Não é uma biografia
Ah, o foda-se! Expressãozinha tão pequenininha e, simultaneamente, tão vivaz!
Antigos relatos atribuem ao foda-se a gênese de diversos eventos históricos de nossa sociedade. Eventos históricos que incluem revoltas, revoluções e, até mesmo, guerras. A título de exemplificação, dizem as más línguas que coube a um singelo foda-se acender o pavio que explodiu a 1.ª Grande Guerra Mundial. Ao que tudo indica, o arquiduque Francisco Fernando da Áustria teve uma discussão acalorada com o nacionalista iugoslavo Gravilo Princep por conta de um desentendimento em relação ao resultado de uma partida de purrinha. Tal desentendimento encadeou em uma troca de ofensas e ameaças entre os oponentes. Percebendo que o acordo seria o mais improvável dos finais, o competidor austríaco proferiu a famigerada expressão em direção ao iugoslavo que, imediatamente — e sem entender o seu significado, mas sentindo toda a sua potência — perdeu a compostura e mortalmente alvejou o arquiduque austríaco.
Ok! Ok! Se você prestou um pouquinho de atenção nas aulas de história, sabe que não foi bem assim o estopim da 1.ª Guerra Mundial. Tudo bem! Eu confesso. A verdade é que, às vezes, não consigo conter a minha fértil imaginação e essas coisas — chamarei de coisas para não chamar de porcarias — acabam me escapulindo das ideias. É mais forte do que eu. E, para ser honesto, eu nem vim aqui contar a história do início da 1.ª Guerra Mundial. Estou me alongando, sem motivos, para contar a história de como o foda-se foi fundamental na vida de um rapaz que não se enquadrava nos padrões de beleza e comportamento impostos pela sociedade brasileira dos anos 80 e 90. Aproveito para deixar claro que qualquer semelhança entre a história que relatarei aqui e a história da minha vida é coincidência. Se necessário, posso até jurar — pensando bem, acho melhor não jurar. Dizem que juras são sagradas. De qualquer forma, nesta história, tudo não passa de ficção. Certo? Agora que está claro que esta não é a história da minha vida, deixemos de embromação e sigamos à história — que não é a da minha vida.
A história
Ele até que era uma criancinha bem-feitinha — bochechudinha, com uns cachinhos de invejar a qualquer querubim. Na escolinha, que na época se chamava maternal, e hoje eu já não sei mais como se chama, tudo corria bem. Tudo ia de vento em popa enquanto as habilidades requeridas ainda eram ligar o coelhinho até a cenoura riscando uma linha no papel com um lápis grafite, ilustrar o que havia feito no final de semana e brincar. Meu mundo. Ops! O mundo da personagem principal desta história era tão maravilhoso que ainda lhe sobrava tempo para tirar uma bela de uma soneca no meio da tarde. Ainda no jardim-de-infância, graduo-se mestre na arte da sonequinha da tarde e tirava de letra o bê-a-bá que lhe era ensinado exaustivamente.
Mas a vida é dura feito o pênis ereto de um adolescente gastando água enquanto finge tomar banho e alivia os seus desejos carnais em um ralo sujo. A vida faz de um tudo para tornar a estrada, como diria Paulo de Liverpool, Inglaterra, longa e sinuosa e, na grande maioria das vezes — e para a maioria dos meros mortais como eu e o protagonista da história, que não sou eu —, quase sempre consegue. Quebrou-se o único braço habilidoso que o pobre do menino possuía. Desse dia em diante, ele passou a viver com dois braços esquerdos. Como se não fosse o bastante, as atividades lúdicas do jardim-de-infância ficaram para trás e deram lugar à aritmética, às equações, aos verbos, aos sujeitos, aos predicados. Socorro! O que são predicados?
Com o advir da puberdade, como era de se esperar, as coisas pioraram ainda mais para o pobre — agora — rapaz. A adolescência o maltratou sem dó nem piedade. Desgraçado. Seu nariz, cuja combinação entre os genes de seus pais forjaram graúdo por si só, estava repleto de espinhas, e a comunhão das acnes lhe dava a impressão de ser maior que a própria face. Estampava, contra a própria vontade, um horrível bigodinho ralo que emoldurava o seu sorriso adereçado de ferro — por conta do aparelho ortodôntico que corrigia os seus dentes desalinhados. Era um adolescente altamente desproporcional. O que lhe faltava de altura, lhe sobrava de cabeça. E o que lhe sobrava de cabeça, lhe faltava de carne. O coitado era tão magro, mas tão magro, que uma vez um professor um pouco mais galhofa — o adjetivei assim para não chamá-lo de escroto — o utilizou como esqueleto vivo em uma aula de ciências. Definitivamente beleza não era o seu forte. E, vou te contar, se beleza não era o seu forte, as relações sociais eram ainda mais desacertadas.
