Macetando o Apocalipse

João era um típico cristão fervoroso. Quarta geração de uma família evangélica. Ia à igreja na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado e, obviamente, no domingo, que é o dia oficial de ir à igreja. João era solteiro, parte por falta de opção, uma vez que as mulheres da igreja não se engraçavam muito para o seu lado; e parte por ainda não ter encontrado a sua cara-metade, com a qual iria copular, mas apenas com o intuito da procriação. João tinha as suas manias. Ao acordar, mal abria os olhos, ainda cheios de remelas, e corria para o oratório abrir uma página aleatória da Bíblia e tentar decifrar o que Deus havia preparado para o seu dia. João tinha pia certeza de que recebia mensagens do divino através das escrituras sagradas. No estilo daqueles passarinhos que tiravam a sorte das pessoas nos circos mambembes de outrora. 

João sempre sonhou em ocupar um cargo de liderança na igreja em que frequentava, mas nunca foi indicado a um. A João, o pastor dizia que ele ainda era verde demais para tamanha responsabilidade. João não se frustrava com isso, sabia que tudo deveria correr no tempo e na vontade de Deus, e assim levava sua vida. João era um varão conhecido por toda a comunidade. Não muito bem quisto, mas sempre muito solícito, principalmente pelos sucedidos da igreja. João era conhecido como o garoto de recados do pastor. Se algum irmão ou irmã, varão ou varoa, faltasse o culto, atrasasse o dízimo ou qualquer coisa do gênero, João era o primeiro a bater em sua porta para indagar os motivos, questionar as razões, negociar prazos, conversar sobre as lástimas e, principalmente, tomar um café e comer um bolo. Segundo o próprio, negar café e bolo é pecado. Mas João estava meio jururu, mais pra lá do que pra cá. Uma pessoa muito importante da igreja andava a dar bolos em João, enquanto o pobre andava empanzinado.

João não entendia o motivo do afastamento do pastor. O pastor, agora, vivia a tira colo com as das Dores. Era das Dores pra cá, das Dores pra lá, das Dores pra todos os lados. A das Dores era uma varoa muito conhecida na igreja, daquelas beatas fervorosas. Casada com o Oséas há muito tempo, das Dores firmou matrimônio logo cedo, e provavelmente se arrependia muito por este fato. Tinha uma relação monótona com Oséas. A vida do casal era baseada em fingir que o marido mandava e a mulher fingir que obedecia. Na igreja, das Dores tinha a fama de fofoqueira, e de fato era. Não se importava, nem um pouco, em inventar verdades para granjear os seus quereres. Mas, como esta não é a história da das Dores, voltemos ao João, o varão andava jururu por desconfiar de que o pastor estava lhe evitando. 

A verdade é que o pastor sempre evitou o João, mas não conseguia dar um ponto final na relação dos dois. O pastor sentia pena do pobre do João, um tremendo de um bobão incapaz de prejudicar propositadamente a uma formiga. Não era por mal, mas o pastor achava o João um verdadeiro pé no saco. E se sentia sufocado por grude amiúde. Um dia o pastor acabou confessando seus sentimentos de fadiga em relação ao João à das Dores, e a varoa se prontificou a desatar esse nó. Diferente do pastor, das Dores não tinha pena de João. Queria mais é que ele se fodesse e parasse de empatar a sua foda com o pastor. Sim! A das Dores, casada, tinha um caso com o pastor, que também era casado. E, no fim das contas, a proximidade de João, para não dizer intromissão, com o pastor atrapalhava alguns bons momentos de sexo entre os adúlteros. Então, das Dores, sem pestanejar, inventou algumas verdades sobre João. Armou o circo para que toda a igreja soubesse dessas verdades, mas que mal teve trabalho para espalhá-las. Jogou no ventilador contando para Maria, outra fofoqueira da igreja, que contou para Bernadete, que contou para o seu marido, Carlos, que contou para um bocado de gente na pelada dos varões, que, resumindo, tão breve toda a congregação já sabia da fofoca. Toda a congregação, exceto o João. O pobre não tinha ninguém para lhe contar a fofoca a qual o próprio era o protagonista. 

