A quarta-feira de cinzas
ATENÇÃO: conteúdo delicado.
Se você não sabe o que é dor, minha senhora, seu lugar é pro lado de lá. Por de trás desta porta. As bandas de cá são pra'queles que cansaram de sofrer. E até do bocejo estou cansado. Me escondi pra não expor o trágico. Ainda mais pr'olhos desacostumados como os teus. Por isso me tranco em fortaleza antiflagra. Enquanto você, de fora, esmurra os portões da salvação. Não à própria, a alheia. A salvação do mais corajoso dos covardes. Daquele que esconde o seu rubor d'outro lado. O rubor por ato que em breve o palidecerá. Medo da vida, coragem pr'oposto. Parece que a coragem é relativa. Tempo e espaço. Tudo, absolutamente tudo, depende d'um referencial. Você na agonia de ouvir o choro alheio — o choro que vêm de lá d'outro lado — e em breve conhecerá a agonia ainda maior do silêncio mórbido. Mórbido pode virar estado eterno. E se é eterno, é morte. Aquele silêncio que incomoda àqueles que ainda vivem. O fado da incapacidade percorre suas veias, imaginando o rasgo na veia alheia. Enquanto o seu coração, rasgado, dói; outro pulsa na disritmia de um samba em luto, sangue corpo afora. Como dito dantes, "agora é tarde, Inês é morta". E o bumbo se silencia.
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| D'outro lado da porta. |

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