O jovenzinho adorava o que os outros abominavam. Gozava daquilo que os outros se enojavam. Discursava o que ninguém queria ouvir. O pobre não tinha amigos, não tinha amores e a sua “excentricidade” repelia aos fulanos, aos ciclanos e aos beltranos. Disseram que ele não tinha ventura. Disseram que ele invocava demônios. Disseram, até, que ele era o próprio tinhoso. Cansado de tantos “disseram”, ele resolveu vestir a personagem. Virou o diabo — em pele e osso, porque carne lhe faltava. Ergueu o pai-de-todos ao mundo e despertou o foda-se que vivia reprimido dentro de si. Foda-se para as pessoas. Foda-se para quem merecesse foda-se. Foda-se! Simplesmente, foda-se!
O tempo, como deve ser, passou. E até que a sua passagem fez bem para o pobre diabo. A criança bonitinha que se transformou em um adolescente horrível virou um adulto razoavelmente aprumado. Não que tenha virado um primor de beleza. Longe disso. Mas até que ele ficou jeitosinho. Sua excentricidade, outrora repelente, agora o tornara um sujeito bacana, descolado. Devagar ele foi conquistando terreno, ganhou um pouco de confiança. Não muita, mas para quem não tinha nenhuma, qualquer confiança já era algo. Descobriu as delícias da carne, os prazeres do outro sexo, e adorou. Deleitou-se o quanto pôde. Mas, no fundo, bem no fundinho, ele se sentia um velho saco de estopa furado. Sentia a sua vida minguada como se faltasse o resto da lua. Cansado de expor sorrisos em vão, ele resolveu sair à procura daquilo que lhe faltava, mesmo sem saber direito o que era.
Sem embromação, o rapaz olhou para o lado, metaforicamente falando, e não viu ninguém. Sentiu-se só, e tão logo percebeu: lhe faltava um amor. Sim, um amor! Óbvio! Um amor daqueles, de novela. Um amor para a vida toda. Um amor para celebrar, andar de mãos dadas, rir por nada. Enfim, um amor para chamar de […] amor. Ele olhou para o outro lado e, pasmem, conheceu o desejado amor. Mas o amor tão breve chegou, tão breve acabou. E o pobre rapaz aprendeu o que era a desilusão. Sofreu. Sofreu muito. Não entendia como um amor poderia se acabar assim.
Como disse anteriormente, o rapaz sofreu, chorou horrores. Chorou até que um dia ele se lembrou do foda-se que o ajudara a superar as mazelas de outrora. Braseou-o com pulmões fortes e resolveu dar um tempo nessa história de procurar o amor. Foda-se! Que se foda o amor! Que se foda Cupido, Eros, Afrodite, Vênus e qualquer outra entidade que represente o amor. Não queria mais saber de santo casamenteiro, nem de anjo arteiro. Naquele instante o rapaz passou a se amar mais do que querer achar alguém para amar. Foi se amando que ele aprendeu o que realmente era amar. E foi assim, se amando e não procurando que ele conheceu finalmente o amor — mais uma vez. Dessa vez um amor diferente do amor de outrora. Um amor de duas vias. Ela é o amor dele, e ele é o amor dela. Um amor que não se parece com aqueles amores de novela, pré-moldados e engessados. Mas é amor. Agora, amando ele é amado. Agora, se amando ele ama outrem. E, finalmente, amando ele é feliz. De sua maneira, mas é feliz.
E se não gostou dessa história, foda-se!
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| Devil in love. |

Entre risadas, lágrimas e owns.
ResponderExcluirO bom e velho tragicômico.
ExcluirUma mistura de trágico e cômico bem balanceado! Haha amei.
ResponderExcluirValeu, Luan!
ExcluirSem palavras, as encontro nos comentários anteriores… e faço desses comentários, os meus!
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