Eusseia
São quase cinco horas da manhã. Os sabiás já quebraram o silêncio da madrugada. Há vida do lado de fora. Em breve será a vez dos bem-te-vis entregarem a localização dos cristos que já, ou ainda, perambulam pelas ruas. Bem-te-vis acordam cedo, mas não tão cedo quanto os sabiás. Os sabiás são os pássaros da alvorada. Iguais a eles, apenas alguns pobres assalariados que zumbisantes se arrastam aos seus ofícios em dias de feira. Quanto a mim, meus olhos estão abertos, mas é o mesmo que não estivessem. Óbvio! Não há luz no cômodo, e as cortinas continuam fechadas.
Nada vejo. Muito sinto. Tateio o quarto até encontrar a caixa de fósforo. Pronto. Risco o fósforo, queimo o mineral e, com muito cuidado para não apagá-lo, acendo o velho lampião. Como o divino digo: que haja luz! Nada! Continuo sem ver nada. O pavio está queimando. Os raios saem da chama do lampião, batem nas superfícies dos objetos, parte dos raios são absorvidos pelos objetos e a outra parte dos raios é refletida. Os raios refletidos pelos objetos ultrapassam as minhas córneas, batem em minha retina, a imagem é formada e enviada ao meu cérebro. De nada adianta. Não enxergo bulhufas.
Tudo na mesma não tão boa e nem tão velha escuridão de minha alma. O tempo segue e eu mal sei se é dia ou noite. Confesso, já não faz tanta diferença assim. Apesar de meu estado opioide, meus sentimentos estão a flor da pele; e meus sentimentos me assombram. Paciência! Sentimentos são para sentir. E eu sinto. Sinto e expresso. Os sentimentos transbordam os orifícios do meu corpo e saem como candidatos a herdeiros despejados em um ralo imundo após uma punheta mal batida que me deixou com remorso.
Mais uma vez tateio o quarto, agora atrás de meus vícios. Encontro o meu tabaco, o papel para liar, o fósforo. Enrolo um cigarro, acendo, fumo o cigarro como se fosse o meu último, mesmo sabendo que daqui a poucos minutos irei atrás de outro. Tateio a mesa de cabeceira atrás de uma garrafa. Encontro a garrafa. Sigo nos meus vícios. Pego a garrafa, a destampo, e a levo até a minha boca. Dou uma talagada no conhaque velho de marca barata e, após o gole, taco a garrafa na parede. A garrafa se espatifa. Eu senti, e eu expressei.
Expressei, e me expresso. Expresso com a sutileza de um estouro de uma boiada. Expresso como não se deve expressar. Sinceramente, acho melhor você não entrar agora. Está escuro aqui dentro. Na verdade, acho melhor sair de perto. Também está escuro onde me cerca. Lá, bem longe, até onde a minha vista não alcança, tudo isso é escuridão.
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| Sabiá. |

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