Coitado do João. Sem saber que o seu nome passeava pelas bocas de todos os irmãos e irmãs da igreja, mais do que o Salmo 23, foi cumprir as suas obrigações de bom cristão e, inocentemente, se dirigiu ao culto. Nem mal colocou o pé, provavelmente o esquerdo, na igreja para ser atingido por um bombardeio de olhares. Daqueles de rabo de olho, que doem mais do que agulha enfiada entre a carne do dedo e a unha. João estranhou o comportamento dos irmãos, mas seguiu adentrando a igreja. Cada passo de João, cada meio metro avançado, resultava em um novo olhar alheio de espanto, que resultava em uma cutucada no ombro de um irmão distraído, resultando em outro olhar de espanto, que resultava em um cochicho ao pé do ouvido e, por fim, em duas, três, quatro gargalhadas – esse número variava conforme o número de espantadas e cutucadas. João havia entrado em vórtex de olhares, espantos, sussurros e gargalhadas. 

Intimidado, João resolveu fugir daquele lugar, e daqueles olhares, e daquelas gargalhadas. Feito o estouro de uma boiada, saiu em retirada com o objetivo único de chegar aos fundos da igreja, e assim fez. Quando finalmente se viu sozinho, João encostou as costas no muro, deslizou lentamente o corpo para baixo, como se fosse sentar no nada, respirou aliviado, olhou para o lado, para um canto mais afastado, e avistou outras pessoas que, assim como João, também queriam estar sozinhas, mas por outros motivos. João flagrou o pastor e a das Dores com a boca na botija. Mais especificamente, a das Dores com a boca na botija do pastor – acho que não preciso ser mais explícito. A diversão dos pombinhos era tamanha que eles sequer notaram a presença do João. O segurança da igreja, um verdadeiro cão-de-guarda e maior testemunha dos embustes do pastor, notou que o caminho escolhido por João para a sua fuga poderia resultar no flagra que resultou. Tentou persegui-lo e pará-lo, mas falhou em sua missão. A essa altura, João já tinha visto o que tinha visto, voltado à igreja e se misturado à multidão que esperava o início do culto. O pastor, logo após acabar de aliviar suas tensões com o auxílio da das Dores, saiu às pressas para iniciar os seus trabalhos. O segurança tentou alertá-lo sobre o flagra, mas o pastor estava ocupado demais fechando o fecho ecler. Já atrasado, o pastor correu esbaforido em direção ao palco sem entender, sequer, uma palavra de seu fiel escudeiro que, pisando em ovos, tentava lhe explicar o ocorrido. A conversa precisou ser adiada e novamente o segurança havia falhado em sua missão.

Tudo corria dentro dos conformes enquanto o pastor  pastorava o seu rebanho. Tudo corria bem até o testemunho. O testemunho é o momento em que algum fiel é convidado a subir ao púlpito para relatar, pasmem, o seu testemunho relacionado a algum problema específico intercedido pelo poder do Espírito Santo, ou algo assim. O pastor angariou por interessados e prontamente João se escalou. O segurança, mais uma vez, tentou alertar o pastor sobre o recente flagra ocorrido nos fundos da igreja. O pastor, entretido com a execução de seu ofício, não deu a mínima para as tentativas de seu segurança e chamou João ao palco. Assim fez João. Cumprimentou a todos que dividiam o palco com o pastor com acenos de cabeça e tímidos erguer de mãos. Se direcionou ao púlpito. Lá chegando, se posicionou e deu dois toques na grade de ferro do microfone para conferir se o aparelho estava ligado, e estava. As palavras estavam prestes a sair da boca de João quando uma microfonia atrapalhou o início de seu testemunho. João esperou o fim do ruído e, assim que o silêncio reinou outra vez, disse dois alôs no microfone, apenas para garantir que de fato estava tudo certo com a aparelhagem de som. Confirmado o seu bom funcionamento, João iniciou, e tão breve terminou, o seu testemunho com a seguinte frase: 

– Eu vi o pastor e a das Dores transando no fundo da igreja.

