Cruz e credo

Não! Eu não creio!

Eu não creio em Deus-pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra.

Não creio que um homem, batizado Jesus (do nome hebraico יֵשׁוּעַ, transl. Yeshua), nato de Belém, na Judeia, que residira em Nazaré, na Galileia, teria sido concebido pelo poder do Espírito Santo e, pasmem, nascido de uma virgem chamada Maria (do nome hebraico מרים, transl. Miriam). 

Enquanto convicções mínguam e dúvidas me abundam, seguro estou de que Espírito Santo é um estado brasileiro fronteiriço aos também estados brasileiros do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. E por falar em Bahia, eis a comunhão dos santos que conheço. A Baía de Todos-os-Santos. Bahia de São Salvador.

Dizem que o pobre nazareno, por volta de seus 30, 33 anos, foi preso por atentar contra a ordem estabelecida pelo Império Romano. Também dizem que ele padeceu sob Pôncio Pilatos — governador da província romana da Judeia entre os anos 26 e 36, mais ou menos — que o condenou à pena de, como bem dito por Raul Seixas, morrer dependurado em uma cruz. E, no frigir dos ovos, dizem que Jesus cumpriu sua pena, ou seja, foi crucificado, morto e sepultado. Dizem. Mas, vai saber? O povo diz muita coisa. Eu não estava por essas bandas no findar dos a.C. para confirmar tantos dizeres. A única certeza que carrego é a minha ausência de culpa. Diante disso, lavo as minhas mãos.

Crer na vida, no fado e na morte do nazareno, ao qual creditaram o ofício de carpinteiro — e profeta, nas horas vagas —, eu consigo. Pessoas nascem e morrem o tempo todo — inclusive agora, enquanto você lê essas palavras. Mas, acreditar que em seu pós-morte — ao invés de cumprir o papel ecológico de todo morto, servir de alimento aos seres necrófagos —, o homem ressuscitou ao terceiro dia, e subiu aos céus, onde está sentado à direita de Deus; a mim, é além da conta.

Como já dito, e soo repetitivo, eu não creio. Não creio na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e, muito menos, na vida eterna. E também não creio no amém. Ou melhor, pensando bem, confesso, a minha envergadura política somada à educação que meus pais me dedicaram me fazem crer na remissão — terrena, que fique bem claro — dos pecados. Mas, no resto, eu não creio.

Aos descrentes, esse tipo de gente crente na descrença, como eu, se dá a alcunha de ateu. E assim sou. Agora, sendo eu ateu convicto, me contradigo a cada sorriso teu. Alumiado como poucos, talvez único, apenas o divino poderia ter forjado tal obra. A ele, pelo capricho, digo: Amém! 


Muqueca boa é de mainha!
Moqueca boa é de mainha!

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