um quarto de motel — o mais caro da cidade —, algemado na cama, quase nu, e dois "rabos de saia" rindo da tua cara de otário. O fetiche saiu pela culatra. Te largaram lá, de viagra tomado. Pior! Precisava daquela tanguinha de elefante? Agora todo mundo sabe, Josué. 

Josué! Josué! Por quê, Josué? Perdeu a mulher, perdeu a amante e perdeu a dignidade. Mas fica aquela máxima: vão-se os anéis, ficam-se os dedos. E é o que te resta, chupar dedos.


Elefante
O elefante.


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