A igreja recebeu o testemunho de João com uma longa interjeição de espanto. O burburinho foi imediato. Aos berros, alguns tentaram defender o pastor. Também aos berros, outros tentaram acusar o pastor. Alguns irmãos diziam que João caluniava por ser um pederasta apaixonado pelo pastor. Outros irmãos que não iam com os córneos do pastor o chamavam de adúltero, de salafrário e outras coisas que normalmente não são proferidas em uma igreja. E outros irmãos que não iam com os córneos da das Dores, nem com os do João, mas que achavam que ele era o menor dos problemas, enfim, defenderam João e acusaram a das Dores de calúnia, fofoca e adultério. O pastor, que não sabia onde enfiar sua cara, pegou o microfone e gaguejando, tentou chamar a atenção da igreja. Sem sucesso, tentou puxar um louvor para acalmar suas ovelhas revoltadas. O louvor não deu conta. Confusão, disse me disse, ameaças com dedos em riste, empurrões, puxões de cabelo, cadeiras voando, socos, bordoadas e pontapés. Finalmente, tiros para alto. Como o pregador João Batista, o segurança do pastor perdeu a cabeça. Em plena casa do Senhor, deu três tiros para o alto enquanto corria, aos berros, atrás de João lhe jurando de morte. Alheio a tudo aquilo, João caminhou lentamente, se desvencilhando da confusão, em direção à saída da igreja. 

João escapou ileso e voltou para a sua casa pensativo, cabisbaixo, chutando o ar. Não conseguia entender o motivo da das Dores inventar aquela história de pederastia e paixão pelo pastor. Também não conseguia entender como o pastor poderia se envolver em tamanha confusão. 

– Logo o pastor? Se perguntava, João. 

Quando finalmente chegou em casa, João tomou um banho e, após, se sentou no sofá em frente a TV pra tentar relaxar um pouco, mas nem mesmo a sua novela bíblica preferida conseguiu prender a sua atenção. O teto branco e seus pensamentos confusos o atraiam mais do que lâmpada acesa atrai mariposas. O pobre se esforçou para entender e, quem sabe, resolver a sua situação na igreja. Se esforçou ao ponto de sair fumaça de sua cabeça. Buscou uma resposta, talvez duas ou três. Ele havia de sair daquela sinuca de bico que tinha entrado. E, apesar de querer suas respostas a pronto entrega, não as teve de imediato. João entendeu que as coisas não se resolveriam de uma hora para outra. João entendeu que precisava de tempo para pensar. Entendeu que, assim como Jesus, deveria deixar o Espírito guiá-lo para o seu próprio deserto. 

Na manhã do dia seguinte, antes mesmo do galo cantar, João já estava de pé, pronto para iniciar a sua saga de reflexão espiritual. Antes de sair de casa, abriu a Bíblia aleatoriamente como tinha o costume de fazer e, pasmem, abriu em Isaías 24, o profeta do fim dos tempos. "Toda a Terra está profundamente perturbada e caótica; tudo está ao abandono e perdido. Ela cambaleia como um embriagado; parece uma tenda sacudida sob uma forte tempestade. Cairá e não mais se levantará, porque os seus pecados são de extrema gravidade." (Isaías 24:19-22). Sem falar para onde ia, quando ia, quando voltava, sem falar porra nenhuma a ninguém, João rumou ao seu deserto carregando consigo apenas dois litros de água em uma mochila, um exemplar da Bíblia no sovaco e as palavras do profeta em sua cabeça. 

