Rubro riacho
ATENÇÃO: conteúdo delicado.
Uma mão no pau tentando segurar o mijo, e a outra mão na maçaneta tentando abrir a porta do banheiro. Uma, duas, três tentativas. A porta está fechada, é claro!
— Tem gente. Resmungo uma obviedade freudiana.
— Óbvio! Novamente resmungando. Sou um resmungão de mão-cheia.
Agora também sou um ateu orando para o mijo não explodir o meu pau e, de quebra, manter a minha calça limpa. Deus, Oxalá, ou seja lá a divindade que rege essa porra toda, há de interceder por mim! Enquanto aguardo a intervenção divina, que não creio, sapateio como se pisasse em asfalto quente esperando o diabo do banheiro vagar.
— Cerveja é foda! Digo, reflito e, tão breve, refuto.
— É foda, mas é bom para um caralho! Agora, sim, condiz com minhas crenças.
Escuto o barulho da descarga vindo do lado de dentro do banheiro. Em seguida, escuto o destrancar da porta e, finalmente, a vejo se abrindo. A vejo se abrir como um escravo hebreu assistindo ao instante em que Moisés abriu o mar vermelho para libertar o seu povo. Confesso, mal olhei para o meu messias. Foda-se! Meus objetivos, agora, são: mijar e aproveitar a minha Canaã. E Canaã de pobre dura pouco.
Entro no banheiro, tranco a porta, abro os botões e o zíper da bermuda, coloco o falo para fora da cueca e, aliviado, alivio a minha bexiga. Sim! Aliviado, alivio a bexiga. Neste instante de […] alívio, meus pensamentos estão pouco se fodendo para redundâncias. Solto o ar que estava trancafiado em meus pulmões durante o período de aperto e digo:
— Que alívio! Não caberia outra frase pronta.
Me sinto mais tranquilo por manter a dignidade intacta; mas, talvez, essa seja a única tranquilidade que ainda me resta. Sou um jovem velho cansado de ser — ponto final. Se é que ainda posso dizer que algo sou. Olho bem para todos os lados desse espaço que não deve ter mais do que 3 x 2,5 m. As paredes repletas de colagens de páginas de revistas com fotos de mulheres peladas. Musa disso, musa daquilo. Mulher fruta, legume e verdura; anos 70, 80, 90 e a diaba de quatro.
— Caralho! Como esse país gosta de proclamar musas. Penso com os meus botões ainda abertos.
Mulheres desejadas, objetificadas, exploradas, etc., as quais a grande maioria eu mal sei o nome; mas a boceta, a cor do mamilo, o tamanho da bunda, eu sei de cor. Mulheres que findaram — e iniciaram — a imaginação de gerações de moleques punheteiros em nome da diversão de uma sociedade machista, estampadas na parede do banheiro de um bar. É! Meu passado me condena. Homem, hétero, fruto dos anos 80, 90 — por aí —, não dava para sair boa coisa. E não saiu! Restou esse bosta cansado, assombrado por traumas e demônios do passado.
— Puta que o pariu! Que bosta! Que belíssima de uma bosta. Resmungo novamente. Eu disse que era um resmungão.
Sou um resmungão que não suporta mais o reflexo do espelho. Há uns anos este banheiro era o meu templo, a minha igreja. Nada melhor do que dar aquela mijada aliviante de bexiga apertada, tampada de cerveja até a boca, admirando uma bela de uma boceta. Ou melhor, admirando várias belas bocetas. Pensava! E talvez ainda pense. Sei lá? Mas agora sei que essa porra está errada. Pelo menos acho que está errada. Ou acho que sei. Independente, hoje essa porra deste banheiro me enoja — ou deveria. Ele é o símbolo daquele outro eu, ou outro eu qualquer, que abomino. Símbolo do que não quero mais ser — vivo.
Entre cagadas e mais cagadas, entre erros e desacertos, meu cansaço de bola-de-neve, já do tamanho do mundo, finalmente, vai parar de girar. Da vida não tiro mais leite. Que aqui seja a minha derradeira mijada. Neste maldito banheiro sujo.
— Maldito banheiro sujo!
Maldito banheiro sujo! Eu sabia que seria aqui, neste maldito banheiro sujo. Havia de ser aqui. Ou era, ou nunca seria, porra!
— Porra!
O fim de uma passagem de merda, de uma pessoa de merda, havia de ser em um lugar de merda — ou de se fazer merda. Havia de ser no banheiro daquilo que foi a minha segunda casa. Havia de ser no banheiro de um botequim pé sujo. Sim! Nasci em um hospital, mas, o meu fim não poderia ser em outro lugar senão em um bar. No hospital se nasce, e no bar eu morro.
Uma garrafa quebrada, um caco-de-vidro e um rasgo na veia para virar espectador de honra de minha própria morte sem honra. Nesta vidinha de bosta que tenho levado, a mim, honra não qualifica nem por um caralho. E é claro que um fulano bateria à porta para estragar o meu momento.
— Procura outro banheiro, porra! Tô cagando!
Onde eu estava? Sim! Voltando a vaca-fria, não qualifica nem por um caralho. Ou melhor, nem por uma boceta. Ela, sim, merecia a vida. Merecia a glória. Iluminante com o seu vivaz amarelo, ela me ensinou. Ela sabia o que eu ainda não sei. Aquilo que eu queria saber, ela me ensinava. E aquilo o que eu queria saber e ela não sabia, ela aprendia só para me ensinar. Minha professora de ciências da vida. Quanto a mim, sempre fui um preguiçoso. Um grandessíssimo filho da puta preguiçoso que recebeu os loros por odisseias fictícias conquistadas sem precisar tirar a bunda do lugar, sentado em trono de ouro.
— Basta! Pra mim, basta! Agora é com a física.
O tempo parado, como se dois e dois não fossem cinco. Acompanho o sangue que deixa de ser venoso, em um rubro riacho, e dessangra em um chão imundo. Gota após gota, o compasso da torneira samba em uma agoniante sintonia de ponteiro de relógio. Criando a expectativa do instante em que eles não mais baterão, deixando, enfim, o meu coração de ser surdo.
Que comecem os preparativos! Quero festa em meu velório. Se durante a vida não consegui dar alegrias, que, ao menos, assim seja em minha morte. Aproveitem o bar. Encham os copos, ergam-nos e brindem o início da ausência deste ser que falta não fará, mas que será lembrado pelo mais feliz, e ébrio, velório da história. Esta noite sou o anfitrião, é por minha conta. Aos que estão de plantão, desculpa o transtorno. Espero que também consigam aproveitar a festa.
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| Quadrado de Sator. |
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