As três carpideiras
A mãe, coitada, era uma coitada. Tinha uma vida de merda. Órfã, morava na rua e a fome mandava lembranças do nascente ao poente. Seu bolso não sabia o que era ter centavos. Sempre que sobravam alguns, o endereço era certo: arranjar comida. Um bico aqui e outro acolá lhe mantinham o mínimo de dignidade possível. Trabalhava com o que dava, onde dava e como dava. Mesmo com pouca idade, fez de quase tudo nessa vida; mas o seu ofício mais frequente, e o único que talvez gostasse, era de carpideira. Quando debruçada aos prantos na tampa de um caixão, se sentia uma atriz. Uma atriz dessas de novelas, mesmo sem saber direito o que era ser uma atriz e o que era uma novela. Foi enquanto exercia o ofício de carpideira que conheceu o dono de uma pequeníssima funerária, mas um grandessíssimo bosta, que por ela se apaixonará. Sem muita escolha, cedo se casou sonhando com uma vida nova. Tão logo percebeu que se casar com um bosta a levou de uma vida de merda para uma vida de bosta.
Teve três filhas. Aos 16 anos pariu a primeira filha no dia de finados. A segunda, dois anos depois, também no dia de finados. E a terceira, pasmem, dois anos após o nascimento da segunda filha, também no dia de finados. Incrivelmente, todas as filhas nasceram no dia de finados. A primeira, Maria das Graças, fruto de uma gravidez indesejada. A segunda, Maria das Dores, fruto de um estupro cometido pelo próprio marido. E a terceira, Maria dos Milagres, fruto de um adultério. O corno nunca desconfiou, mas também nunca dedicou muito de suas rugas para a criação de suas filhas. A primeira filha era caxias. Sempre correta e solicita para ajudar aos pais, mas principalmente à mãe. A segunda, revoltada. Não aceitava o tratamento que o pai dedicava à família. Insubordinada, vivia escapulindo de casa para praticar suas peripécias nas ruas, mas estava sempre pronta nos momentos de precisão. E a terceira, a revolucionária. De sua maneira, implantou a insurreição em casa. Não precisou de muito, bastou ser ela mesma para a semente ser plantada. Mostrou à mãe e às irmãs que bagagem alguma no mundo justificava o tratamento que elas recebiam do patriarca da família. Três Marias, cada uma com a sua identidade, cada uma com a sua personalidade.
A mãe também era Maria. Mas era só Maria mesmo. Ensinou a profissão de carpideira às três filhas. A necessidade fez com que a arte da carpidaria, se é que existe essa palavra, fosse passada para as gerações mais novas. Chorar em velórios alheios — obviamente alheios — colocava comida em casa. Era o que restava, afinal, as funções que exercia na funerária, quase todas, não lhe rendiam um mísero vintém. Limpava o ambiente, lustrava os caixões, preparava as coroas de flores, arrumava e maquiava os defuntos; enfim, fazia de um tudo e não recebia um vintém em troca do trabalho dispensado. A única função que não exercia na funerária era a de cuidar das finanças. Essa parte cabia ao marido, que a fazia com exímia incompetência. A funerária estava naufragada em dívidas. E não era para menos. Parte do dinheiro que ganhavam, que não era muito, o traste do marido gastava no jogo, e a outra parte servia para o desgraçado encher o cu de cachaça com os amigos no boteco da esquina de casa. Fato é, Maria e as filhas ficariam as mínguas se não fosse a carpidaria.
Como carpideira, Maria fazia serviço completo. Era a primeira a chegar, já chorando, no velório; acompanhava de perto, chorando, o cortejo; e só ia embora, ainda chorando, com o pagamento no bolso e com o defunto enterrado há sete palmos do chão. Se precisasse, chorava debruçada sobre o caixão. A depender da gorjeta, clamava aos santos para ser enterrada junto ao defunto. Levava as filhas para o trabalho porque: primeiro, não confiava na índole do imprestável do marido; e segundo, elas ajudavam muito bem na composição da personagem. Sempre que as três Marias acompanhavam à mãe no velório, o sucesso e a satisfação dos clientes eram garantidos, assim como as gorjetas.
Trabalhar em funerária é complicado, ainda mais em funerária familiar. Não existe expediente para quem precisa de dinheiro. E não tem hora marcada para o povo morrer. Paciência. Quando finalmente conseguiam encerrar os serviços, Maria e suas filhas voltavam para casa — que ficava nos fundos da funerária — para cear e repousar. Mas, no fim das contas, não conseguiam se desligar do trabalho. Mantinham os ouvidos vigilantes para o caso do telefone da funerária tocar, ou de algum cliente aparecer na porta do estabelecimento batendo palmas e gritando: "ô de casa"! Ultimamente, com a linha do telefone cortada por falta de pagamento, as intervenções pós-expediente se tornaram raras.
Em uma terça-feira qualquer, de noite chuvosa, rasga-mortalha de folga e funerária às moscas; mãe e filhas fecharam as portas do estabelecimento e foram para casa pensando no desjejum. Abriram a geladeira e o armário da cozinha. Olharam em cima da mesa e dentro das panelas. Enfim, procuraram por comida aonde havia de ter comida. Constataram o óbvio, não tinham muitas opções. Quando notaram que ou comeriam cuscuz com margarina, ou cuscuz sem nada, optaram pela primeira. Em uma sintonia fina, mãe e filhas colocaram sal no cuscuz, hidrataram o cuscuz, deixaram o cuscuz descansando por volta de dez minutos, despejaram o cuscuz na cuscuzeira, ascenderam o fogo, montaram a mesa; eis que o inesperado resolveu bater à porta. Infelizmente não era cliente. Era o patriarca da família, bêbado, trocando a perna esquerda pela direita, com a roupa rasgada e todo fodido de porrada. Como se não bastasse o trabalho por existir, o traste arrumou uma briga em um bar que lhe custou quatro dentes do sorriso e alguns ossos triturados.