Diferentemente de Jesus, João não precisou de 40 dias e 40 noites no deserto para a sua provação. João passou apenas três dias e três noites dividindo seus pensamentos entre os recentes acontecimentos na igreja e o desejo por um X-Burger – provavelmente o X-Burger era a sua tentação. Mas, deixando a tentação de lado, o que nos importa é a parte da igreja; João, durante o tempo em que passou no deserto, tentou juntar os cacos e a posição de cada personagem nessa história com trama de novela barata. Pra isso, João usou a aritmética. Somou o pastor com a das Dores; subtraiu a pederastia e a sua sexualidade – logo após confirmar a sua orientação –acrescentou na equação tiros na igreja e ameaça de morte; e, por fim, multiplicou tudo isso pela profecia do profeta Isaías. Eureca! João matou a charada do sagrado. Conquista, Guerra, Fome e Morte. Conquista: o pastor era o falso profeta que angariava o rebanho, o primeiro cavaleiro do Apocalipse. Fome: a fofoqueira da das Dores, cheia de regalias na igreja, representava a injustiça e a disseminadora do caos. Ela era o segundo cavaleiro. Guerra: o segurança do pastor, aquele cão-de-guarda mal-encarado, deu três tiros na casa do Senhor, um local sagrado, e ainda jurou João de morte. Ele havia de ser a Guerra, o terceiro cavaleiro. Só faltava a Morte, o quarto e último cavaleiro. Apenas um cavaleiro para a chegada do repetido a exaustão, por Rádio-Taxi e um bocado de bandas de axé, fim da odisseia terrestre. Era isso! Era tão óbvio! Era o Apocalipse! Não restavam mais dúvidas. João, fora arrebatado pelo Apóstolo João, filho de Zebedeu, aquele que escrevera o Apocalipse. João era o mais novo mensageiro de Deus! E não só isso, João era o mais novo justiceiro de Deus! Ele não iria permitir a chegada do quarto cavaleiro.  Se dependesse de João, a Morte nunca pisaria na Terra. E João se sentia pronto para impedi-la.

Após o período de provação no deserto, João já conhecia o seu objetivo: frear o Apocalipse. Também já sabia o que precisa fazer para tal: dar fim aos três cavaleiros do Apocalipse que já estavam por essas bandas e impedir a chegada do quarto, a Morte. Agora ele só precisa descobrir como faria isso. Resolveu tentar a sorte na internet. Pesquisou “como matar um cavaleiro do Apocalipse” e não teve muito sucesso. Mudou a pesquisa para “como matar uma pessoa”. Encontrou um mundarel de maneiras, desde veneno de rato até revólver. Nenhuma delas agradou ao recém-autonomeado Justiceiro do Divino. Continuou sua busca na internet durante incessantes cinco horas até descobrir o fascinante mundo das lâminas. Foi amor a primeira busca. Era isso, João nunca se igualaria ao segurança do pastor apontando um revólver para outrem. João tinha princípios. Cumpriria a sua missão portando apenas um punhal. Se dedicou por mais umas três horas em um minucioso estudo e, após tanta dedicação, se sentia pronto para matar uma pessoa de até 100 quilos usando um punhal. Seu plano estava pronto. João olhou as horas em seu relógio, fez alguns cálculos mentais e concluiu que conseguiria dar um pulo na loja de artigos de acampamento para comprar um punhal e ainda chegar na igreja antes do início do culto das 19h. E assim João fez. Pegou sua Bíblia, a colocou no sovaco, saiu de casa, passou na loja de artigos de acampamento, comprou o seu punhal, fez uma oração para abençoá-lo e correu para a igreja decidido a frear o fim dos tempos. João chegou a umas duas quadras da igreja e resolveu abrir a sua Bíblia para, talvez, receber um último sinal de Deus. Outra vez, pasmem: “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou”. (Apocalipse 21:4)”.

O recado estava dado. Não haverá mais morte, a antiga ordem já passou. O divino não poderia ser mais explícito. Chegada a hora de João agir. E ele estava pronto para cumprir o seu chamado. Seu plano de frenagem ao Apocalipse estava prestes a ser colocado em prática. João caminhou até a igreja e, ao chegar ao portão, foi barrado pelo segurança. João abriu um sorriso de canto de boca, pois isso já fazia parte de seu plano. João ficou do lado de fora, na esquina, esperando o fim do culto. Assim que o ponteiro do relógio apontou 21h, João correu para o portão da igreja de onde começaram a sair os primeiros irmãos. João abriu outro sorriso de canto de boca, tudo continuava dentro do planejado. João ficou esperando a saída do pastor. Assim que o pegureiro apontou a porta da igreja, João gritou para chamar sua atenção. Tanto o pastor quanto as pessoas que estavam próximas a ele se assustaram e procuraram a origem do grito. Quando notaram que a sua gênese se dera por João, deu-se início a um tremendo quiproquó. 

