O pacto

Três da manhã, a hora dos mortos; e você, oposto, havia de repousar para daqui um tanto se deleitar dos privilégios e dos mistérios da vida. Havia. Abarrotado de conflitos, não prega os olhos nem por 10 vinténs. Mas [...] quem sabe por aquele que ostenta tantos nomes? A culpa não lhe dá folga. Lhe obriga a carregar nos ombros uma, duas, talvez três toneladas de fantasmas de uma vida abarrotada de escolhas socialmente erradas. Não para mim. Onde quadrados enxergam triângulos, eu enxergo dúvidas. Sou 30 gotas de dipirona monoidratada para as dores que os boticários não curam. Àqueles que vivem do pecado, a hora dos mortos é a hora de fechar os olhos e não dormir. Mais valia abri-los e olhar nos olhos do diabo. Encare os seus medos. Esqueça os seus remorsos. Coragem, homem! Abra os olhos! Se cobrir com o lençol não espantará os seus demônios. Pare de se enganar e, ao menos, ouça a minha proposta. Se a vida lhe é cara, lhe oferto a salvação. Lhe ofereço uma vida nova, longe de julgamentos, de moralidades e desses antigos dogmas que lhe tiram o sono. O preço é alto, mas, ainda assim, praticável. Basta assinar este contrato de letras miúdas. Duas gotinhas de seu sangue já estão de bom tamanho. Sele comigo uma aliança perpétua. Assine e brindemos em campos de lírios. Podemos colher alguns e, quem sabe, tomamos um chá. Que tal? Enquanto houver vida, haverá morte; e enquanto a morte não bater à sua porta, lhe asseguro tranquilas noites de sono. Quanto ao porvir, por ora, deixemos o depois para depois.


Lírio branco
Lírio-branco.

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