Puta da vida, Maria saiu de casa — debaixo daquelas chuvas de se perder os chinelos — para comprar, fiado: remédios, ataduras e ingredientes para cozinhar uma sopa para o traste do marido. Antes de sair, Maria delegou às meninas as funções de cada uma enquanto sua ausência. A filha mais velha não titubeou e tão logo começou a limpar as feridas do pai. A filha do meio, que se lixava para o ocorrido, respirou fundo emputecida e foi prestar auxílio à irmã mais velha. Enquanto a filha mais nova ficou encarregada de manter os olhos no cuscuz que estava no fogo. Com a calma de um monge tibetano, ela se dirigiu até o fogão e apagou a chama que preparava o cuscuz. Se virou em direção às irmãs e ao pai. Caminhou lentamente até eles. Cutucou os ombros das irmãs que se viraram e foram surpreendidas com o olhar de um oráculo vindo da irmã mais nova. Com um sinal com a cabeça, ela sugeriu que as irmãs trocassem algumas palavras no canto da sala, longe do patriarca. Sem entender o motivo, e sem ousar se opor ao chamado, as irmãs toparam e largaram o pai todo fodido sentado em uma cadeira. A irmã mais nova era visionária. Ela viu surgir uma oportunidade de ouro. Uma oportunidade que poderia demorar muito tempo até surgir outra igual. Uma oportunidade que mudaria para sempre a vida da família. Com o pai naquele estado, todo estrupiado, a filha mais nova provou às irmãs, por A mais B, o quanto a vida da família seria muito melhor sem aquele traste servindo de âncora. A filha do meio foi facilmente convencida. A filha mais velha até relutou por um tempo, mas bastou o pai grunhir em forma questionamento o motivo da demora das filhas e ordenar que uma delas o levasse uma dose de cachaça para que as três irmãs se entreolhassem, se entendessem, e se unissem em um espancamento coletivo jamais imaginado. Murros, chutes, socos, pontapés, cotoveladas e joelhadas. Bateram, sem pena, até o pai virar o próximo serviço da funerária. Era o crime perfeito. O desgraçado entrou num bar, encheu o cu de cana, arrumou uma briga, apanhou feito uma pinhata mexicana, voltou para a casa e lá morreu. Foda-se! Caso encerrado. Nem mesmo a pessoa que espancou o traste no bar questionaria a autoria do assassinato. E assim foi.
Maria chegou em casa ainda no decorrer do espancamento. Obviamente, se assustou com a barbárie que presenciou naquele momento. Um susto que a fez derrubar as sacolas com as compras que acabara de fazer. Maria olhou para filha mais velha e a sua expressão era o sinônimo da vergonha. Olhou para a filha do meio que estampava a empolgação do instante de um apito final que lhe rendera o título de campeã de uma Copa do Mundo. Olhou para a filha mais nova que não estampava nada em sua face, tal qual uma exímia jogadora de truco que acabará de olhar as suas cartas. Como disse antes, três Marias, cada uma com a sua identidade, cada uma com a sua personalidade. As expressões das meninas serviram como um perfeito resumo da situação. Maria conhecia suas filhas. Sabia que palavra alguma explicaria melhor o ocorrido. Maria gargalhou como talvez nunca fizera em sua vida. Foi a primeira vez que se sentiu plenamente feliz. Avançou em direção ao corpo do marido caído no chão como um jogador de futebol que está prestes a bater um tiro de meta. Com exímia precisão, acertou uma bicuda de beque-central galdério bem no meio da boca do estômago do, agora ex, marido. Sua intenção era dar o golpe de misericórdia que o mataria, mas Maria já estava atrasada para tal façanha. Maria apenas descontou sua raiva em defunto pelos anos que passará em um casamento de bosta. Coincidência ou não, o defunto era o responsável pelo casamento de bosta.
Os dias — como deve ser — seguiram. A poeira se assentou, o plano da filha revolucionária funcionou perfeitamente. E Maria passou a tomar conta, agora por completo, dos negócios da família. Transformou uma pequeníssima funerária na funerária mais famosa da região. Não há, se quer, um defunto nas redondezas que não queira ser enterrado na funerária da Maria. Até hoje não recebeu queixas de nenhuma alma viva, muito menos de almas mortas. A satisfação é garantida. No que toca às três Marias, continuam trabalhando como carpideiras, tanto por amor a mãe quanto por amor a profissão. Decerto são as melhores do mercado. A mãe é todo orgulho pelo sucesso das filhas. Já velaram de um tudo nesse mundo. Atores e atrizes, cantores e cantoras, palhaços e palhaças, a lista é longa. As meninas velaram até um velho ex-governador do estado que apesar de toda filha-da-putisse do político e da predileção familiar pela outra chapa, ainda assim choraram como se fosse um ente querido. Ainda assim, Maria não tem dúvidas, o melhor trabalho que as três carpideiras já apresentaram até hoje, a obra-prima de suas filhas, foi no velório do patriarca da família. Quanta verdade as meninas passaram, e sem cobrar um vintém pelo serviço.
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| As Três Marias. |

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