O pastor, puta-velha que era, havia convencido a igreja de que o ocorrido há alguns dias não passava de um delírio ou, quem sabe, uma possessão demoníaca. Livrou sua cara, livrou a cara da das Dores e, de quebra, colocou um diabo no corpo do pobre do João. Retomando, João gritou, os irmãos se assustaram e quando notaram que a gênese do grito se dera por João, começaram a chamá-lo de Diabo, de Sete-Pele, de Capiroto, Coisa-Ruim, e mais um monte de alcunhas que o Diabo carrega. João, mais uma vez, deu um sorriso de canto de boca, seu plano funcionava perfeitamente. O pastor, como já dito, puta-velha, enxergou uma oportunidade de lucrar com a história e sair dela como o compadecido. Pediu a fala e ordenou aos irmãos que abrissem caminho para que João se aproximasse. Assim fizeram. João, com outro sorriso de canto de boca, se aproximou. De longe, ainda na igreja, das Dores estranhou a confusão que ocorria no pátio e correu para curiar. Ao ver João, a fúria tomou conta da mulher que partiu em disparada para alcançá-lo e sabe-se lá fazer o que com ele, uma vez que estava puta da vida por João forçar, mesmo que involuntária e temporariamente, o fim de seu caso com o pastor. A essa altura João já estava frente-a-frente com o pastor que perguntou o que ele desejava. Prontamente João respondeu que desejava um abraço. Também prontamente o pastor abriu os braços para receber João em um abraço fraterno. Os homens se abraçaram e João aproveitou o momento de trégua para apunhalar mortalmente o pastor em seu pescoço. As aulas na internet surtiram efeito. 

Ao tempo que João apunhalava o pastor, das Dores de um salto buscando deferir um soco na face de João. O pastor, já morto, mas sem ninguém ainda notar tal fato, serviu de escudo separando os rivais. O golpe que a das Dores proferiu fez com que os três caíssem no chão. João se levantou, das Dores tentou, mas o pastor não saía de cima da mulher. Ela tentou outra vez, e nada do pastor sair de cima dela. Na terceira tentativa, das Dores empurrou o pastor para o lado e finalmente se levantou. Fez alguns movimentos com as mãos para tirar a poeira de seu corpo. Olhou para a sua vestimenta para saber se estava tudo nos conformes e notou que havia sangue em sua camisa. Procurando alguma ferida, das Dores se apalpou até constatar que estava tudo bem. Olhou para o lado, em direção ao chão onde ainda se encontrava o pastor, e notou que perto dele havia uma poça de sangue. Ao notá-la, a mulher gritou:

– Sangue!

A confusão era tanta que ninguém reparou no pastor caído e esfalecido no chão. Precisou do alerta da das Dores para dar início à comoção. As ovelhas finalmente perceberam que estavam sem o seu pastor. Alguns revoltosos olharam ao redor procurando o assassino, mas não encontraram. Ainda um tanto confuso, sem entender bem o que acabara de fazer, João escapuliu de fininho, sem ninguém notar, e já estava bem longe de toda aquela confusão. João andou, andou e andou até parar em um beco vazio. João olhou para as suas mãos ainda ensanguentadas, uma lágrima escorreu em sua face e uma lâmpada acendeu em sua cabeça. Eureca! João era o quarto cavaleiro do Apocalipse. Ele era a Morte. Ao constatar tamanha sina, João sumiu para nunca mais ser visto. Dizem que João abriu sua própria igreja e que a sua igreja é o mundo, onde prega o fim dos tempos aos quatro cantos. 


Apocalipse.
Apocalipse.

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